quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Os nordestinos são de origem judia?

AS ORIGENS JUDAICAS DO BRASIL
Geralmente, aprendemos, através dos livros de historia, que o povo brasileiro é formado por três etnias, branco, negro e índio; no entanto fica uma pergunta: Quem eram esses brancos? Apenas portugueses e holandeses?

De fato sim, mas em sua maioria “cristãos-novos” e marranos, ou seja, judeus que foram forçados a se converter ao catolicismo no período da chamada“Santa Inquisição”, na Península Ibérica (Espanha, 1480; Portugal, 1497),que possuíam um considerável numero de judeus em seus territórios em meio apopulação na Idade Média. Esses judeus descendiam dos antigos israelitas daPenínsula Ibérica, remontam à época do Rei Salomão (Shelomo), quando o mesmoenviou hebreus em navios fenícios, pela bacia do Mediterrâneo, em busca demadeira e outros artefatos para a construção do primeiro Templo emYerushalayim (Jerusalém).
Com a cristianização da Europa pela Igreja Católica Romana, muitas minorias (principalmente os judeus) foram obrigadas a aceitar a “fé cristã” sob pena de morte; os que recusavam a conversão forçada eram condenados como heregese depois queimados em praças públicas, esses lugares eram conhecidos comoAuto-de-Fé. Muitos judeus conseguiam fugir para o Norte da África (Marrocos) Grécia, Oriente Médio (em terras mulçumanas), Holanda e Inglaterra. Os quenão conseguiam fugir eram batizados ali mesmo na beira dos portos, e ao receberem o “batismo” esses judeus deveriam trocar seus antigos sobrenomes hebreus por novos Patronímicos Portugueses e Espanhóis, isso para que toda a memória de suas raízes hebraicas fosse esquecida. Agora esses “judeusconversos” deveriam ser chamados de “cristãos-novos”. Com a descoberta da América, muitos cristãos-novos, sonhando em viver livremente as práticas religiosas de seus antepassados judeus, se aventuraram nas caravelas de Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral (ambos de origem judaica) rumo ás terras recém descobertas, entre elas o Brasil. Calcula-se que nos séculosXVI e XVII, vieram para o Brasil em torno de 100.000 (cem mil) judeus de procedência portuguesa (cristãos-novos), muitos vieram seguidamente para o Grão Pará (hoje, estados do Amazonas e Pará e regiões adjacentes).
A Amazônia também teve a sua parte na colonização judaica. Isso significa que o Brasil foi praticamente colonizado por judeus conversos. Hoje em dia restaram apenas os sobrenomes (cerca de 17 mil) dos cristãos-novos e marranos (outra alcunha para judeus que foram forçados a abandonar suas práticas religiosas). Estima-se que exista hoje no Brasil, mas de 16 milhões de judeus descendentes. Atualmente existe um grande interesse por parte de muitos brasileiros em resgatar sua origem judaica. Existem também milhares de descendentes de judeus marroquinos (vieram do Marrocos no séc. XIX para a Amazônia) que também perderam a sua identidade. Relacionamos alguns nomes que possam ajudar em uma busca inicial. Lembre-se existem 17 mil sobrenomes,se o seu não está nesta lista, com certeza poderá está na próxima.
LISTA DE SOBRENOMES:
Abecassis, Abreu, Afonso, Agostinho, Aguiar, Aguillar, Albuquerque, Alcântara, Alencar, Alegre, Alexander, Almeida, Alvarez, Alves, Amarante, Amaro, Amazonas, Ambrosio, Amorim, Amoroso, Anastácio, Ancona, Andrada, Andrad, Andrade, Ângelo, Antero, Antonio, Antony, Antunha, Antunes, Aquino, Aranha, Arantes, Araújo, Arruda, Assis, Assumpção, Assunção, Augusto, Avelar, Bacelar, Balaciano, Balassiano, Barocas, Barros, Baruque, Bento, Bentes, Borges, Branco, Brandão, Brandes, Braz, Brito, Britto, Batista, Barroso, Calixto, Callado, Calado, Calo, Camargo, Campos,Cantor, Cardoso, Carneiro, Caro, Carvalhais, Carvalho, Castiel, Castro, Chaves, Coelho, Cordeiro, Correa, Cortes, Costa, Cunha, Cardos, D’Agostini, D’Almeida, D’Angelo, Damiel, Dantas, De Oliveira, Dentes, Diamante, Diaz (ou Dias), Douglas, Ferraz, Ferro, Ferreira, Flor, Forte, Fortes, Francisco, Franco, Frazão, Freire, Gaspar, Garcia, Gouveia, Guedes, Guilherme, Guimarães, Ávila, D’Ávila, Kardos, Labella, Lagos, Laredo, Lima, Lisbona, Lopes, Lopez, Lucio, Machado, Madeira, Maranhão, Marques, Martins, Mascarenha, Meira, Miyra, Medeiros, Medina, Meirelles, Melo, Mello, Morteiro,  Montilho, Moraes, Moreno, Moreira, Moura,Nogueira, Nunes, Oliveira, Pacheco, Paim, Peres, Perez, Pereira, Pires, Picanso, Pinto, Pitta, Ponte,  Pontes, Portela, Porto, Portugal, Prado, Primo, Queiros Queiroz, Reis, Ribeiro, Rodrigues, Rocha, Russo, Safra, Salis, Sales, Sampaio, Samuel, Miranda, Medico, Santos, Sabóia, Santana, Sereno, Silva, Silveira, Soares, Mendes, Sobel, Sobrinho, Sousa, Souza, Solano, Soriano, Toledo, Torres, Valente, Parente, Ventura, Vidal, Vieira, Trindade, Gomes, Ramos, Vargas, Colaço, Fonseca, Cabral, Tavares, Teixeira, Siqueira, Pinheiro, Perdigão, Menezes, Salgado, Fernandes…”
(Mais informações entre em contato conosco na Comunidade Bet-Shalom de Visão Judaico-Messiânica pelo telefone (092) 3646-8597 ou nosso site: http://wwwbetshalomamazonia.com Autor: Shaliach Roe Yossef Makabi Ben-Menashê)

A CHACINA DE CURRAIS NOVOS

FONTE: http://www.culturadorn.com.br/?p=94

ADAPTADO
Luiz Gonzaga Cortez Gomes.

