sexta-feira, 27 de maio de 2011

Os Primitivos habitantes do RN


Os Primitivos habitantes do RN
O Rio Grande do Norte foi habitado pelos animais da megafuna na era Cenozóica e, dos estudos realizados sobre o assunto, é possível chegar a duas conclusões, como disse Tarcísio Medeiros:
"a) A extinção dos grandes mamíferos processou-se mais recentemente do que se supõe em partes dessa região."
"b) Que a presença do homem, em comum com esses animais da megafauna no mesmo território, é mais antiga do que se considera habitualmente".
Exemplo dessa presença humana no Nordeste: Chá do Caboclo (Pernambuco).
Os primitivos habitantes eram formados pelos grupos de caçadores e coletores. Os homens contemporâneos da megafauna deixaram vestígios que se encontram nos sítios Angicos e Mutamba II. Diversos estudos arqueológicos foram feitos pelo Museu Câmara Cascudo, tendo à frente o pesquisador A. F. G. Laroche que, com suas investigações, em Pernambuco e no Rio Grande do Norte, forneceu importantes subsídios para a pré-história nordestina. Nássaro Souza Nasser e Elizabeth Mafra Cabral analisaram as inscrições rupestres do Estado, publicando posteriormente um estudo sobre o assunto. A arqueóloga Gabriela Martín, da Universidade Federal de Pernambuco, pesquisou intensamente as inscrições rupestres do Rio Grande do Norte, resultando em estudos como o intitulado "Amor, Violência e Solidariedade no Testemunho da Arte Rupestre Brasileira". Participou também do "Projeto Vila Flor", financiado pelo SPAN/Pró-Memória, cujo objetivo era o "estudo arqueológico e levantamento da documentação histórica da Antiga Missão Carmelita de Gramació". A mesma pesquisadora recentemente publicou um livro sobre a pré-história do Nordeste.
Na fase Megalítica, os homens se tornaram sedentários. O pesquisador Nássaro Nasser descobriu as "Tradições Cerâmicas", chamadas de Papeba e Curimataú. O professor Laroche, por sua vez, encontrou vestígios de diversas culturas pré-históricas, sendo a mais antiga do sítio "Mangueira", em Macaíba.
O professor Paulo Tadeu de Souza Albuquerque, coordenador do Laboratório de Arqueologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Larq/UFRN), realizou uma série de pesquisas, trazendo novas luzes sobre o longínquo passado potiguar. Participou de escavações realizadas na Fortaleza dos Reis Magos e na antiga catedral, onde encontrou o túmulo de André de Albuquerque Maranhão.
Alberto Pinheiro de Medeiros, coordenando investigações de alunos da UFRN, enveredou por outras vertente sobre o tema pesquisado, chegando a sistematizar uma alternativa - descrita no item sobre as inscrições rupestres, mostrado a seguir que poderia ser acrescida às conclusões já apresentadas sobre os primeiros habitantes do Rio Grande do Norte.

Resumo de Historia do RN

Com a distribuição das capitanias hereditárias, o então Rio Grande é doado, em 1535, a João de Barros pelo Rei Dom João III de Portugal. A colonização fracassa e os franceses, que traficavam o pau-brasil, passam a dominar a área até 1598, quando os portugueses, liderados por Manuel de Mascarenhas Homem e Jerônimo de Albuquerque, iniciaram a construção do Forte dos Reis Magos para garantir a posse da terra.

O domínio lusitano durou até 1634, quando o Forte dos Reis Magos caiu em poder dos holandeses, que só foram expulsos em 1654. Nesse período, todos os arquivos, documentos e registros do governo português foram destruídos, o que até hoje dificulta a reconstituição da história da época.

Invasões preocupavam Portugal e uma vez que a Capitania do Rio Grande do Norte ficava localizada no ponto mais estratégico da costa brasileira, o Rei retomou a posse da Capitania e ordenou a construção de um forte para expulsar os franceses da costa.

Em 1701, após ser dirigido pelo governo da Bahia, o Rio Grande do Norte passou ao controle da Capitania de Pernambuco. Em 1817, a Capitania aderiu à Revolução Pernambucana, instalando-se na cidade de Natal uma junta do Governo Provisório. Com o fracasso da rebelião, aderiu ao Império e tornou-se província em 1822. Em 1889, com a República, transformou-se em Estado.

Muitas pessoas desconhecem o caráter histórico e a contribuição da presença das tropas Aliadas instaladas na base aérea de Parnamirim. Junto ao Acre, o Rio Grande do Norte foi decisivo no processo da vitória aliada na II Guerra Mundial, pois barrou a expansão alemã que pretendia dar um salto da África Ocidental à América do Sul passando pelo Nordeste do Brasil, que foi ocupado antes por tropas norte-americanas.

A presença dos norte-americanos trouxe benefícios para o RN e para os estados do centro-sul do Brasil, que finalmente conseguiram recursos para o Brasil se industrializar de forma decisiva a partir da construção da Companhia Siderúrgica Nacional.

