domingo, 4 de novembro de 2012

A origem da família maranhão


Muira Ubi - causos de família
Por Karina Lira em http://www.lotuspurpura.com.br/muiraubi/causos.php
Causos de família; ou, Jerônimo de Albuquerque Maranhão; ou, dos amores da princesa Índia por um branco, dos quais nasceu Pernambuco, e, de Pernambuco, a nação miscigenada brasileira.
Muira Ubi foi uma minha grande ancestral, pertencente à Nação Tabajara, que habitava em Olinda quando da chegada dos Portugueses. É com este “causo” de família, que pertence tanto ao meu imaginário quanto ao de Pernambuco, que desejo começar as considerações sobre a minha gente. De forma que segue o texto abaixo.
A Origem da família Maranhão foi assim:
Começou na pessoa do ilustre mameluco, Jerônimo de Albuquerque Maranhão, filho do português Jerônimo de Albuquerque e da índia tabajara Muíra Ubi Arcoverde, famoso pela vitória estrondosa de Guaxenduba, reconhecida como Jornada Milagrosa, quando expulsou os piratas franceses do Maranhão, obrigando-os a assinar a retirada definitiva, assinatura esta que se constituiu verdadeiramente como Certidão de idade da Província, depois Estado do Maranhão.
Assim como os Albuquerque surgiram da Família Menezes, os Maranhão nasceram dentro da família Albuquerque, afirma o historiador Paulo Frederico Lobo Maranhão, em sua recente obra genealógica - A Família Maranhão, do Cunhaú a Matary – Recife - Unigraf Editora – 2002.
http://1.bp.blogspot.com/_3sslF3Ij6AY/SnukMZTeXeI/AAAAAAAAACM/rGXsHjBY_hc/s320/217.jpg Jerônimo de Albuquerque Maranhão nasceu em Olinda-Pernanbuco, provavelmente em 1548, tendo falecido em 1618, com seus setenta anos muito bem vividos. O historiador Olavo Medeiros Filho encontrou, no piso da Capela de Nossa Senhora das Candeias, no Engenho Cunhaú, uma lapide, com os seguintes dizeres quase ilegíveis “Aqui jaz o Fundador Jerônimo de Albuquerque Maranhão”. Está, pois, encerrada a polêmica. Ele morreu e seu corpo foi sepultado no Engenho Cunhaú, no Rio Grande do Norte. E, quando morreu, Jerônimo era um homem de reconhecidos méritos. Militar, muitas vezes vitorioso, expulsou os piratas franceses da Paraíba, do Rio Grande do Norte, de Pernambuco e, sobretudo, do Maranhão. Constituiu a primeira geração de pernambucanos natos. Carregava nas veias o sangue fidalgo dos Albuquerque e do Cacique Arcoverde. Como neto do Cacique aprendeu a língua tupi, assimilou a cultura e os costumes indígenas. Em Olinda, na casa dos pais, conviveu com os brancos, estudando no Colégio dos Padres Jesuítas. Assim pôde com os outros pernambucanos irradiar sua ação, em beneficio das demais Capitanias do Norte e, a partir do Maranhão, ajudou a formar uma Pátria única, um único Brasil.
O português Jerônimo de Albuquerque, pai do mameluco, chegou a Pernambuco com vinte e um anos (1531). Por sua linhagem, formou com a irmã Beatriz de Albuquerque, esposa do Donatário Duarte Coelho, as mais ilustres figuras da Capitania. Foi ele um dos vultos mais notáveis do Período Colonial, com relevantes serviços prestados à Coroa. Jerônimo de Albuquerque, intrépido e corajoso, carregava nas veias o sangue de guerreiro, herdado de seus antepassados. Foi ele o braço direito de seu cunhado, na conquista do solo pernambucano e foi responsável pela instalação do primeiro Engenho de açúcar de Pernambuco. O senso de responsabilidade para com a família trouxe, para sua terra a ser desbravada, um jovem rico, nobre, filho de uma das mais prestigiadas famílias portuguesas, o qual internou-se aqui, em terra desconhecida, cheia de perigos e habitada por índios antropófagos.