No dia 23 de novembro de 2011, a revolta comunista de 1935 fará 76 anos. Dos que pegaram em armas ou não, mas que participaram da insureição, só restava (em 2006) vivo o ex-gráfico Francisco Meneleu dos Santos, natural de Areia Branca/RN e residente em Fortaleza/CE. ... Meneleu veio a Natal várias Vezes e aqui recebeu homenagens dos membros do PC do B. Mas isso de lado e vamos relembrar a misteriosa, esquecida e famigerada Chacina de Currais Novos. Você, caro leitor, já ouviu falar nesse massacre? Pois saiba que tem gente viva que viu a chacina na Serra da Dorna, perto de Barra Verde e do Saco do Veado, município de Currais Novos, segundo informa Volney Liberato, pesquisador daquela cidade seridoense, onde os integralistas, agricultores e fazendeiros, comandados por sargentos da Polícia Militar, destacados em Parelhas, Carnaúba dos Dantos, Acary e outras cidades, enfrentaram e derrotaram os revoltosos de novembro de 1935, na Serra do Doutor, município de Santa Cruz. Os elementos civis que se destacaram no combate, conhecido por “Fogo da Serra do Doutor” foram os integralistas de Carnaúba dos Dantas, os irmãos Lúcio, Felinto (este ficou famoso, décadas depois, como compositor de hinos sacros e dobrados), Manoel Lúcio e Joel) e os fogueteiros que fabricaram as bombas caseiras lançadas nos veículos do Exército que transportavam os militares que se destinavam a cidade de Caicó com o fito de implantar o poder revolucionário do Partido Comunista e da Aliança Nacional Libertadora. Dinarte Mariz, que não pisou na serra, foi para Campina Grande buscar armas e munições. Depois da emboscada feita pelos policiais militares e os integralistas, Dinarte apareceu por lá, em direção à Natal.
Quem primeiro abordou esse assunto foi o falecido escritor João Maria Furtado (Vertentes, p. 139, Livraria Olímpica Editora Ltda, Rio, 1976), ao transcrever parte de depoimento prestado por José Bezerra de Araújo, político UDN, ligado a Dinarte Mariz, sobre os acontecimentos na Serra do Doutor e Currais Novos. Dr. José Bezerra de Araújo disse a João Maria Furtado que após a derrota dos comunistas, “elementos do Partido Popular tiraram da cadeia de Currais Novos presos de justiça que lá se achavam e e os que eram adversários políticos foram sumariamente fuzilados, depois de conduzidos a lugar ermo, fora da cidade”. O Partido Popular era liderado por José Augusto Bezerra de Medeiros e Rafael Fernandes Gurjão, este o governador destituído pelos comunistas em 23 de novembro de 1935.
Mas agora, mais de 20 anos depois que publiquei reportagens sobre “O Comunismo e as lutas políticas do RN na década de 30”, em O POTI, um pesquisador de Currais Novos, Volney Liberato, após ler uma matéria minha sobre o ex-marinheiro Jaime de Souza Bastos, 88 anos, que mora em Igapó, Natal, disse que as informações publicadas conferem com algumas informações que ele tem. “Os mais antigos comentam, sem ódio e sem paixões, que quando retiraram os presos da antiga cadeia da rua do Rosário (hoje Vivaldo Pereira), pelos integrantes do Partido Popular, quem era adversário, mesmo sem ser comunista, foram dali retirados e executados sumariamente em local ermo do município, sendo depois seus corpos jogados na Serra da Dorna. Existe também outra versão que foi dada pelo soldado reformado João Rodrigues, hoje (em 2006) com 92 anos de idade, de que, logo após os acontecimentos da Serra do Doutor, poderosos da cidade se dirigiram até a cadeia, onde lá mandaram soltar todos os presos, ordenando que fossem embora, que fugissem. Muitos deles ganharam o caminho de Frei Martinho/PB, mas antes de chegarem Rio da Boa Vista, foram emboscados por cabras contratados por esses poderosos, e sumariamente executados. Dois deles ainda chegaram com vida à cidade, mas um deles finou-se na calçada do cemitério de Santana, sob as esporas de um desses poderosos, enquanto o outro era jogado por cima da parede, da calçada para o interior do cemitério, pelos cabras contratados, vindo a falecer da queda.
O pai de um desses que assim foi executado terminou por ir embora de Currais Novos, pois começou a sofrer discriminação e reserva por parte do “coronelato” local. O pai do outro, se não me engano, enlouqueceu, terminando seus dias em Natal/RN. Como os fatos históricos, principalmente os que se referem aos acontecimentos de 1935, principalmente aqui em Currais Novos, ainda não são muito velados, pois os nomes dessas duas vítimas do sistema repressor do PP, não nos foi fornecido, nem os nomes dos seus pais, pois os mais velhos ainda temem em declinar nomes, como se ainda estivéssemos em plena ditadura do estado novo ou na redentora de 64”, assegurou o pesquisador Volney Liberato.

Luiz Gonzaga Cortez Gomes é jornalista e pesquisador.
Sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

Joris Garstman e o assassinato de Jacob Rabbi (I)

Sítio de João Lostau de Navarro, Margrave
João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG
 