Do site http://www.rn.gov.br/conheca-o-rn/historia/

História do RN - Uma Síntese

Original em http://www.tribunadonorte.com.br/especial/histrn/hist_rn_16g.htm

Da Pré-História ao Final do 2º Milênio

O homem primitivo, nascido em terras potiguares antes da vinda dos europeus, é bem mais antigo do que se imaginava.
Antes de chegar ao Nordeste, teria vindo possivelmente da Ásia, através do Estreito de Bering ou por outras vias. O fato é que, com o passar do tempo, atingiu as terras que formariam, no futuro, o Rio Grande do Norte.
Esses povos desenvolveram culturas, procurando se comunicar, inventaram um tipo de escrita, conhecida pelo nome de inscrição rupestre, uma linguagem formada por traços, círculos, pontos e até pinturas.
A coloniza européia, no Nordeste brasileiro, foi conseqüência da expansão do imperialismo europeu. Nesta região, tentaram se fixar franceses, espanhóis, holandês e portugueses.
Filipe II, da Espanha, ao anexar Portugal e suas colônias, procurou de imediato se apossar de todo o Nordeste e da região Norte. Mandou expulsar os franceses da Capitania do Rio Grande, construir uma fortaleza (a Fortaleza da Barra do Rio Grande ou, como é mais conhecida, Fortaleza dos Reis Magos) e fundar uma cidade.
A expedição armada, comandada por Mascarenhas Homem, fracassou, porém, Jerônimo de Albuquerque, os jesuítas e os líderes nativos conseguiram, através de navegações, a pacificação da região.
Expulsos os franceses, construída a fortaleza no dia 25 de dezembro de 1599, João Rodrigues Colaço fundou Natal, que deveria funcionar como núcleo inicial de colonização se desenrolasse de maneira lenta.
Os holandeses tentaram conquistar o Nordeste, primeiro, procurando se apossar da capital da colônia (1624/1625). Sonhavam com 8.000 florins que a Bahia arrecadava anualmente. E, a partir daquela capitania, conquistar todo o País. Foi, contudo, um sonho que se desmoronou, por sinal bem rápido.
O fracasso foi total, mas a idéia de tomar o Brasil da Espanha continuava, pois não admitiam a derrota que sofreram para seu grande rival... E fizeram uma segunda tentativa. Escolheram, agora, a terra do açúcar, Pernambuco!
Conseguem o seu objetivo, se apossando de Pernambuco e, ainda, avançam, conquistando todo o Nordeste.
O conde de Nassau, figura invulgar, procurou não apenas explorar as terras sob seu domínio, como desejava a Companhia Privilegiada das Índias Ocidentais, e sim agir como se fosse um "mecenas". Incentivou a arte, a ciência e a cultura. Mostrou-se, ao mesmo tempo, hábil político e bom administrador.
O Rio Grande possuía um vasto rebanho de gado bovino, necessário para abastecer os invasores. Era urgente, portanto, a sua conquista, após muita pesquisa - porque a fortaleza da Barra do Rio Grande (Reis Magos) aparecia como um grande obstáculo. Mas, ao contrário, a tomada da fortaleza foi bem mais fácil do que eles esperavam. Aqui, os holandeses agiram de uma maneira bem diferente: nenhuma preocupação pela arte, ciência, cultura. A capitania foi transformada numa fornecedora de carne bovina para Pernambuco.
No Rio Grande, o conflito se agravou por causa do fanatismo religioso, provocando dois grandes massacres: o de Cunhaú e o de Uruaçu.
Apesar da violência, a tradição indicava os holandeses como sendo os autores de obras importantes, como a fortaleza dos Reis Magos ou, então, a ponte (antiga) de Igapó, construída muito depois de sua expulsão... Existe apenas uma explicação para tudo isso: uma resistência, pelo menos a nível de subconsciente, contra a colonização lusitana.
O último ato dos batavos, no Rio Grande, foi mais violência. Vencidos, obrigados a deixar a capitania, lançaram fogo, destruindo o que podiam, inclusive, documentos.
Após os flamengos, a capitania conheceu outro momento de grande violência: "A Guerra dos Bárbaros". Provocada pelos brancos, que desejavam tomar a terra dos seus legítimos donos, ou seja, dos nativos. A violência gerou violência. Bernardo Vieira de Melo, compreendendo essa verdade, agiu com competência e justiça, conseguindo aplicar a região sob o seu comando.
Essas duas guerras, contra os holandeses e dos "Bárbaros", foram responsáveis pelo atraso, ou seja, impediram o desenvolvimento natural do Rio Grande do Norte.
No século XVIII, a economia tinha por base apenas a agricultura e a indústria pastoril.
A Revolução de 1817, em Recife, teve reflexos no Estado. José Inácio Borges, que governava a capitania, procurou reagir, sendo preso por André de Albuquerque. O movimento não contou com o apoio popular. A reação monarquista veio logo a seguir, triunfando. André de Albuquerque, ferido, foi levado preso para a fortaleza, onde faleceu.
A independência do Brasil foi outro acontecimento que não conseguiu entusiasmar o povo. Houve apenas uma festa para comemorar a emancipação política do País, no dia 22 de janeiro de 1823.
A Confederação do Equador, no Rio Grande do Norte, se caracterizou pela atuação de Tomás de Araújo Pereira, para evitar que ocorressem conflitos armados no Estado. Sofreu, chegando a se humilhar, porém, conseguiu o seu intento.
A escravidão representava, no final do século XIX, o atraso, identificada com a decadente monarquia.
O abolicionismo, ao contrário, representava o novo e para muitos fazia parte dos ideais republicanos. Foi, contudo, a princesa Isabel quem decretou o fim da escravidão, no dia 13 de maio de 1888.
A grande falha do abolicionismo, no Brasil, foi a de não ter lutado pela integração do negro na sociedade, após a sua libertação. Como resultado, os africanos e seus descendentes passaram por grande dificuldades. Alguns se deslocaram para regiões distantes das cidades, formando comunidades fechadas, como em Capoeira dos Negros.
A libertação dos escravos, no Rio Grande do Norte, foi defendida por grupos de jovens e intelectuais, que fundavam, em seus municípios, associações que batalhavam pela emancipação do negro.
Mossoró foi a primeira cidade que libertou seus escravos, no dia 30 de setembro de 1883.