Nos primeiros anos, o Donatário Duarte Coelho, na luta contra os Caetés, pela posse de Olinda, foi flechado na perna, aleijando-se. Daí o apelido de – o Coxo, como ficou conhecido até a morte. Jerônimo, o português, numa das refregas com os tabajaras, foi flechado no olho esquerdo e ficou cego, o que lhe valeu o apelido de – o Torto. Este incidente mudou o curso da História de Pernambuco, pois os índios não sacrificavam imediatamente os prisioneiros, apanhados com armas nas mãos nem os feridos. Se não, eram reconduzidos de volta para serem canibalizados, segundo o ritual da tribo. Acreditavam eles que comendo a carnes dos valentes guerreiros, assimilariam as suas virtudes. Não praticavam a antropofagia com prisioneiros covardes. A Jerônimo de Albuquerque, valente guerreiro, deram lhe um tratamento especial. E, obedecendo aos costumes tribais, o prisioneiro aguardava o dia do seu sacrifício, sendo cuidadas pelas mais belas índias da tribo. E entre as índias, para o conforto do prisioneiro, encontrava-se a jovem princesa Muíra Ubi, filha do Cacique Arcoverde. As índias tabajaras tinham bela aparência, o que muito agradava aos portugueses. A princesa tabajara Muíra Ubi tinha estatura baixa, mas era tida como a mais bonita tabajara. Ver e amar Jerônimo de Albuquerque foi questão de pouco tempo. Chegado o dia do sacrifício, apaixonada pelo caraíba, Muíra Ubi pediu ao pai para salvar aquele com quem queria se casar e depois, de fato, se casou, no ritual tabajara. Ao atender a filha, o Cacique Arcoverde fez pacto de amizade com os portugueses. Este não foi um fato isolado, pois, na história do Brasil, as índias Bartira e Paraguaçu casaram-se com os europeus João Ramalho no Rio de Janeiro e Diogo Álvares, o Caramuru, na Bahia.
O maior título de Jerônimo de Albuquerque Maranhão, o filho destes amores da Princesa Índia com o fidalgo português, foi reconhecido do Rei Dom Filipe que, por seus méritos militares lhe concedeu acrescentar ao seu, o nome ou agnome Maranhão. Depois da Jornada Milagrosa de Guaxenduba que foi reconhecimento da vitória sobre os piratas franceses, na assinatura do armistício, ele assinou, naquele instante, Jerônimo de Albuquerque MARANHÃO, acrescentando a seu nome o nome da Província conquistada. E disse que o fazia “para perpetuar entre seus descendentes o seu grande feito militar”. Jerônimo colocou sua vida e seu patrimônio à disposição do Brasil que dava então os seus primeiros passos. Termino com as palavras do historiador Pereira da Costa: “Só um Plutarco poderia descrever a vida e os gloriosos feitos deste ilustre pernambucano. Seus inimigos lhe reconheceram a nobreza e a generosidade. Daniel da LaTouche, Senhor de La Ravardière reconheceu o peso de suas armas e se viu forçado a retirada do Maranhão, comparou sua clemência e seu cavalheirismo com grande Affonso de Albuquerque, o Vice-Rei das Índias, um de seus mais ilustres ascendentes. A gloria deste herói que orgulha e enobrece o nome pernambucano, é a gloria dessa Província à qual legou seu restos mortais”. Constituída a Província do Maranhão em 1621, foi seu primeiro Governador, seu bisneto, Francisco Moura de Albuquerque. Fonte: http://www.jornalpequeno.com.br/2006/11/27/Pagina46296.htm
Assim conta a história nessas e noutras fontes. E como foi que se deram, de fato, o início desses amores não sei. Mas consta em registro histórico que Muira Ubi foi a companheira mais constante de Jerônimo, o português. Aliás, homem notável este, que teve mais de 40 filhos com amantes diversas e mais a esposa portuguesa e, em tempos de tantos estupros e assassinatos, legitimou e amparou em testamento toda a sua prole, pela qual ganhou o epíteto de Adão pernambucano! Com Muira Ubi teve oito filhos, incluindo o Jerônimo filho que deu início aos Maranhão.
Muito me orgulho em saber que somos de sangue índio, que sou também do povo vermelho! E que este casamento se deu por vontade de ambos e que resultou em aliança de seus povos enquanto ambos viveram e tempos ainda depois, o que permitiu relativa paz e com isso o sucesso econômico da capitania. Terrivelmente este espírito de aliança não perdurou, o próprio povo Tabajara de minha ancestral, o meu povo, ao que sei, está praticamente extinto. Em vão venho procurando informação sobre como éramos e não encontro!
