quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O velho Janduí

Eugênio Fonseca Pimentel
O velho Janduí - Um homem ou um demônio. Viagem ao País dos Tapuias - Roulox Baro

Publicado por Eugênio Fonseca Pimentel em 12 dezembro 2010 às 13:04 em Cultura


(53) Depois, tendo ordenado a seus homens que guardassem o que eu lhe oferecera,

levou-me alegremente para jantar com ele. Terminada a refeição, mandou

reunir os rapazes, que lutaram uns com os outros na areia, e disse-me que

assim se fazia para dar-me boas vindas. No dia seguinte, carregariam a árvore,

coisa que ainda não haviam feito durante o ano, porque ele esperava a minha

vinda, e daí em diante faria continuar este exercício até o dia de seu

aniversário. Agradeci ao rei e aos seus acompanhantes pela honra que me

dispensavam. Veio a noite, que passamos estendidos na areia, debaixo da

chuva.

(54) Ao nascer o sol, o ancião ordenou às mulheres que fizessem farinha e aos

homens que fossem à caça de ratos e voltassem logo após o meio-dia, afim de

correr a árvore. Obedeceram e, entrementes, dois tapuias trouxeram sobre

suas espáduas dois troncos de árvores de corravearas, de mais de vinte pés de

comprimento. Tiraram-lhe a casca na chama do fogo e poliram a madeira toda

em volta, sem deixar nenhum nó. E quando todo o povo regressou, cada qual

pintou o corpo de diversas cores. Isto feito, aqueles que tinham apanhado ratos

soltaram-nos na planície, depois parte deles carregou prontamente aqueles

troncos, correndo com uma velocidade inigualável atrás dos ratos; quando um

deles parecia cansado, outro o substituía sem retardar a corrida, que durou

mais de uma hora. Depois de terminada, cada um que voltava contava como e

de que modo perseguira, ferira e matara os ratos O ancião Janduí correra com

eles e era coisa maravilhosa ver-se um homem de mais de cem anos (segundo a

opinião dos seus, de mais de cento e sessenta) correr com tanta destreza. Isto

causou tal admiração a João Straffi, um dos que eu trouxera comigo do Rio

Grande, que ele acreditou tratar-se antes de um demônio que de um homem.


(65) No dia 29, o ancião fez saber que todos tinham que marchar; ele, João Straffi e eu iríamos adiante. Teríamos feito uma hora de caminho quando os rapazes que corriam as árvores, das quais acima falamos, passaram por nos, correndo tão depressa que a terra parecia tremer sob seus pés e não pararam de correr até que chegaram ao rio, que era o lugar onde deviam tomar fôlego para, imediatamente, irem à caça dos ratos e à cata de mel silvestre. Voltando pediram-me fumo, dizendo que não podiam levar a cabo qualquer sacrifício, sem ele, tendo-se passado três luas desde o último que tinham feito.


Transcrição da tradução de Leda Boechat Rodrigues para a Relação da Viagem ao País

dos Tapuias de Roulox Baro, conforme foi publicada, como anexo da História das

Últimas Lutas entre Holandeses e Portugueses de Pierre Moreau, em 1979, em conjunto pelas editoras Itatiaia de Belo Horizonte e EDUSP de São Paulo. A numeração dos parágrafos serve apenas como referência interna ao estudo, não constando em nenhuma edição do texto fonte.
(9) Interprete e embaixador ordinário da Companhia das Índias Ocidentais, da

parte do Ilustríssimo Senhores das Províncias Unidas, ao país dos tapuias, na

terra firme do Brasil.

(10) Começada a três de abril de 1647 e terminada a 14 de julho do mesmo ano.

(11) No dia 3 de abril de 1647 recebi dos nobres e poderosos Senhores

Presidente e Conselheiros que representam o alto e soberano governo do

Brasil, em nome dos altíssimos e poderosíssimos Estados Gerais das

Províncias Unidas dos Países Baixos, Sua Alteza o Príncipe de Orange e a

nobre Companhia das Índias Ocidentais, ordem de dirigir-me ao país dos

tapuias, vizinhos do governo do Rio Grande, a fim de com eles tratar, segundo

as instruções contidas na minha comissão

(12) Preparei-me imediatamente para partir e tomei para acompanhar-me João

Straffi, brasiliano, três tapuias e quatro cães, para termos em caminho com que

caçar e obter alimentos.
(13) Saímos no dia seguinte do lugar denominado Incareningi, situado na

mencionada província do Rio Grande, onde eu morava, e passamos em frente à

casa do Tenente-Coronel Garstman, que fica próxima ao Rio Camaragibe, e

como não pudéssemos atravessá-lo a nado, por ser muito largo, tomamos o

caminho da Campina, à direita; onde dormimos.

(14) No dia seguinte, 5 de abril do dito ano de 1647, fomos obrigados a voltar e

dormir em minha casa, impedidos de prosseguir devido ao transbordamento

das águas.

(15) No dia 6 mandei alguém verificar se poderíamos passar pelas minhas roças

para nos dirigir-mos à aldeia dos brasilianos e fui informado de que seria

possível fazê-lo a nado.

(16) No dia 7 fomos à dita aldeia, mas ninguém quis atravessar o rio conosco, pois a

água estava tão alta que inundava todo o campo, que de si já era deserto,

possuindo poucos arbustos e árvores, sendo chamado comumente por uma

palavra espanhola de Campinos.

(17) No dia 8 e 9 dirigimo-nos para o Rio Potengi e, deitamo-nos num sítio

pantanoso de onde as chuvas nos expulsaram.

(18) Na manhã do dia 10, tendo as águas baixado, pegamos nas poças onde os
peixes tinham ficado retidos, alguns peixinhos que os selvagens chamam de

paramiri, acaramiri e tamoatas. Pela tarde, tendo os nossos cães encontrado

um bando de animais selvagens, pegamos um e, não podendo avançar, por ser

o rio Potengi muito largo, voltamos ao Rio Grande, onde estava a minha casa.


Observação: Nota-se que nesta viagem narrada por Roulox Baro, o domínio holandês no Brasil já estava em decadência em virtude da volta de Nassau para Europa e o assassinato de Jacob Rabi, aliados fortes desta brava gente brasileira.

Os ratos eram os preás e os troncos carregados ao ombro eram as carnaúbas segundo alguns historiadores do RN. Era mês de abril, mês chuvoso. Assim sendo as planícies de inundação ou várzeas estavam cobertas d'água e os indios por essa razão habitavam os chamados tabuleiros. Esse vai e vem de pessoas aqui em nossa região também ocorria.

É importante esclarecer que esta pesquisa foi obtida na Internet e citada por James Emanuel de Abuquerque em anexo de seu estudo.

Cópia de: http://blogln.ning.com/forum/topics/o-velho-jandui-um-homem-ou-um

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