A Proclamação da República, a exemplo de outros acontecimentos, não despertou grande entusiasmo no povo potiguar. Teve caráter meramente adesista.
No novo regime, predominavam os interesses da oligarquia Albuquerque Maranhão. Contra ela, se insurgiu José da Penha Alves de Souza, promovendo a primeira campanha popular do Rio Grande do Norte. Patrocinou a candidatura do tenente Leônidas Hermes da Fonseca, que não conhecia e nem desejava governar o Estado... Abandonado pelo seu candidato, José da Penha voltou para o Ceará, onde chegou a ser eleito deputado estadual.
Quando o eixo econômico passou do litoral (açúcar-sal) para o sertão (algodão-pecuária), apareceu uma nova oligarquia, liderada por José Augusto Bezerra de Medeiros, cujo domínio terminou com a Revolução de 1930.
O regime político, apodrecido pelas fraudes, corrupção, provocou o descontentamento de grupos militares e civis. Dentro desse contexto, Luís Carlos Prestes e Miguel Costa percorreram o País com uma tropa, a "Coluna Prestes", protestando contra o autoritarismo do presidente Artur Bernardes. A "Coluna Prestes" entrou no Rio Grande do Norte pela Zona Oeste, travando combates com a polícia, durante o governo de José Augusto Bezerra de Medeiros.
A ‘Questão de Grossos" começou no século XVIII, quando Rio Grande do Norte e Ceará não tinham definido suas fronteiras. O Ceará precisava do sal potiguar para poder fabricar suas carnes de sol. A Câmara de Aracati (Ceará) pretendeu além das de seu Estado, penetrando em terras do Rio Grande do Norte. Era a chamada "Questão de Grossos".
Em 1901, a Assembléia Estadual do Ceará elevou Grossos à condição de vila, incluindo no seu território uma vasta área do Rio Grande do Norte. Alberto Maranhão, governador do RN, protestou. Era iminente um conflito armado entre os dois Estados. Para evitar o agravamento da crise, a controvérsia foi levada para uma decisão, através do arbitramento. Na primeira fase, o resultado foi favorável ao Ceará. Pedro Velho, então, convidou Rui Barbosa para defender a causa potiguar. Essa defesa também contou com a participação de Augusto Tavares de Lyra. Como resultado, o jurista Augusto Petronio, através de três acórdãos, deu ganho de causa em definitivo ao Rio Grande do Norte, em 1920. A "Questão de Grossos" estava encerrada.
A República foi ingrata com o sertão, que continuou abandonado, isolado dos grandes centros urbanos, com a maioria de sua população na ignorância e na miséria.
No sertão dos coronéis, os mais humildes tinham três opções: viver eternamente agregado às famílias dos coronéis; integrar-se ao cangaço, ou penetrar no mundo místico, cujo fiéis terminavam enfrentando os coronéis e se transformavam em grupos de "fanáticos".
Lampião levou pânico ao interior nordestino, chegando a invadir Mossoró, sendo derrotado pelo povo daquela cidade, sob a liderança do coronel Rodolfo Fernandes.
O cangaceiro, no sertão, era um misto de bandido e de justiceiro, único a fazer frente ao absolutismo dos coronéis.
Jesuíno Brilhante é o representante potiguar típico do cangaço.
Os grandes místicos do Nordeste foram: padre Cícero e Antônio Conselheiro.
Os fanáticos da Serra de João do Vale, liderados por Joaquim Ramalho e Sabino José de Oliveira, foram os místicos mais conhecidos da história do Rio Grande do Norte. O fim deles, porém, foi melancólico, derrotados pelo tenente Francisco de Oliveira Cascudo.
A Revolução de 30 irrompeu no Brasil para modificar a estrutura política existente no País. Governava o Estado, Juvenal Lamartine, muito dependente do poder central, e teve, segundo seus adversários, uma preocupação básica: perseguir seus inimigos... Com a Revolução de 30, perdeu o governo, caindo sem resistir.
A Revolução de 30, no Rio Grande do Norte, significa, sobretudo, a atuação de João Café Filho. Foi um lutador, procurando isntalar no seu Estado os ideais revolucionários. Encontrando sempre a resistência das oligarquias, lideradas por José Augusto de Medeiros.
A Revolução de 30 enfrentou momentos difíceis, por causa da oposição das classes conservadoras, representadas pelo Partido Popular. O governo central orientou Mário Câmara para fazer uma composição de forças, com o Partido Popular. O interventor, entretanto, não conseguiu efetivar tal aliança. Em vez de pacificação, cresceu o clima de agitação, fazendo com que o final da administração se transformasse no período de maior violência ocorrido até aquele momento.
A classe operária, contudo, começou a se organizar, se unindo em torno dos sindicatos.
Cinco anos depois de ter ocorrido a Revolução de 30, surgiu outro movimento armado, a Intentona Comunista. Gerado, em parte, pelo descontentamento provocado pelo governo de Mário Câmara, e que foi liderada por um grupo de comunistas. Vitoriosa a rebelião, uma grande agitação dominou Natal, com estabelecimentos comerciais assaltados e, ainda, com assassinatos.
A resistência maior foi feita pela polícia, sob o comando do major Luís Júlio e do coronel Pinto Soares. Surgiu um mito, transformado em herói: o soldado Luiz Gonzaga.
Foi instalado o "Comitê Popular Revolucionário" no dia 25 de novembro de 1935. Circulou o jornal "Liberdade".
Com o fracasso da Intentona, no Recife e Rio de Janeiro, os rebeldes abandonaram Natal, seguindo o rumo do Seridó. Na Serra do Doutor houve o encontro dos fugitivos com forças sertanejas, com a debandada de ambas as facções... Terminava, assim, a Intertona Comunista. A repressão foi violenta,
Mas o destino de Natal não seria, apenas, a de ser palco de violência. A sua localização geográfica fazia com que a cidade fosse predestinada para ocupar um lugar de destaque na história da aviação, desde os primórdios, na época dos hidroaviões, quando grandes aeronautas passaram por Natal: marquês De Pinedo, Paul Vachet, Jean Mermoz, etc.
O primeiro aeroplano que aterrissou no Estado foi um Breguet, pilotado por Paul Vachet.