Jacob Rabbi era uma dessas pessoas que muitos governantes gostam, bajulador e ideal para serviços sujos. Fazia esse papel tanto para os líderes indígenas como para o alto poder dos holandeses no Brasil. Sua vida está irremediavelmente ligada à história do Rio Grande do Norte, principalmente, pelos massacres de Uruaçu e Cunhaú. O motivo do seu assassinato, não está ainda de todo esclarecido.
Neste artigo e nos próximos que tratam do assassinato de Jacob e do inquérito instalado contra Garstman, vamos apresentar trechos extraídos dos livros de Joan Nieuof, Pierre Moreau, Roulox Baro e de Alfredo Carvalho
Joan Nieuhof, que viveu mais de 8 anos no Brasil prestando serviços a Companhia das Índias Ocidentais,  em seu Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil, escreveu: À meia noite de 5 de Abril de 1646, Jacob Rabbi foi traiçoeiramente assassinado com dois tiros, perto de Potengi, a cerca de três horas do Castelo Potengi por instigação do tenente-coronel Garstman, quando regressava da casa de uma tal Jan Muller (Dirck Muller), onde fora recebido essa noite em companhia daquele oficial. Conforme revelara a amigos seus, havia já tempo que Rabbi suspeitava da traição de Garstman e, justamente por esse motivo, estava de partida para o Rio Grande a fim de se refugiar entre os tapuias. O Conselho chocou-se profundamente com essa vilania, porque Jacob Rabbi era casado com uma brasileira (índia) e gozava de grande estima entre os tapuias, sendo, pois, de se recear que o crime fizesse com que tanto os tapuias como os brasileiros se revoltassem contra nós. Por causa disso, Garstman foi preso sob custódia, por ordem dos Altos Comissários da Justiça e Finanças aos 24 de abril e foi conduzido ao navio Hollanddia.
Mais adiante diz Nieuhof: Jacob Rabbi, outrora, fora encarregado de estar no meio dos tapuias, comissionado pela Companhia, para manter os tapuias em amizade e boas disposições para com este governo; assim como ele já os tinha, por várias vezes, conduzido das montanhas (onde eles habitavam), em nosso auxílio. Ele morava no Rio Grande, no forte Keulen, e era casado com uma brasileira (índia), embora fosse de ascendência alemã. Garstman voltou ao Recife no dia 19 e relatou aos Altos Comissários os seus feitos.
Em outro trecho escreveu Nieuhof: enquanto isso, os tapuias, exasperados pelo assassínio de seu comandante, Jacob Rabbi, abandonaram-nos. O Conselho fez o que pôde para os acalmar aprisionando e desterrando Garstman, o autor do delito e confiscando seus haveres. Contudo não se conseguiu persuadir os tapuias que se reunissem a nós como antes.
Embora, no seu livro, Nieuhof cite João Lostau, seu sítio, sua prisão e a casa, do dito Lostau, que foi quartel general dos holandeses, nesse relato acima não fez nenhuma referência a qualquer parentesco do mesmo com Garstman. Em nenhum momento do seu relato diz alguma coisa sobre a esposa de Garstman.
Pierre Moreau, que viveu por aqui, apenas dois anos, como secretário de um dos Senhores do Conselho de Estado, escolhido para vir governar o Brasil Holandês, escreveu em História das últimas lutas no Brasil entre holandeses e portugueses: A primeira notícia que lhes foi trazida foi a de que maior parte dos tapuias e brasilianos, que sempre tinham sido aliados dos holandeses e combatido a seu serviço, os haviam abandonado e adotado o partido de seus inimigos, por ódio àquilo que Joris Garstman, general da milícia, fizera seis meses antes, mandando matar o alemão Jacob Rabbi; este homem intrépido de tal forma se adaptara a estes selvagens em seus costumes e modo de viver, que se tornara como se fosse um deles,  e estes de tal modo a ele se afeiçoaram, que o fizeram um dos seus principais capitães. Segundo os amigos de Garstman, o motivo pelo qual este mandara matar Jacob Rabbi devia ser atribuído ao ressentimento pela morte e assassinato do pai de sua mulher, cometido por Jacob Rabbi. Este escolhia os piores tapuias e com eles efetuava diversas pilhagens no país: sua morte, pois, diziam só apresentava vantagens para o público, e Garstman fizera muito bem em vingar a morte de seu sogro, tirando do mundo um ladrão que cem vezes merecia o suplício; em todo caso, tratava-se apenas de uma formalidade para puni-lo, porque ele devia mesmo ser condenado. Os que conheciam particularmente Garstman e podiam julgar as suas ações sustentavam que outros tinham sido os seus motivos: sabendo que Jacob Rabbi reunira, com o fruto de seus roubos, uma rica presa e a escondera em lugar que ele bem conhecia, mandara matá-lo para disso tirar proveito; e, com efeito, encontraram-se em seu poder algumas jóias, reconhecidas por aqueles que Jacob Rabbi tinha roubado.
No registro de Pierre Moreau, embora haja referência ao sogro de Garstman, não há menção ao nome do velho João Lostau. Essa informação que João Lostau era sogro de Garstman, tanto é defendida por Hélio Galvão, em seu livro História da Fortaleza da Barra do Rio Grande, como por Olavo Medeiros Filho no livro No Rastro dos Flamengos.
 
Copiado de: http://genealogiadorn.blogspot.com/2011/07/joris-garstman-e-o-assassinato-de-jacob.html

Joris Garsman e o assassinato de Jacob Rabbi (II)