Mas é deste início indígena, miscigenado, mais romântico que violento e mais político que genocida, do cuidado em amparar todos os filhos de Jerônimo, da liberdade de escolha que teve Muira Ubi, é deste início que eu mais me orgulho em minha família paterna. O que vem depois, as vitórias militares, o estabelecimento da economia do açúcar, as grandes propriedades, engenhos e usinas, isso vem misturado com muita dor. Dos índios, dos negros, dos trabalhadores rurais, das mulheres, de todos os conquistados.
Mas parece ter havido algo de diferente nesse princípio. Parece ter sido mesmo uma história de amor e foi certamente uma aliança. Eu cá gosto de pensar que a mentalidade que tinham meus ancestrais, o espírito de seus amores, de Índia com português, inspiraram os modos brasileiros de casar culturas. Temos por um lado uma herança colonial violenta e autoritária e por outro uma tendência pacifista de criar identidade a partir de um caldeirão de culturas.
Desde Gilberto Freire, outro ilustre pernambucano, percebemos nossa miscigenação como riqueza, a mistura como criatividade, a cor parda como beleza. Somos de todas as cores e etnias, somos de todas as raças, viramos as latas de qualquer pretensa pureza étnica. Notamos que temos como santa padroeira uma madona negra, que somos católicos e damos flores a Iemanjá. Falamos português e dormimos em redes. Somos brasileiros.
Somos antropófagos, antes de gente, depois de culturas, absorvemos, digerimos, misturamos a nós mesmos. Herdamos isso de nossas Mães do povo Vermelho. Somos também anárquicos, libertários. Pernambucanos sobretudo, aqui grassaram as revoluções, temos tradição de pensadores livres. E cá comigo, gosto de pensar que, também isso, herdamos do povo vermelho!
Alguém que viveu muito tempo fora me disse que lá, entre os gringos, nós pernambucanos temos fama de revolucionários, de perigosos para o status quo ! Que fama adorável, pensei ! Ainda mais que o status quo era o regime militar, o intervencionismo dos EUA e tudo mais.
Pondero hoje que algo da liberdade do meu povo vermelho ficou. A aranha teceu sua teia no inconsciente brasileiro quando Muira Ubi capturou o coração daquele branco. A grande tecelã elabora sua trama e por mais que o autoritarismo jesuítico nos catequize, a inquisição nos queime, a lombriga nos coma, a seca nos arraste, por mais que tudo, resistimos. Resistimos armados muitas vezes e quando não, em resistência pacífica, sabotando com nosso jeitinho, bem antes de Gandhi, as imposições.
Resistimos e sabotamos até começar a exportar capoeira. Progredimos algo, oficialmente não há mais escravidão. Taí a Bahia espalhando orgulho negro, Sampa com a maior passeata do orgulho gay. Mas nosso povo vermelho cadê? Empurrados junto com a floresta cada vez mais pro interior, o genocídio continua. O povo vermelho cai junto com a mata, não vive sem a floresta! E também não há floresta sem o espírito do povo vermelho. Não há convivência, só destruição.
No Brasil temos uma cultura dinâmica, e extremamente criativa, que se adapta, cujos elementos interagem dinamicamente todo o tempo. Cujos imaginários se antropofagam e regurgitam crias mestiças. Nossa identidade está na diversidade. E no aprendizado do diálogo e depois do amor pela diferença é que se gesta o amor pela nossa nação. O sentimento de ser Brasileiro, não mais como um sufixo (eiro significa traballhador) de quem vem tirar algo de terra colonizada, e sim o sentimento de quem se sente filho da Terra (na Itália nos chamam Brasilianos porque ano, em línguas latinas, é o sufixo para filho de uma terra), a sente como seu lar, lugar onde tem ou criará raízes e fará filhos.
Esse sentimento, de amor a um lugar, é o que chamam os antropólogos de topofilia. A topofilia é a mãe do nacionalismo e como tal, está na base do crescimento das nações.