Em 1927, o coronel Luís Tavares Guerreiro indicou a Vachet um local apropriado para construir um aeroporto, que aeroporto, que servisse de pouso para os aviões da Lignes Latércoère. Aprovado, nasceu assim o Aeroporto de Parnamirim. Foi inaugurado por um "Numgesser-e-Coli", pilotado por Dieu Domé Costes e José le Brix, concluindo, com êxito, o roteiro Saint Louis do Senegal-Natal.
Graças ao empenho de Juvenal Lamartine, no dia 29 de dezembro de 1928 foi fundado o Aéro Clube.
Em 1º de janeiro de 1931, o navio italizano "Lazeroto Malocello", comandado pelo capitão de fragata Carlo Alberto Coraggio, chegava a Natal, trazendo a Coluna Capitolina, ofertada pelo chefe do governo italiano Benito Mussolini, para comemorar o "raid" Roma-Natal, feito pelos aviadores Del Prete e Ferrarin.
Cinco dias depois, Natal recebeu a visita da esquadrilha da Força Aérea italiana, comandada pelo general Balbo. Governava o Rio Grande do Norte, Irineu Joffily.
Natal iria ficar mais famosa ainda durante a Segunda Guerra Mundial. Os norte-americanos, nesse período, construíram uma megabase, que desempenhou um papel tão significativo no grande conflito que se tornou conhecida pelo nome de "O Trampolim da Vitória".
Em Natal, ocorreu a reunião entre o presidente do Brasil, Getúlio Vargas e o presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, na chamada "Conferência de Natal" (28-1-1943).
A cidade cresceu, multiplicou sua população, foi visitada por personalidades ilustres de diversos países, e, sobretudo com o progresso, a população mudou de hábitos.
Para uma maior integração dos militares americanos com os nataleses, foram realizados, inúmeros bailes. Como conseqüência, houve uma invasão de ritmos estrangeiros: rumba, conga e boleros.
Natal, assim, perdeu definitivamente seu jeito de cidade provinciana.
O populismo se impôs, no Rio Grande do Norte, durante os anos 60, através de dois grandes líderes políticos: Aluízio Alves e Djalma Maranhão. O primeiro, oriundo do Partido Popular, se apresentava como sendo do Centro, iniciando o processo de modernização do Estado. O segundo nacionalista radical, homem de esquerda.
O golpe militar de 64 se caracterizou, no Rio Grande do Norte, apenas pelas perseguições a jovens e intelectuais da terra, como Moacyr de Góes, Djalma Maranhão, Mailde Pintou e outros. Luís Maranhão, ao que parece, foi morto pelas forças da repressão. Djalma Maranhão, exilado, com saudade do seu povo, morreu no Uruguai. Aluízio Alves, Garibaldi Alves e Agnelo Alves tiveram seus direitos políticos cassados pelo AI5
Na história educacional do Estado, um colégio se destacou: Ateneu, que se transformou num centro cultural de grande importância.
A "Campanha de Pé no Chão Também se Aprende a Ler" provocou uma verdadeira revolução no processo educacional do Rio Grande do Norte, nos anos 60, liderada por Djalma Maranhão, Moacyr de Góes e Margarida de Jesus Cortez.
O ensino "normal" passou por uma série de vicissitudes até o funcionamento do Instituto Presidente Kennedy. Inaugurado, por sua vez, com grandes festas, no governo de Aluízio Alves. Recentemente, foi redimensionado, ministrando o curso de 3º grau, visando a formação de um novo professor, cotando com a assessoria do professor Michel Brault.
A cultura no Rio Grande do Norte apresenta páginas brilhantes. Desde a fundação do seu primeiro jornal, "O Natalense", em 1832, pelo padre Francisco de Brito Guerra, até o presente momento, a imprensa escrita ocupou um lugar de destaque.
No século XIX apareceu o primeiro romance, "Mistério de um Homem", de Luís Carlos Lins Wanderley.
Nomes femininos que brilharam no século XIX e início do século XX: Isabel Gondim, Auta de Souza e Nísia Floresta.
Ferreira Itajubá é considerado o grande poeta do século XIX. A partir dessa época, surgiram grandes poetas até os dias atuais.
No dia 29-3-1902 foi fundado o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Luís da Câmara Cascudo, no dia 14-11-1936, fundou a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras.
O movimento cultural cresceu muito e jornais se multiplicaram em praticamente todos os municípios do Estado.
Na atualidade, algumas instituições têm contribuído para o desenvolvimento cultural do Estado: Fundação José Augusto, "Coleção Mossoroense" e Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
O estado conta, até o presente momento, com duas antologias, reunindo os poetas do Rio Grande do Norte: a primeira, organizada por Ezequiel Wanderley, foi publicada em 1922 sob o título "Poetas do Rio Grande do Norte" e a segunda, escrita por Romulo Chaves Wanderley, que publicou, em 1965, o "Panorama da Poesia Norte-Rio-Grandense".
Novas antologias estão sendo preparadas. Uma delas organizada por Constância Lima Duarte, juntamente com a poetisa Diva Cunha.
A economia do Estado teve um lento caminhar, prejudicada por períodos de longas estiagens. Teve alguns ciclos: gado, cana-de-açúcar, algodão, sal, etc.
A partir de 1974, com a abertura do poço pioneiro, o petróleo começou a crescer na economia estadual. Fala-se, agora, no "Pologás-sal", que caso venha a se tornar realidade, trará grandes benefícios para o Rio Grande do Norte.
O turismo é apontado pelos especialistas como um setor que tende a crescer, pela potencialidade que a terra potiguar possui.
Foi construída uma rede de hotéis na Via Costeira e recentemente a Secretaria Estadual de Turismo organizou uma grande festa que abriu a VI BNTM (Brazil National Tourism Mart). Durante o evento, mais de 2.000 participantes freqüentaram os estandes dos nove Estados, armados no Pavilhão Parque das Dunas, do Centro de Convenções, em Ponta Negra.
O Rio Grande do Norte se encontra incluído no polígono das secas.
O governo Garibaldi Alves elegeu a irrigação como uma das metas prioritárias de sua administração. O seu projeto é interligar as principais bacias, como uma maneira de levar água de boa qualidade para a população, incluída nas comunidades atingidas pela seca, com a irrigação de uma vasta área do território potiguar.