João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG

Câmara Cascudo em artigo no O livro das Velhas Figuras, volume 3, diz ter conhecido, pessoalmente,  Candido Freire de Alustau Navarro, filho do Professor Manoel Laurentino Freire de Alustau, neto de Antonio Freire de Amorim Navarro, bisneto de Manoel Pereira da Costa Guimarães, trineto do velho João Lostau de Navarro. Em outro artigo sobre Jacob Rabbi, nesse mesmo livro, escreveu que no massacre em Cunhaú, queimaram o engenho e mataram o sogro do Coronel Garstman, talvez gerente da propriedade, que tinha como  um dos sócios o próprio Garstman. Diferentemente de Hélio Galvão, Cascudo não pensou em Garstman como genro de João Lostau. Hélio escreveu que Beatriz Lostau Casa Maior era filha do velho Lostau e esposa de Joris Garstman.
Joan Nieuhof, no livro já citado anteriormente, dá conta da ordem de prisão para várias pessoas suspeitas de conivência na conspiração contra os holandeses, citando, da Capitania do Rio Grande, tão somente João Lostau de Navarro, no ano de 1645, sem destacar qualquer relação dele com Garstman.
Pierre Moreau, dando sequencia às informações sobre o assassinato de Jacob Rabbi, escreveu: logo que Janduí e todos os seus principais amigos souberam desta morte, solicitaram a entrega de Joris Garstman para que eles próprios o justiçassem, por ter matado um de seus chefes; o conhecimento do fato, caso Garstman fosse culpado, lhes pertencia, de acordo com o privilégio que lhes tinha sido outorgado pelos Estados Gerais e a Companhia das Índias, de somente eles serem juízes dos criminosos de sua nação. Jacob Rabbi não podia ser acusado de coisa alguma e jamais traíra o país. Quanto ao assassinato do sogro de Garstman, este é que dera o motivo, como todos sabiam bem; quanto aos seus roubos e furtos, se ele tinha tomado gado, era somente para viver, pois não era razoável que ele e sua gente morressem de fome quando lhes era recusado comida. Se tomara instrumentos de ferro, era para servir-se deles no campo, a serviço dos próprios holandeses, aos quais os tapuias jamais tinham pedido soldo, e pelos quais muitas vezes se tinham exposto. Quanto ao ouro e à prata, nada tinham a fazer deles e teriam mandado entregá-los se lhe tivessem falado nisso. Em todo caso, se Jacob Rabbi tivesse de ser castigado, devia-se ter seguido o costume dos holandeses; em vez disso tinham-no assassinado, quando poderiam facilmente mandar prendê-lo. Gostavam dele mais que cem outros; apesar disso agradava-lhes ser sempre amigos dos holandeses, mas faziam questão de obter Garstman para matá-lo.
Os senhores lhes responderam que Garstman era oficial superior e não tinham o poder de entregá-lo, nem mesmo condená-lo à morte soberanamente, a não ser por crime de Estado; do seu julgamento havia apelação para os Dezenove, sendo preciso ouvir Garstman antes de condená-lo; mas podiam ficar certos de que se faria boa justiça àqueles que tinham matado Jacob Rabbi, fato que lhes trouxera muito descontentamento. E, para mostrar-lhes que manteriam sua palavra, mandaram vir Garstman, que foi encarcerado em sua presença, e os senhores do Conselho disseram aos Políticos que desejavam participar do conhecimento dessa questão. Os delegados dos tapuias, no entanto, voltaram descontentes para os seus, por lhes ter sido recusado Garstman, e disseram, ao partir, que os holandeses se arrependeriam.
Segundo ainda Pierre Moreau, no seu relato, Garstman foi depois interrogado, negou ter matado ou mandado matar Jacob Rabbi, acusou dois soldados da sua companhia, que tinham sido os instrumentos; estes foram tão apertados que confessaram o crime, dizendo ter sido mandados por Jacques Boulan, seu alferes. Boulan foi igualmente preso, e confessou que cumprira ordem de Garstman, seu capitão e general; este, acareado, negou tudo redondamente e disse a Boulan que ele era um impostor. Os dois soldados, mediante a confissão de Boulan, que os tinha eximido de culpa, foram soltos; os outros dois continuaram presos. Enquanto os Juízes debatiam esta delicada questão esperando alguma prova certa de qual desses dois devia ser acreditado, Garstman dizia que um oficial poderia assim imputar ao seu general a autoria de seus crimes; Boulan, ao contrario, alegava que um general, abusando de sua autoridade, faria depender dele a vida e a morte de seu oficial, empregando-o em vingar o seu ódio sob algum pretexto especioso de guerra e quitando-se depois pela negativa; se tivesse recusado a cumprir ordem seria demitido e proclamado poltrão; de outro modo seria preciso introduzir tabeliões e testemunhas para lavrar as atas das ordens, mandados secretos e outros que se dão num exército. Afinal, foi descoberto que Garstman e Boulan se tinham mancomunado para mandar matar Jacob Rabbi, e tinham divido a presa. Confiscaram-se todos os seus bens e soldos e eles foram demitidos de seus cargos, banidos do Brasil e reenviados à Holanda como schelmes, isto é, como pessoas indignas.
O Sebo Vermelho, de Abimael Silva, publicou Um interprete dos Tapuios, de Alfredo Carvalho, que contém o inquérito sobre o assassinato de Jacob Rabbi.
Copiado de: http://genealogiadorn.blogspot.com/2011/07/joris-garsman-e-o-assassinato-de-jacob.html

Joris Garstman e o assassinato de Jacob Rabbi (III)



João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)
Professor de Matemática da UFRN e membro do INRG