9 comentários:

  1. Caio Morais de Albuquerque Maranhãoterça-feira, outubro 13, 2015

    Muito bom esse artigo. Meu nome é Caio Morais de Albuquerque Maranhão, sou de Recife, Pernambuco e atualmente moro em São Luís no Maranhão, coincidência não?? Hahahaha, e fico muito feliz por conhecer um pouco da história dos meus ancestrais. Muito obrigado. Abraço

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  2. O artigo traduz muito bem a realidade dos fatos, parabéns. Gostaria de acrescentar que a cidade de São Luiz foi fundada por Jerônimo de Albuquerque Maranhão

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  3. È lamentavel e deprimente que no Maranhão existam pessoas querendo distorcer nossa história afirmando sem nem um fundamento histórico que São Luiz foi fundada pelos franceses, uma verdadeira agressão a história do Brasil. A Amazônia o Pará, o Maranhão e uma parte do piauí ou seja um terço do nosso território devemos a coragem ao censo de patriotismo e a grande capacidade de comando do grande Jerônimo de Albuquerque Maranhão e também fundador da cidade de São Luiz

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  4. EU, RAIMUNDO NONATO MARANHÃO FILHO, FILHO DE RAIMUNDO NONATO MARANHAO E FRANCIANA RODRIGUES MARANHAO, NATURAL DE PONTALINA-GO, PAPAI DE
    CAROLINA MARANHÃO..MAE DE TOCANTINIA -GO PAI DE 4 FILHOS E 5 NETOS, TENHO MAE AINDA VIVA, PAI FALECIDO EM 28 10 1995 DECANCER NO PULMÃO. NA CIDADE DE PONTALINA-GO, CHEGOU LÁ EM 1950. FOI PROFESSOR, POETA, POLITICO.. SEMPRE ME FALAVA DA ORIGEM DA MINHA FAMILIA. GRATO SOU AO SENHOR POR ESTE TRABALHO PERFEITO.

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  5. Eu, Simone Alves Maranhão, filha de Syllas Ferreira Maranhão e Josefa Alves Maranhão, natural de Duque de Caxias-Rj, meus pais são Capixabas. Adorei conhecer a origem da família.

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  6. Eu Carlos Alberto Craveiro de Albuquerque Maranhão, vó do RGN e vô de Pernambuco,se conheceram no RJ,onde nasci...Por parte de mãe,parentesco com Craveiro Lopes, primeiro ministro de Portugal,militar,na década de 60...,vai entender tudo isso...

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  7. Meu pai, ANTONIO FELIPE FERREIRA DA SILVA,nasceu no complexo do Engenho Cunhaú em 25 de julho de 1889,Engenho Mangueira,herdado pelo meu avô,CORONEL FELIPE FERREIRA DA SILVA pela descendência JERÔNIMO DE ALBUQUERQUE MARANHÃO.







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  8. Caros amigos

    O meu nome é Helder Maranhão.
    A nossa família é oriunda de Portugal, onde descende da linhagem de D. Joõa III

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