JUMENTOS : HISTÓRIA E ORIGEM

Por Leopoldo Costa no site:http://stravaganzastravaganza.blogspot.com/2011/04/jumentos-historia-e-origem.html


Os asininos são popularmente conhecidos como burro, asno, jumento e jegue.Dividem-se em dois troncos: o tronco europeu, Equus asinus europeus, provavelmente com origem na região Mediterrânea e o tronco africano, Equus asinus africanus, originário do norte da África, da bacia do Nilo ou na Abissínia (atual Etiópia).
Os registros mais antigos que se conhece sobre os jumentos são do sítio arqueológico de Maadi, próximo do Cairo, a capital do Egito, datados entre 3.800 e 4.000 anos antes de Cristo. O sítio Maadi é composto por um sítio principal relacionado com um cemitério (76 sepulturas), juntamente com um assentamento secundário relacionado com um segundo cemitério (450 sepulturas humanas e 14 animais).
Estudiosos admitem que a domesticação dos asininos foi realizada na região de Jamo (atual Iraque) em 7.000 anos a.C., com a finalidade de transportar objetos pesados, pois superavam os bovinos neste tipo de trabalho não necessitando de longo tempo para ruminar os alimentos, obedeciam facilmente ao comando do cabresto e aprendiam rapidamente os caminhos e a rotina do trabalho. Foi o quarto animal de criação a ser domesticado logo após os ovinos, os caprinos e os bovinos. No Egito antigo, da mesma forma que os camelos, os jumentos foram o mais importante veículo de transporte das pessoas que viviam nos desertos. Além de animais de carga, eram usados como produtores de leite, carne e peles. por causa desta versatilidade eles foram sendo conhecidos em diversas regiões, desde o vale do rio Nilo até no sudoeste da Ásia.
Em 1.800 a.C. o centro de criação e comércio de asininos transferiu-se para a Mesopotamia. A cidade de Damasco, hoje capital da Síria, tornou-se polo de convergência de caravanas de camelos e jumentos que dirigiam-se para o Egito.
O onagro (Equus hemionus onager) é uma espécie intermediária entre o asno e o cavalo, que vive em estado selvagem nos desertos da Síria até o Tibet. Alcança 2 metros de altura e pode pesar 300 kg. A pelagem pode ser baia ou dourada. Na Suméria foi domesticado e usado como animal de tiro e carga. Tem outros assemelhados ainda vivendo em estado selvagem que ganharam denominações locais como o ‘kulan’ (E.hemionus hemionus) na Mongólia, ‘kiang’ (E.hemionus kiang) no Tibet, ‘ghorkhar’ (E.hemionus khur) na India e Paquistão e o E.hemionus hemippus na Síria que está extinto.
Na Europa o aparecimento dos asininos ocorreu no quinto milênio antes de Cristo, levado pelos comerciantes gregos de vinhos que voltavam do Egito e Oriente Médio, primeiro na região mediterrânea, mais tarde expandindo-se por toda a região central de clima menos frio.
Pelas condições ecológicas existentes no continente europeu surgiram diferentes variedades de burro de acordo com os distintos propósitos dos criadores de cada região geográfica. Foram surgindo assim, algumas das principais raças atualmente existentes: a raça Catalã. a Cordovesa, a Andaluz e a Zamorano-Leonesa na Espanha, a raça de Miranda em Portugal, as raças Piemontesa, da Sardenha e da Sicilia na Itália e as raças Poitou e Gasconhesa na França.
O Poitou é um descendente dos animais levados pelos Romanos para esta região do oeste da França entre o rio Viena e o oceano Atlântico. A sua existência e importância para os habitantes foi registrada num relatório de um emissário real em 1717. Apresentam pelagem castanha escura, abundante e comprida e portanto chamados também de ‘lanoso’. Têm a cor branca no focinho e nos contornos dos olhos.
A raça de Miranda é composta de animais altos, que atingem até 1,20 m de altura. O burro de Miranda encontra-se ligado a incontáveis tradições locais e carrega uma importante herança cultural e por isso os portugueses têm feito um grande esforço para evitar a extinção da raça.
A raça Abissínia é encontrado em toda a Etiópia. São animais normalmente cinza-ardósia e algumas vezes da cor castanha. É bem parecida com a raça existente no Sudão.O jumento é bem considerado pelos cristão. Está registrado na Bíblia que Jesus Cristo, antes de sua crucifixação entrou triunfalmente em Jerusalém montado em um jumento.
Pelo evangelho de Lucas cap.19 vers. 30 e 31, está escrito: ‘Ide a essa aldeia (perto de Betfagé e Betânia), que está na fronteira; entrando nela, encontrareis um jumentinho atado, em que nunca montou pessoa alguma; desprendei-o e trazei-o. E se alguém vos perguntar porque o soltais, dir-lhe-eis: porque o Senhor tem necessidade dele’.
Na biografia de santo Antonio de Pádua (1195-1231) , consta uma passagem considerada como um milagre do santo, que foi um grande pregador e combatia a heresia dos Albigenses, que negavam a presença viva de Cristo na Eucaristia. Um líder Albigense na cidade de Rimini na Itália, de nome Bonvillo fez um desafio a santo Antonio sobre este dogma católico. Propôs que fosse deixado um jumento três dias sem comer, depois mostrasse um feixe de capim a ele na frente de um sacrário com uma hóstia, se o jumento prestasse reverência à hóstia, ele acreditaria no dogma. Isto foi feito em praça pública. Santo Antonio trazia um ostentório e se colocou no meio da praça e o jumento dobrou os dois joelhos e de cabeça baixa, não tocou no feixe de capim, até que o ostentório fosse retirado do ambiente. Retirado, o animal devorou o feixe de capim em um minuto.
Apuleio, escritor latino que viveu no século II da nossa era, na sua obra ‘Metamorfose’ forneceu detalhes da vida quotidiana dos Romanos de sua época. A personagem principal do livro se transforma num burro e experimenta uma série de aventuras.
Cristóvão Colombo na sua segunda viagem trouxe os primeiros asininos, (4 machos e 2 fêmeas), para Cuba e daí alguns descendentes foram levados para o México. Quase todas as minas de prata no tempo da colonização do México empregavam os jumentos para o transporte do minério.
George Washington (1732-1799), o herói da independência dos Estados Unidos, foi um dos principais criadores de jumentos da sua época. Era um entusiasta e colaborou no desenvolvimento da raça Mammoth. O interesse começou quando foi ele foi presenteado pelo marquês de Lafayette da França, com um jumento preto Maltês e algumas fêmeas da mesma raça. Estas fêmeas cruzaram com jumentos da raça Andaluz e deram origem à raça Mammoth.
No Brasil, os primeiros asininos chegaram a São Vicente em 1534, junto com uma partida de cavalos e éguas, na expedição de Martim Afonso de Souza (1490-1571). Em pouco tempo o rebanho foi multiplicado e povoou as redondezas. Do cruzamento entre o macho Equus caballus e a fêmea E. asinus ou africanus resulta no muar chamado ‘bardoto’, menor e pode apresentar algumas imperfeições. Entre a fêmea E. caballus e o macho E. asinus resulta na mula (ou mulo). Estes animais híbridos são normalmente estéreis devido a diferença na quantidade de cromossomos: o E.caballus têm 64, o E. asinus têm 62 e os híbridos têm 63. As mulas foram de grande importância no período do Ciclo do Ouro e da Mineração, quando eram usadas no transporte de cargas entre as minas e o litoral e vice-versa. Veja esta história no nosso artigo ‘O Tropeirismo’.
O jumento Pega, também chamado de jegue, é criado numa vasta região que começa no norte do estado de Minas Gerais e abrange todo o Nordeste. O nome foi tirado de uma braga de ferro usada para prender os pés dos escravos fugitivos, por que uma das primeiras marcas de fogo aplicadas aos animais tinha este formato.
O melhoramento da raça, obtido com o cruzamento de animais de raças Italiana e Egípcia, foi iniciado em 1810 pelo padre Manuel Maria Torquato de Almeida na fazenda do Curtume no município de Entre Rios de Minas (MG). O padre vendeu em 1847, dois machos e sete fêmeas para a fazenda Engenho Grande dos Cataguases de Eduardo José de Rezende, em Lagoa Dourada (MG), que continuou a obra de melhoramento com entusiasmo, ampliando bastante o seu rebanho. Seus filhos receberam cada um lote de jumentos Pega para continuar cuidando da raça.
Em 15 de agosto de 1947 foi fundada a ‘Associação Brasileira de Criadores de Jumento Pêga’ que passou a cuidar da pureza e desenvolvimento da raça. Hoje tem mais de 17.000 animais registrados. A estatura média de um Pega é de 135 cm para os machos e 125 cm para as fêmeas pesando o macho cerca de 350 kg e a fêmea cerca de 240 kg. A pelagem normal é o 'pelo-de-rato', podendo ser também rua ou rosada e tordilha. As cores ruça e branca são indesejáveis. O pescoço é longo e musculoso. O corpo delgado e elegante, com lombo comprido. Membros altos de ossatura forte e fina, com articulações
Na Argentina, Austrália e Nova Zelandia os jumentos estão sendo treinados para conviver com os rebanhos de ovinos e afugentar os lobos, raposas e cães selvagens que se aproximam. Deve-se ter apenas um animal por rebanho, pois o segredo é mantê-lo solitário.

HISTÓRIA DA CRIAÇÃO DE GADO NO CEARÁ

Por Leopoldo Costa em http://stravaganzastravaganza.blogspot.com/2011/04/historia-da-criacao-de-gado-na-paraiba.html

Uma expedição do espanhol Vicente Yañez Pinzon (1462-1514) e outra de seu primo Diogo de Lepe desembarcaram nas costas cearenses no final do século XV, antes da chegada de Cabral ao Brasil. A primeira, num cabo identificado posteriormente como o da Ponta Grossa, no município de Icapuí, e a segunda, na barra do Ceará (hoje Caucaia), na Grande Fortaleza. Tais descobrimentos não puderam ser oficializados, pois navegavam em nome do reino de Castela e eram terras de Portugal, em razão da vigência do Tratado de Tordesilhas.