O inquérito sobre o assassinato de Jacob Rabbi, se por um lado traz muitos detalhes fornecidos pelos depoentes, por outro não é esclarecedor do motivo real daquela execução. Olavo de Medeiros no seu livro, No rastro dos flamengos, sintetiza com muita propriedade e comentários todos os depoimentos. Pena que entre esses depoimentos não existam o de Joris Garstman e o de Jacob (ou Jacques) de Bolan, principais acusados. Vejamos algumas passagens de alguns desses depoimentos.
Vamos começar com Roulox Baro, que segundo Morisot, foi enviado, quando criança, ao Brasil, na frota das Índias Ocidentais, que partiu da Holanda, em 1617. Substituiu Rabbi junto aos tapuias, como ele conta em seu Relação da viagem aos pais dos tapuias.Roulox Baro era um dos participantes do jantar na casa de Dirck Muller, no dia do assassinato, 4 de abril de 1646 (e não 5 como relata Nieuhof), e,por isso, foi chamado a depor.
No começo do seu depoimento disse que: pouco antes de ter vindo do Recife aqui (Rio Grande), com o Sr. Pieter Bas, esteve em casa do tenente-coronel Garstman, em Mauristsstad (Cidade Maurícia). No decurso de uma conversação que teve com o primeiro, a propósito dos Tapuios e de Jacob Rabbi, o dito Pieter Bas contou-lhe, entre outras coisas, que Jacob Rabbi, encarregado de dar algumas mercadorias, à guiza de presente, aos Tapuias, por parte da Nobre Companhia, as tinha desviado em proveito próprio. O tenente-coronel, que nesta noite estava um pouco ébrio, respondeu que o mundo nada perderia se se desembaraçassem de semelhante canalha.
Disse mais Baro que Joris Garstman perguntou a ele se queria disso incumbir-se. Baro respondeu que se o tenente-coronel lhe desse ordem formal, e devendo esta ordem emanar dos senhores do Alto Conselho Secreto, que neste caso ele não hesitaria em obedecer e executar a ordem de Garstman. Mas, este se absteve de dar esta ordem, e como Baro não ignorava que Garstman tinha ódio velho a Jacob Rabbi, o que todo o mundo sabe, e que, obedecendo ao incitamento, poria em risco a segurança pública em toda a capitania, o depoente teve escrúpulo em realizar o atentado, e igualmente se absteve, pela mesma razão, de informar a Jacob Rabbbi.
Contou Baro que ouviu os dois tiros que derrubaram Jacob Rabbi. Ele tinha saído da casa de Dirck Muller para procurar o seu cavalo. Entretanto, encontrou com Jacob Bolan acompanhado de três ou quatro soldados, dizendo para que não ficasse ninguém por lá, por ordem de Garstman, e assim foi arrastado por Bolan até a casa do tenente-coronel, sem deixar tempo de ir buscar o seu cavalo, e, por isso, chegou a pé até a casa de Garstman.
O dono da casa, Dirck Muller, contou que o tenente-coronel Garstman e vários outros amigos dele, foram vê-lo em sua casa. Quando eles já estavam ceando, chegou Jacob Rabbi, que tendo sido convidado várias vezes pelo tenente-coronel a ir ter com ele, fora à sua casa (Gartsman estava hospedado no Forte Keulen), e tendo sabido ali que este partira a cavalo para ir à casa dele, Muller, viera procurá-lo ali a fim de se informar do objeto de seu convite.O tenente-coronel lhe dera as boas vindas, e o convidara a sentar-se e a tomar parte na ceia.
Conta mais Dirck que quando soube da morte de Rabbi, saiu, acompanhado dos convivas e guiado pelo negro que o avisou, até onde estava o cadáver, deformado por vários golpes de espada no rosto, na cabeça, e no braço direito. Disse mais que uma bala penetrara–lhe do lado esquerdo do corpo e outra varara-lhe o lado direito abaixo das costelas falsas. Pela manhã foi providenciado o enterro na presença de Willem Beckx e de alguns homens e mulheres.
Esse Willem Becx, morador na Capitania do Rio Grande, declarou no seu depoimento que sendo ele, na época do que se trata, secretário do tenente-coronel Garstman, assistiu há alguns meses, na casa deste último, aos fatos seguinte: o dito tenente-coronel ali ordenara a Willem Jansen, ex-alferes das tropas desta Capitania, que cometesse um atentando contra a vida de Jacob Rabbi.
O depoente Johannes Honck, Bailio (magistrado provincial) desta Capitania do Rio Grande, que também esteve no jantar na casa de Dirck Muller, conta em seu depoimento que não soubera da presença de Jacob Rabbi, pois fora dormir por duas ou três horas, antes de voltar para casa. Ouvira os tiros, mas foi informado por Bolan que o inimigo estava ali emboscado. Em um trecho do seu depoimento relata que no dia oito de abril soubera que o tenente-coronel tinha chegado ao forte, de volta da casa de João Lostau (este tinha sido assassinado em 1645).
Quem comandava o forte Keulen, nessa época, era Johannes Blaenbeeck, capitão de uma companhia de infantaria. Ele, no seu depoimento, contou que somente soube a notícia do assassinato de Jacob Rabbi, no dia seguinte, pela boca do bailio Johannes Honck, que veio pedir-lhe o auxílio de alguns soldados, a fim de ir, à casa da viúva de Jacob Rabbi (a índia Domingas), fazer um inquérito sobre os bens do defunto. Contou mais que as arcas de Jacob Rabbi, que estavam no forte Keulen foram abertas, por ordem de Garstman, que determinou a ele fazer a partilha entre os presentes, tendo o tenente-coronel ficado com duas libras de prata.
O secretário do tenente-coronel Garstman, Abrahão de Rouff, que também esteve no jantar na casa de Dirck Muller, declarou, entre outras coisas, que encontrara Jacques (Jacob) Bolan, no dia que partira para Recife, e que tinha ouvido o mesmo vangloriar-se de haver dado em Jacob Rabbi alguns golpes de sabre em pleno rosto e mostrou ainda um anel que dizia ter tirado do dedo da vítima.
O que mais estranho nesses depoimentos e relatos, aqui expostos nesses três artigos, é que não há qualquer citação, dando conta que João Lostau de Navarro fosse o sogro de Joris Garstman, e tampouco é citado o nome do sogro de Joris Garstman que foi assassinado por Rabbi.
Copiado de: http://genealogiadorn.blogspot.com/2011/07/joris-garstman-e-o-assassinato-de-jacob_30.html

O velho Janduí

Eugênio Fonseca Pimentel
O velho Janduí - Um homem ou um demônio. Viagem ao País dos Tapuias - Roulox Baro

Publicado por Eugênio Fonseca Pimentel em 12 dezembro 2010 às 13:04 em Cultura


(53) Depois, tendo ordenado a seus homens que guardassem o que eu lhe oferecera,

levou-me alegremente para jantar com ele. Terminada a refeição, mandou

reunir os rapazes, que lutaram uns com os outros na areia, e disse-me que

assim se fazia para dar-me boas vindas. No dia seguinte, carregariam a árvore,

coisa que ainda não haviam feito durante o ano, porque ele esperava a minha

vinda, e daí em diante faria continuar este exercício até o dia de seu

aniversário. Agradeci ao rei e aos seus acompanhantes pela honra que me

dispensavam. Veio a noite, que passamos estendidos na areia, debaixo da

chuva.

(54) Ao nascer o sol, o ancião ordenou às mulheres que fizessem farinha e aos

homens que fossem à caça de ratos e voltassem logo após o meio-dia, afim de

correr a árvore. Obedeceram e, entrementes, dois tapuias trouxeram sobre

suas espáduas dois troncos de árvores de corravearas, de mais de vinte pés de

comprimento. Tiraram-lhe a casca na chama do fogo e poliram a madeira toda

em volta, sem deixar nenhum nó. E quando todo o povo regressou, cada qual

pintou o corpo de diversas cores. Isto feito, aqueles que tinham apanhado ratos

soltaram-nos na planície, depois parte deles carregou prontamente aqueles

troncos, correndo com uma velocidade inigualável atrás dos ratos; quando um

deles parecia cansado, outro o substituía sem retardar a corrida, que durou

mais de uma hora. Depois de terminada, cada um que voltava contava como e

de que modo perseguira, ferira e matara os ratos O ancião Janduí correra com

eles e era coisa maravilhosa ver-se um homem de mais de cem anos (segundo a

opinião dos seus, de mais de cento e sessenta) correr com tanta destreza. Isto

causou tal admiração a João Straffi, um dos que eu trouxera comigo do Rio

Grande, que ele acreditou tratar-se antes de um demônio que de um homem.


(65) No dia 29, o ancião fez saber que todos tinham que marchar; ele, João Straffi e eu iríamos adiante. Teríamos feito uma hora de caminho quando os rapazes que corriam as árvores, das quais acima falamos, passaram por nos, correndo tão depressa que a terra parecia tremer sob seus pés e não pararam de correr até que chegaram ao rio, que era o lugar onde deviam tomar fôlego para, imediatamente, irem à caça dos ratos e à cata de mel silvestre. Voltando pediram-me fumo, dizendo que não podiam levar a cabo qualquer sacrifício, sem ele, tendo-se passado três luas desde o último que tinham feito.


