terça-feira, 9 de abril de 2013

Mário de Andrade e o Nordeste

No final do ano de 1928, Mário de Andrade visitou o Rio Grande do Norte e levou o canto e encanto de Chico Antônio para o mundo. “Já estou no RN, pertencendo ao meu amigo Luís da Câmara Cascudo, e o prazer vai enfeitando o presepe. Mario fica encantado ao passar por Natal. Me deito depois desse primeiro dia de Natal. Estou que nem posso dormir de felicidade. Me entro na cama e o vento vem, bate em mim cantando feito coqueiro. Pois aqui chamam de “coqueiro” cantador de cocos. Não se trata de vegetal, não, se trata do homem mais cantador desse mundo: nordestino. O vento de Natal é mano dele ... Na noite de Natal, em Natal, Mario assiste a um pastoril de meninas e um Diana caçadora sem nenhuma Grécia. - a população se deslocou do Tirol e da Solidão, bairros vizinhos. Os bondes, os autos , as “dondocas” (ônibus) vêm cheios. Gente de branco, gente de encarnado, der azul, moças bonitas ... Junto das barracas do América e do A.B.C, clubes de futebol, a rapaziada faz um sarceiro gostoso, cantando cocos... “ Oh mulé, sai do sereno, / Que essa frieza faz mal ... ”.


O relato dessa viagem foi publicado em o Turista Aprendiz. Em Janeiro Mário conhece Chico Antônio, que para ele vale uma dúzia de Carusos. “ ai seu dotô / quando chegar em sua terra/ vá dizer que Chico Antonio/ É danado pra embolá!” Oh-li-li-ô! Boi Tungão / Boi do Maiorá ...´´. Estou divinizado por uma das comoções mais formidáveis da minha vida. Chico Antônio. cantava a noite inteira por uma cachaça, por coisa nenhuma e passa a noite inteira cantando sem parada. “Que artista. A voz dele é quente e de uma simpatia incomparável... “ Homem bonito e forte já estragado com seus 27 anos e muita cachaça. Mário desejou morar em Natal e encantou-se com as nossas belezas naturais e culturais. O Boi, os catimbós e as músicas de feitiçaria. Um missivista contumaz travou intensa e importante correspondência com Câmara Cascudo, organizada incialmente por Veríssimo de Melo.


Dez anos depois, Mario de Andrade trabalhava no Departamento Municipal de Cultura de São Paulo. Sob a gestão de Mário foi enviada uma equipe para coletar a música folclórica do Brasil. Essa viagem etnográfica foi pensada desde 1926 e tinha por objetivo colher informações do rico repositório etnográfico que é o nordeste brasileiro. Por questões políticas Mario foi afastado do Departamento de Cultura de SP, mas o projeto foi retomado pela grande pesquisadora Oneyda Alvarenga, que passou 30 anos organizando esse material coletado. O Xangô e outros cultos afros eram proibidos em vários estados. Mesmo assim eles conseguiram registrar cerimônia de Xangô, em Pernambuco, e macumba no Maranhão. Nessa missão foram recolhidos: Canto de Trabalho, músicas de rezar, cantar e dançar. Um rico material produzido e idealizado por esse grande brasileiro que sabia valorizar a nossa rica cultura. Não fosse essa missão muita coisa teria sido perdida. Felizmente parte desse material foi recuperado e lançado numa caixa de CDs para a posteridade. Ficamos conhecendo mais o Brasil e suas ricas manifestações culturais, graças a esse rico projeto que teve na pesquisadora Oneyda a sua materialização para a posteridade.


João da Mata.

Um comentário:

  1. Gostaria de saber sobre HISTORIA DE MARIA DOS SANTOS SILVA, uma dona de fazenda aqui no serido,ela judiava muito dos escravos

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