As terras pertencentes ao Ceará foram doadas em 1535 a Antônio Cardoso de Barros, mas este não se interessou em colonizá-las e nem sequer chegou a visitar a capitania. Quando ele finalmente, quase vinte anos depois, decidiu vir à capitania o navio naufragou na costa de Alagoas (1556), culminando com sua morte.

A primeira exploração portuguesa na região foi a de Pêro Coelho de Souza. Ele tinha sido designado pelo governador geral Diogo Botelho (governou de 1602 a 1606) para explorar as riquezas minerais nordestinas e levar a fé cristã àquelas paragens. Partiu em julho de 1603 e um mês depois atingiu a foz do rio Jaguaribe, onde erigiu o forte de São Lourenço, embrião da cidade de Aracati. Depois, alcançando as margens do rio Ceará e rumando na direção norte, chegou ao vale do Camocim e a serra de Ibiapaba. O comandante queria ir mais longe, mas seus companheiros fadigados negaram-se a lhe obedecer. Iniciou-se o retorno e em 25 de julho de 1604 e na foz do rio Ceará fundou um posto fortificado o São Tiago, como base da vila de Nova Lisboa, que não prosperou devido a grave seca de 1606.
Pela segunda vez, Pêro Coelho de Souza tentou outra exploração acompanhado desta vez pela sua esposa e filhos e sem a ajuda do governo. Penetrou pelo interior, onde sofreu ataques de indígenas e sem recursos para continuar teve que regressar, seguindo em direção ao Rio Grande do Norte. No caminho de febre morreram seus filhos e outros companheiros. Chegou com a sua esposa Tomásia e alguns homens fadigados e debilitados no estuário do rio Potengi, onde já existia a vila de Natal.

Mais tarde, um participante e sobrevivente da expedição, Martins Soares Moreno (1586-1648) retornou ao território percorrido e em 1612 construiu uma fortaleza, chamada de São Sebastião, no local onde antes Pêro Coelho de Souza tinha construído o forte de São Tiago (local hoje conhecido como barra do Ceará, na divisa entre Fortaleza e Caucaia[1]).

Numa outra frente, em 1607, uma missão jesuíta dirigida pelos padres Francisco Pinto (1551-1607) e Luís Pereira Figueira (1574-1643), partiu da foz do rio Jaguaribe, seguiu até a enseada de Paracuru, transpôs os rios Aracati-açu e Acaraú e alcançou a serra de Uruburetama. Os índios Tucurijus assassinaram a pauladas o padre Francisco Pinto, obrigando o seu colega, o padre Luís Figueira e os seus companheiros a retornarem.

A presença dos piratas franceses era frequente na região, sempre contrabandeando o pau brasil com a ajuda dos índios.

Em 1637 chegaram os holandeses que dominaram o Ceará durante sete anos. Em 1644 foram expulsos pelos índios, sendo destruído o forte de São Sebastião.
Durante a permanência dos holandeses no litoral, os portugueses foram obrigados a emigrar para o interior, vindo a instalar com isto vários currais de criação de gado. A expansão destes currais foi registrada pelos visitantes estrangeiros que visitaram o Ceará nesta época.
Cinco anos após a expulsão, os holandeses voltaram ao Ceará comandados por Matias Beck (m.1668), e ergueram o forte Shoonemborch, na desembocadura do riacho Marajaitiba no rio Pajeú. Em 1654, com a expulsão dos holandeses, o forte foi tomado pelos portugueses e passou a ser chamado forte de Nossa Senhora de Assunção. Em volta desse forte formou-se a segunda vila do Ceará, a vila do Forte, ou Fortaleza. Depois de muita disputa política entre Aquiraz e Fortaleza. Aquiraz, elevada a vila pela carta régia de 13 de fevereiro de 1699 (instalada em 1713) foi a primeira capital da capitania, até 13 de abril de 1726, quando perdeu a posição para Fortaleza.

Seguindo a rota dos portugueses fugitivos, que tinham abandonado o litoral durante o domínio holandês, mais colonos começaram a se interessar pelo interior.

São percebidas duas frentes de ocupação do território cearense: a do ‘sertão de fora’, controlada por pernambucanos que vinham pelo litoral, e a do ‘sertão de dentro’, dominada por baianos que conseguiram transpor o rio São Francisco. Primeiro foram se estabelecendo em terras do Pernambuco e mais tarde seguindo o fluxo do riacho da Terra Nova e do Brígida, alcançaram o território cearense. O principal objetivo destas frentes era a criação de gado. Os currais foram se instalando procurando os locais onde houvesse a disponibilidade de água, o que não era fácil. O sertão do sudoeste também foi conquistado pelos criadores de gado da Bahia.
Na estação seca de junho a dezembro, não costuma cair uma gota sequer de chuva no interior do Ceará, como constatou Robert Southey (1774-1843)[2], e isso dificultou muito a sua ocupação. A solução encontrada então foi criar cabras e ovelhas mais resistentes e que podiam comer a vegetação pobre da região[3].

O mesmo Robert Southey[4] informava sobre a importância da criação de ovinos e caprinos na província, onde havia cinco mil rebanhos de duzentas cabeças cada um. Segundo ele a lã produzida era de excelente qualidade.
Graças à pecuária e aos deslocamentos de pessoas das áreas então mais povoadas, praticamente todo o Ceará foi ocupado ao longo do século XVII, levando ao nascimento de várias cidades importantes nos cruzamentos das principais estradas utilizadas pelos vaqueiros, como por exemplo, Icó. Icó foi fundada por Bartolomeu Nabo Correia em 1683 como Arraial Novo de Icós.

Ao longo do século XVIII, a principal atividade econômica cearense era a pecuária, levando muitos historiadores a falarem que o Ceará tinha-se transformado em uma civilização do couro através de um rico artesanato, pois a partir do couro se faziam praticamente todos os objetos necessários à vida do sertanejo.

Com outro objetivo, o de capturar índios do interior do Ceará para escravizar, a bandeira do paulista Matias Cardoso de Almeida embrenhou-se nos sertões cearenses entre 1689 e 1694. A reação dos indígenas foi violenta, organizaram a Confederação dos Cariris e combateram ferozmente a invasão. O pior confronto foi em 1690, que terminou com o massacre dos indígenas.

Em 1780, existiam 792 fazendas de gado no Ceará. Grande parte da carne proveniente do abate deste gado era preparada como charque em pequenos estabelecimentos instalados nas desembocaduras dos rios Jaguariçá, Acaraú e Coreaú (também conhecida como rio Camocim) e exportada para os centros consumidores da Bahia e Pernambuco para a alimentação dos escravos.

Geraldo da Silva Nobre[5], transcrevendo um auto de audiência da Câmara da vila de Aracati pode informar como eram as ‘oficinas’- fábricas de charque da época: (...) herão huas cazas, ou idificios insignificantes em forma de telheiros formados de paus e telha vaã que em pouco tempo seu podem mudar, e construir de novo com os mesmos paus, e telha (...)