Transcrição da tradução de Leda Boechat Rodrigues para a Relação da Viagem ao País

dos Tapuias de Roulox Baro, conforme foi publicada, como anexo da História das

Últimas Lutas entre Holandeses e Portugueses de Pierre Moreau, em 1979, em conjunto pelas editoras Itatiaia de Belo Horizonte e EDUSP de São Paulo. A numeração dos parágrafos serve apenas como referência interna ao estudo, não constando em nenhuma edição do texto fonte.
(9) Interprete e embaixador ordinário da Companhia das Índias Ocidentais, da

parte do Ilustríssimo Senhores das Províncias Unidas, ao país dos tapuias, na

terra firme do Brasil.

(10) Começada a três de abril de 1647 e terminada a 14 de julho do mesmo ano.

(11) No dia 3 de abril de 1647 recebi dos nobres e poderosos Senhores

Presidente e Conselheiros que representam o alto e soberano governo do

Brasil, em nome dos altíssimos e poderosíssimos Estados Gerais das

Províncias Unidas dos Países Baixos, Sua Alteza o Príncipe de Orange e a

nobre Companhia das Índias Ocidentais, ordem de dirigir-me ao país dos

tapuias, vizinhos do governo do Rio Grande, a fim de com eles tratar, segundo

as instruções contidas na minha comissão

(12) Preparei-me imediatamente para partir e tomei para acompanhar-me João

Straffi, brasiliano, três tapuias e quatro cães, para termos em caminho com que

caçar e obter alimentos.
(13) Saímos no dia seguinte do lugar denominado Incareningi, situado na

mencionada província do Rio Grande, onde eu morava, e passamos em frente à

casa do Tenente-Coronel Garstman, que fica próxima ao Rio Camaragibe, e

como não pudéssemos atravessá-lo a nado, por ser muito largo, tomamos o

caminho da Campina, à direita; onde dormimos.

(14) No dia seguinte, 5 de abril do dito ano de 1647, fomos obrigados a voltar e

dormir em minha casa, impedidos de prosseguir devido ao transbordamento

das águas.

(15) No dia 6 mandei alguém verificar se poderíamos passar pelas minhas roças

para nos dirigir-mos à aldeia dos brasilianos e fui informado de que seria

possível fazê-lo a nado.

(16) No dia 7 fomos à dita aldeia, mas ninguém quis atravessar o rio conosco, pois a

água estava tão alta que inundava todo o campo, que de si já era deserto,

possuindo poucos arbustos e árvores, sendo chamado comumente por uma

palavra espanhola de Campinos.

(17) No dia 8 e 9 dirigimo-nos para o Rio Potengi e, deitamo-nos num sítio

pantanoso de onde as chuvas nos expulsaram.

(18) Na manhã do dia 10, tendo as águas baixado, pegamos nas poças onde os
peixes tinham ficado retidos, alguns peixinhos que os selvagens chamam de

paramiri, acaramiri e tamoatas. Pela tarde, tendo os nossos cães encontrado

um bando de animais selvagens, pegamos um e, não podendo avançar, por ser

o rio Potengi muito largo, voltamos ao Rio Grande, onde estava a minha casa.


Observação: Nota-se que nesta viagem narrada por Roulox Baro, o domínio holandês no Brasil já estava em decadência em virtude da volta de Nassau para Europa e o assassinato de Jacob Rabi, aliados fortes desta brava gente brasileira.

Os ratos eram os preás e os troncos carregados ao ombro eram as carnaúbas segundo alguns historiadores do RN. Era mês de abril, mês chuvoso. Assim sendo as planícies de inundação ou várzeas estavam cobertas d'água e os indios por essa razão habitavam os chamados tabuleiros. Esse vai e vem de pessoas aqui em nossa região também ocorria.

É importante esclarecer que esta pesquisa foi obtida na Internet e citada por James Emanuel de Abuquerque em anexo de seu estudo.