A produção e o comércio do charque foram importantes para a vida econômica do Ceará ao longo do século XVIII e XIX. O inicio da instalação de charqueadas (oficinas) datam da época anterior a 1740 e surgiram no arraial de São José do Porto dos Barcos, depois elevada à vila com o nome de Santa Cruz do Aracati. Aracati manteve-se por muito tempo como o local de maior influência no processo de formação econômica, social e política do povo cearense. O comércio da carne e do couro, que atraía para Aracati abastados senhores de locais diversos, fez crescer a especulação daquele ramo de negócio, aumentando as transações com as demais praças do país. Passou, então, Aracati a prover o resto da capitania de fazenda e objetos de luxo que desembarcavam no seu movimentado porto. Até a estrutura urbana da vila obedeceu ao interesse comercial das carnes-secas. O traçado das ruas tinha como finalidade a comunicação entre o Porto dos Barcos e o tráfico das oficinas. A produção e comercialização da carne seca punham em destaque os núcleos produtores principalmente as vilas de Aracati e Sobral, a ponto de estas concorrerem com Fortaleza, o centro administrativo da Capitania, desde 1726.
José Vaz Salgado, um dos mais prósperos charqueadores de Aracati em 1744 tinha um movimento anual entre 18.000 e 20.000 cabeças de bovinos por ano.

O charque também permitiu o enriquecimento de proprietários de terras e de comerciantes, bem como o surgimento de um pequeno mercado local.

Escreveu Renato Braga (1905-1968)[6] ‘Aracati, Granja, Camocim desenvolveram-se ao influxo da carne seca. Sobral igualmente fabricava muita carne, a princípio carregada no Porto do Barco, depois em Oficinas, núcleo inicial da cidade de Acaraú. Aracati, a 15 quilômetros da barra do rio mais importante do Ceará, excedeu a todas essas povoações e durante mais de meio século manteve a privilegiada situação de maior exportador de produtos pecuários do Assu ao Parnaiba. Ainda não era vila e já abatia, anualmente, de 18 a 20.000 bois, e mais de 25 sumacas frequentavam-lhe o ancoradouro, na faina de transportarem a carne e a courama para Pernambuco, Baia e Rio de Janeiro, a troco de fazendas,ferragens e quinquilharias. Ao findar das chuvas afluiam a esses arraiais costeiros as embarcações e as boiadas. Carros e tropas traziam do interior couros, solas, vaquetas, algodão. Era a estação dos negócios. O encontro de homens da marinha e de homens do sertão - comerciantes rudes e sertanejos rixentos - não raro explodia em rusgas, resolvidas a faca ou a tiros de bacamarte. A insegurança chegou a tal ponto, que a Carta Régia de 25 de Setembro de 1745 determina que um juiz ordinário e um tabelião da vila do Aquiraz assistiam no Aracati, por ocasião da afluência dos barcos, afim de coibirem as desordens. A instalação da vila do Aracati a 10 de Fevereiro de 1748 acarretou-lhe, a principio, um colapso comercial de grave repercussão na vida econômica da capitania, como se depreende das informações do ouvidor Proença Lemos e da câmara de Aquiraz. Os armadores, afeitos a largueza de um porto livre, não quiseram submeter-se as posturas criadas pela nova edilidade, procuraram outras oficinas, descendo a frequência dos barcos de mais de 25 anteriormente, para 6 ou 7 em 1751. Já antes, a 2 de Junho de 1741, a câmara de Aquiraz impusera aos barcos que entrassem no porto do Aracati o tributo de 8$000 se carregassem mais de 1.000 arrobas, 6$000 se fosse menos e 4$000 aos que transportassem couros, mas a ordem régia de 6 de Setembro do ano seguinte repreendia severamente os oficiais autores do imposto e mandava que de seus bolsos restituissem as quantias arrecadadas. Em pouco tempo, porem, a nova vila recupera o seu papel de entreposto comercial de Pernambuco com a bacia jaguaribana e regiões lindeiras. Uma ordem regia impedia a capitania comerciar directamente com a metrópole, e Recife, como intermediário, beneficiava-se com todo esse movimento de negócios que alcançava os mais longinquos sertões cearenses e drenava a parte central do Piaui. Aracati carneava anualmente de 20 a 25.000 bois e a sua exportação compreendia também perto de 60.000 meios de sola, 30.000 couros salgados, 35.000 couros de cabra, 3.000 pelicas. As matanças não param nessas cifras, registradas salteadamente nos informes camarários e nos relatos dos giros obrigatórios dos capitães-mores. Nos ltimos anos do século XVIII, ali morriam, todos os anos, para mais de 50.000 reses; logo depois vinha Sobral, cujas carnes sustentavam muitos especuladores e embarcações de Pernambuco e Baia. Aracati dominava o Ceará econômica e socialmente. Importava mais de seiscentos mil cruzados e as exportações caminhavam perto do dobro, oriundas quase todas das carnes e couros. Casas comerciais existiam com capital superior a cem mil cruzados. Milhares de cavalgaduras e perto de dois mil carros de bois asseguravam as comunicações desse empório com os sertões. Seguiam·lhe em importância os portos de Acarau e Camocim. Mucuripe negociava especialmente com algodão. A riqueza, o contacto com a gente mais civilizada, poliu os aracatienses, a ponto de se tornarem os homens mais notáveis da capitania. João Brigido, cujas obras constituem o filão mais rico da historiografia cearense, no tocante à sociedade, numa página pitoresca sintetiza essa proeminência dos aracatienses: Quando a gente do Aracati era a mais civilizada do Ceará, assim na roupa, como em tudo mais, dai saiam, para as outras vilas os homens que mais se distinguiam em música e ofícios mecânicos, letras e ciências. (...)’

A partir de 1757 encontramos dados referentes à inserção do charque cearense como produto estratégico para a manutenção do tráfico de escravos, para a manutenção de tropas, para o abastecimento das minas e das cidades do Recife, Salvador e Rio de Janeiro.

Renato Braga, na obra citada anteriormente, também escreveu sobre as secas. Ele menciona que a primeira grande seca que assolou o nordeste (registrada historicamente) foi a de 1777/1778. Não deixou perdas humanas, mas abalou profundamente o comércio de carnes. Ele cita que ‘durante o flagelo a exportação cearense chegou a 40.000 arrobas de carne e 100.000 couros salgados, sendo esta última parcela diminuta em relação a imensa courama perdida nos campos de criar’.

Em 12 de fevereiro de 1781 no Auto de Audiência Geral foi registrado a existência de apenas cinco oficinas em funcionamento de propriedades dos seguintes comerciantes: capitão José Ribeiro Freire, capitão João Coelho Bastos, Tomé de Melo Cabral, Manuel Francisco da Cunha, tenente coronel Manuel Rodrigues da Silva

A era do charque chegou ao fim depois das secas de 1790/92, que devastaram o estado e impossibilitaram a continuação da criação de gado.