Cópia de: http://blogln.ning.com/forum/topics/o-velho-jandui-um-homem-ou-um

A MÃO FORTE DA INQUISIÇÃO EM TERRAS POTIGUARES

Rostand Medeiros e Mozart Xavier
Os termos “Inquisição” ou “Tribunal do Santo Ofício” são palavras que até hoje nos lembram duma época de iniquidade, terror e medo. Onde a Igreja Católica extrapolou em todos os aspectos possíveis, a sua atuação como propagadora da fé e carrega até hoje esta nódoa negra na sua secular história institucional.
Com uma atuação muito forte na Europa, a Inquisição não deixou de tocar as terras do Brasil durante o nosso período colonial e a pequena Natal, na incipiente Capitania do Rio Grande, foi visitada pelos homens que doutrinavam através do terror.
Pesquisas realizadas apontam que os inquisidores encontraram nestas terras banhadas de sol, casos de eclesiásticos envolvidos em práticas proibidas a eles pela Santa Sé e observaram o comportamento dos moradores desta pequena e irrelevante capitania.
O Padre que fez Propostas Indecorosas a Sete Mulheres em Natal
O antropólogo baiano Luiz Mott, ao realizar uma pesquisa nos arquivos da Torre do Tombo, em Portugal, encontrou inúmeras denúncias remetidas ao Santo Ofício a partir do Brasil, algumas destas se referiam à Capitania do Rio Grande, atual estado do Rio Grande do Norte.
Em um artigo intitulado “A inquisição e o Rio Grande do Norte”, o antropólogo mostra que Natal, além de ser o principal núcleo populacional da Capitania, era o local onde habitavam o maior número de pessoas de cor branca, fazendo com que a pequena urbe fosse uma parada obrigatória para os religiosos da Santa Inquisição.
Para desgosto destes rígidos homens da doutrinação da fé católica, uma das primeiras ocorrências averiguadas na Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, Matriz da capital do Rio Grande, tinha como acusado um religioso, o Padre Manuel Cardoso Andrade onde ele teria sido denunciado por ter feito propostas indecorosas a sete mulheres e 1750.
Uma das mulheres, Maria José de Barros, afirmou que o referido sacerdote ordenou que a mesma que fosse buscar o seu atestado de confissão quaresmal na casa do acusado. A denunciante afirma que o religioso, já se encontrando em sua residência, teria prometido fornecer quantos atestados à denunciante desejasse, desde que tivesse com ele o número de cópulas equivalentes em número de atestados.
O mesmo padre foi acusado de ter possuído algumas escravas, dentre elas a crioula Rita, que afirmou ter tido contato carnal com o acusado duas vezes. Pesou sobre o padre a acusação do mesmo ter feito “cantadas” a três mulheres: Joana Mulata, Ana Maria Crioula e Lucrécia, esta última de nação Angola.
Apesar da preferência do religioso por mulheres negras, o mesmo foi igualmente denunciado pela tentativa de persuadir mulheres brancas. Entre estas está o relato de Teodósia Maria, esposa de certo Capitão Dias, que acusou o Padre Cardoso de ter feito “propostas indecorosas” no momento da confissão.
Como as atitudes do Padre Cardoso contra as mulheres, brancas ou não, provavelmente eram de conhecimento da população da pequena urbe, não é difícil deduzir a repercussão que ocorreu quando o mesmo foi denunciado por ter apertado um dos dedos, provavelmente com intenções lascivas, da jovem Josefa, filha do então Capitão Albuquerque Maranhão, descendente do primeiro comandante da Fortaleza dos Reis Magos. Como a moça em questão pertencia a uma família muito influente e poderosa, o acusado se viu diante das garras da Inquisição.
Contudo, o Padre Manuel Cardoso Andrade não fora condenado, pois falecera em 1762, antes das investigações do Santo Ofício ser concluídas.
Os Padres que Atacavam na Hora da Confissão
Outro religioso envolvido com os convites para as práticas de torpezas foi o Frei Inácio de Jesus, um Carmelita reformado, da Província de Pernambuco e morador na Freguesia d e São João Baptista do Assú.
Denunciado em 1752 por Isabel Pereira, mulher casada, onde afirmou ter o acusado aproveitando-se da pouca iluminação da igreja e ter feito nela uma pulsão (masturbação) na denunciante, que assombrada e com medo silenciou diante da agressão sexual.
Neste caso encontramos um agravante, no dia seguinte ao ato o Frei Inácio concedeu a confissão a Isabel Pereira e ainda lhe deu a comunhão.
Apesar da denúncia, o Santo Ofício arquivou o processo, mesmo com a confirmação do agravante.
Outro caso foi o que envolveu padre José Inácio de Oliveira, então residente da Freguesia de São João Baptista do Apody, localizada já nos limites do Ceará.
Pesa em sua acusação o fato de ter tido atos pecaminosos com todas as mulheres que vinham para fazer a confissão.
Contra o “Corpo Fechado” 
A maioria das denúncias contra eclesiásticos está restrita ao âmbito sexual, entretanto essas práticas não se limitavam apenas a este campo.
Houve uma denúncia pela utilização de representações ou símbolos proibidos pela igreja; no ano de 1765, na Freguesia de Nossa senhora do Carmo de Inhamus, no Ceará, um cidadão chamado Pedro Álvares Correia foi acusado de portar em uma pequena bolsa que trazia no pescoço “patuás de mandingas”. Esta bolsa foi doada, segundo o acusado, pelo Padre André Sapúlveda, da Freguesia do Apodi.
A denúncia teria partido de outro religioso, o Padre José de Freitas Serrão que chegou a afirmar o motivo do uso destas peças era utilizado para proteger as pessoas que estavam constantemente adentrando o sertão, que neste período era uma área muito violenta e os apetrechos eram utilizados para “fechar o
corpo” contra tiros e facadas.
Roupas Indecorosas em Portalegre
Outras denúncias apontam problemas de comportamento dos religiosos e dos seus fiéis.
Em um artigo escrito em 2004, o historiador Francisco Firmino Sales Neto, mostra em seu artigo “Pelos ásperos caminhos do deserto: Um estudo das Visitas Episcopais a Capitania do Rio Grande”, que em 1779 o visitador Joaquim Monteiro da Rocha fez severas críticas ao comportamento dos religiosos que respondiam pela Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação.
Desejava o inquisidor que fosse alterado o comportamento dos homens que propagavam a fé católica na pequena Natal, servindo de exemplo para o resto da população. Em suas lamuriosas críticas o visitador comenta “É digno de chorar-se com lágrimas de sangue a pouca reverência, com que se assiste nos templo, e a santa missa, conversando, e tratando matérias profanas, como que estivessem na praça. (…) E os sacerdotes são os primeiros que se profanam a santidade do lugar sagrado, conversando, tratando com menos reverência às coisas sagradas, e provocando aos mesmos seculares, a quem deviam dar bom exemplo”.
Nesta mesma época, no atual município serrano de Portalegre, no Oeste do Estado, os membros do Santo Ofício apontaram desvios de seus habitantes brancos e negros.
Estes encontraram mulheres da pequena vila, que não se vestiam da forma considerada correta. O Bispo Dom José Fialho repreendia essas mulheres vestidas de “invenções diabólicas” a se absterem “dos tais vestidos somente usando trajes que mostrem composição e respeito”. O Bispo ameaçava afirmando que “se assim não estão trajadas, usaremos dos meios que nos parecer necessário para evitar as demais lascívias das composições e também advertimos aos senhores de escravos não consintam que estas andem despidas como vulgarmente costumam mais sim cobertas com aquele ornato que seja bastante para encobrirem as provocações da sensualidade”.
Até o culto a São Gonçalo, santo muito popular no Brasil colonial tinha na Freguesia de São João Batista da Vila de Portalegre uma versão deturpada, causando indignação no reverendo visitador, ao que diz: “É abominável a falta de religião que se observa em alguns dos fregueses desta freguesia, e muito de se estranhar a indiscrença devoção que com, o pretexto frívolo de piedade, costumam festejar o Senhor São Gonçalo em suas casas, admitindo nelas pessoas de um, e outro, sexo, formando danças sem advertirem que semelhantes congressos não podem resultar serviço a Deus e culto ao glorioso santo”.
Contra o Consumo de Jurema em Arês
Já em Arês, que em 1760 possuía uma população de 949 almas, foi possível identificar um cotidiano religioso bem diverso do encontrado na capital.
A preocupação dos visitadores que estiveram na Freguesia de São João Batista da Vila Nova de Arês era com o comportamento indígena, “porque sendo os índios naturalmente descuidados”, como colocou em documento o visitador, “deve o pároco aplicar maior desvelo em doutriná-los”.
Neste documento o visitador dá fortes indicações para que o vigário local repreenda a prática do ritual indígena, conhecida por “Jurema”, ao que diz: “considerando que estes pobres índios, e neófitos necessitam de dobrado cuidado, e vigilância no pároco, para conservá-los na observância dos dogmas, ritos católicos, e apartá-los de algumas devoções filhas de sua brutal e gentílica natureza a que são propensos, e inclinados no que muito lhe encarregamos a consciência de seu pároco principalmente para que não pratiquem a sua célebre, e antiga bebida chamada jurema que constantemente bebem em lugares retirados, por ser bebida forte ficam embriagados, e alienados do juízo, e fingem visões indignas de católicos, cujos erros se devem extinguir quanto couber nas forças de um diligente pároco”.
As Possíveis Causas
Dentre algumas explicações para se entender essas transgressões, podemos apontar a distância que havia das regiões mais importantes e, portanto, mais populosas da colônia com as áreas mais distantes. A consequência disso foi à falta de fiscalização por parte da igreja, no que se refere à punição de clérigos que de algum modo transgrediram contra os seus princípios enquanto lideres espirituais.
No caso de uma região pouco habitada e muito afastada dos centros populacionais, como o sertão, o mecanismo de denúncias funcionava assim: qualquer indivíduo podia entrar com uma denúncia a um religioso, que enviava o relato dos fatos em caráter de urgência ao “Comissário” mais próximo, que despachava uma carta secreta para Lisboa na primeira caravela que estivesse de regresso à Europa. Acredita-se que existia uma rede de espiões que tentavam cobrir toda a colônia, que convenhamos era uma tarefa muito difícil.
Outro fator que pode ser levado em consideração para se compreender a ousadia destes “Homens de Deus”, se refere ao prestígio que esses religiosos tinham conseguido junto aos contingentes populacionais.
Mesmo que a grande maioria deles não tivesse um conhecimento teológico apurado, gozavam de certo cabedal, uma vez que a sua palavra era legitimada pela população, considerada por esta como a do próprio Deus. O Padre, uma vez aceito como representante do criador, tinha todo o direito de interferir na vida dos habitantes dos locais em que estavam.
Podemos somar a esse fator outra questão; a falta de conhecimento que as pessoas tinham da teologia católica, principalmente as mulheres. Estas não possuíam praticamente nenhuma instrução e quando a tinham se limitava ao âmbito das práticas domésticas. Essa falta de conhecimento as tornava “presas” fáceis para os padres mais audaciosos, que aproveitando o cair da noite, utilizavam a penumbra dos lampiões das igrejas para persuadir as moças e as senhoras a praticarem com eles os mais libidinosos desvios da conduta cristã.
Esse tipo de crime era conhecido como Solicitação e a sua denúncia ficava registrada no Caderno dos Solicitantes. O termo canônico para este pecado era “solicitatio ad turpia”.

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domingo, 23 de outubro de 2011

Produção de açúcar

Já na produção de açúcar, o caldo de cana é levado a grandes tachos de cobre, e submetido a fogo brando até atingir o "ponto", ou seja, se transformar em mel. Esse mel-de-engenho é transferido para um tanque onde será submetido a agitação, para acelerar a cristalização do açúcar.
O mel, então, é distribuído em formas cônicas, dispostas em uma bancada, onde fica até esfriar. Após a cristalização, o mel excedente, não cristalizado, é extraído, por decantação, através de um orifício na parte inferior da forma. Esse mel, chamado mel-de-furo ou melaço, tem outras utilizações, entre elas, também, a fabricação de cachaça, após fermentação por alguns dias.
O açúcar cristalizado, em forma de pão, que recebe o nome inicial de pão-de-açúcar, é desenformado, chamando-se, então, açúcar bruto, ou mascavo, que é comercializado para utilização nessa forma, em pedaços, ou submetido a clareamento, na produção do açúcar demerara. A transformação de mascavo em demerara era feita nos engenhos pelo processo de purgação. O local onde se estocava esse açúcar era chamado casa de purgar. A purgação era feita com água colocada sobre uma camada de massapê aplicada sobre o pão de açúcar, e escoada pelo orifício inferior, levando as impurezas.
Nas grandes usinas de açúcar, atualmente, o processo de separação do açúcar e do melaço é por centrifugação. Antes, ao caldo da cana moída, são adicionados alguns produtos químicos para auxílio na decantação de sólidos insolúveis e retirar colóides, para clarear. Assim é produzido o açúcar cristal e, com mais uma etapa de diluição, tratamento da calda e centrifugação, o açúcar refinado. Todo tratamento químico feito para industrialização do açúcar é retirado durante o próprio processo.

Engenhos de Açúcar

A indústria da refinação dos açucares floresceu na Madeira no século XV, passando daqui para Lisboa e colónias do Reino. Acerca disto comentou o Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, nas Saudades da Terra, que na metrópole “criou tantas fortunas particulares, com detrimento das colónias e da indústria saccharina mesma“. O primeiro engenho de açúcar registrado em território português pertenceu a Diogo Vaz de Teive, escudeiro do Infante D. Henrique, com contrato de construção datado de 5 de Dezembro de 1452. Localizava-se na Ilha da Madeira, no então lugar da Ribeira Brava, Capitania do Funchal. A força motriz deste engenho era a água da ribeira.

Os primeiros engenhos da ilha eram todos movidos a água ou pela força de bois, sendo os cilindros construídos algumas vezes com madeira de til, nessa época muito frequente. Além dos engenhos, existiam também as alçapremas ou prensas manuais.
Não consta da documentação qual o processo de que se serviram os proprietários de engenhos e alçapremas para fabricar o açúcar, mas supõe-se que esse processo consistisse em fazer cozer as garapas em caldeiras até obter a consistência de um xarope espesso, sendo neste ponto transferidas para vasos furados no fundo, onde se depositariam os cristais, saindo o liquido pelos orifícios. Supõe-se também que na purificação dos açucares fossem empregados a água de cal e o carvão animal, produtos que a indústria moderna de produção açucareira igualmente utiliza.
Os primeiros engenhos foram criados no Brasil para atender a demanda europeia. Eram os locais destinados à fabricação de açúcar, propriamente a moenda, a casa das caldeiras e a casa de purgar. Todo o conjunto, chamado engenho-banguê, passou com o tempo a ser assim denominado, incluindo as plantações, a casa-de-engenho ou moita (a fábrica), a casa-grande (casa do proprietário), a senzala (lugar onde ficavam os escravos) e tudo quanto pertencia à propriedade.
Até meados do século XX os engenhos eram a principal indústria sucro-alcooleira, esteio da economia do Brasil e, em especial, de Pernambuco, Piauí, Paraíba, Rio de Janeiro, Alagoas, Sergipe, Ceará e São Paulo.
Com a evolução da agroindústria e o aparecimento das usinas de açúcar e de álcool, os engenhos, obsoletos, foram sendo desativados gradativamente.