Num relato da Câmara de Aracati, citada por Renato Braga, está escrito: ‘porém no 1791 e 1792 mais excessiva, de tal sorte que derrubou, destruiu e matou quase todos os gados dos sertões desta comarca, e por isso veio a perder aquele ramo de comercio das fabricas de carnes secas desde o ano de 1793 exclusivo, porque no ano de 1794 já não houve gados que se matar’

Ainda citando Renato Braga: ‘a seca grande, como vimos, assinalou definitivamente a decadência dos sertões nordestinos como abastecedores de carne. A medida que decresciam as suas exportações, avultavam os fornecimentos de um novo mercado, que a seu favor apresentava rebanhos imensos e um ambiente sem igual em toda a Colônia para a criação. Foi um cearense, José Pinto Martins, tangido para os pampas em consequência de uma seca, 0 fundador da indústria saladeril no Rio Grande do SuI. José Pinto Martins era do Aracati e em 1780 assentou pequena fábrica de carnes, em terras pertencentes a Manuel Carvalho de Sousa, a margem direita do Pelotas’.

Debret[7] (1768-1848), em 1800, descreveu um “engenho de carne seca” do Nordeste: ‘(...) as reses eram abatidas num cubículo e depois de esquartejadas e de terem os couros e as partes internas removidas, tinham as carnes salgadas e colocadas em varais’.

Robert Southey (1774-1843)[8] escreveu: ‘(...) O comércio de carnes secas cessara, e o gado, que do consumo interno sobrava, levava-se para Pernambuco, mas o morcego vampiro matava milhares de reses, reduzindo a pobreza opulentos criadores. Passam estes hediondos animais por mais destruidores do que todas as bestas feras (...)’.

O Ceará só tornou-se administrativamente independente de Pernambuco em 1799.

Transformou-se um exportador também de couros salgados e de sola. No período de 1867/1868 exportou 1.268 toneladas de couro salgado. Uma arroba de couro salgado colocada no porto de Fortaleza valia 8$500. Uma dos melhores anos para a exportação de sola foi em 1846/1847, quando saíram de Fortaleza 16.797 meios de sola ao preço unitário de 1$249.
A seca continuava a impactar a economia do Ceará. No final do século XVIII, quando a produção de carne seca e couro mais prosperavam, uma grande seca[9] dizimou a maior parte do rebanho bovino. Buscando uma saída, cearenses ainda com algum capital, e conhecedores da abundância de gado na região, emigraram e foram instalar charqueadas no Rio Grande do Sul.

Escreveu Henry Koster (1793-1820) em ‘Viagens ao Nordeste do Brasil’: ‘(...) antigamente eram exportadas (do Ceará), para outras capitanias, grandes quantidades de carne de boi, seca e salgada, mas a mortandade no gado, devido ás secas freqüentes, tornou inevitável a cessação deste comércio. Agora a região se supre no Rio Grande do Sul, a fronteira meridional dos domínios portugueses. Vinda do Rio Grande do Sul para Pernambuco a carne seca ainda conserva o nome de carne-do-ceará (...).’

Por mais duas vezes outras secas provocaram destruição nos rebanhos remanescentes. Uma em 1845 e outra em 1877. Esta última fez com que uma grande leva de cearenses emigrasse para a Amazônia, buscando a sobrevivência explorando os seringais, ajudando assim a colonizar o território amazonense, principalmente o atual estado do Acre.[10]

Em 1878, após a grande seca do ano anterior, quando pela medição pluviométrica feita em Fortaleza, choveu durante o ano apenas 467 mm, provocou uma redução drástica do rebanho. Milhares de animais morreram por falta de água e de alimentação. O presidente da província, no seu Relatório Anual, estimava que a redução do rebanho tivesse sido de 99% sobre o total de gado existente em 1876. E estava certo. O valor fiscal de todo o gado na província que era de 22.388 contos de reis em 1876, caiu para apenas 31 contos de reis em 1878[11]. Foi uma das piores calamidades que já ocorreram no Ceará. Para termos uma ideia, as exportações de couros que tinha sido de 1.103 toneladas em 1875/1876, caiu para apenas 2 toneladas em 1876/1877.

Tentando uma solução para os problemas da seca, chegou-se a importar até camelos da África para substituir os burros de cargas e os bois que puxavam os carros, que eram as únicas alternativas de transporte.
No relatório do ministro da Agricultura do Império para o ano de 1860, está registrado que 14 camelos foram importados e enviados para a província do Ceará, que foi escolhida ‘Como a mais própria para este fim pela semelhança do seu sol, e do seu clima com os dos lugares, de onde são oriundos aqueles úteis animais.’
No dia 24 de julho de 1859, um navio francês aportou em Fortaleza, desembarcando 14 camelos e 4 tratadores, provenientes da Argélia. Os responsáveis pela ideia foram o barão de Capanema (1824-1908) e o poeta Gonçalves Dias (1823-1864). Os animais não se adaptaram e foram morrendo e depois de certo tempo restou apenas 10 cabeças. O ministro mandou apurar as responsabilidades pela morte dos 4 animais e exigiu que o Erário Público fosse ressarcido. Em 1866, foram leiloados os camelos que sobraram: apenas 3 machos e uma fêmea.

Entre 1870 e 1874, calculado pelo valor arrecadado de dízimo sobre as crias nascidas de gado grosso (bovinos, equinos e muares), a média de nascimentos foi de 14.930 animais[12].


A lavoura de algodão veio a substituir a criação de gado na economia do Ceará, por ser mais tolerante à escassez de água. Com a recuperação da cotonicultura dos Estados Unidos da América, o algodão e o próprio Ceará entrou em outra crise.

A população do Ceará no final de cada década era a seguinte:
Ano

População
1900 -    805.000
1910 - 1.062.000
1920 - 1.319.000
1930 - 1.536.000
1940 - 2.205.000
1950 - 2.695.000
1960 - 3.337.000

O rebanho teve a seguinte evolução:
                       Bovinos           Equinos        Suinos         Ovinos         Caprinos
1938             1.081.000        246.000      523.000       614.000          731.000
1950             1.400.000             ?                 ?               900.000       1.000.000
1957             1.690.000       334.000       976.000    1.382.000      1.193.000
1964             1.969.000       364.000    1.329.000    1.465.000      1.629.000
1964/1938    =  82%             48%            154%           138%               123%

Em 1964 foram abatidos em estabelecimentos controlados pelo governo:

Bovinos    -  184.000 cabeças
Suinos      -   206.000 cabeças
Ovinos     -  154.000 cabeças
Caprinos  -  193.000 cabeças

O IBGE no Censo Agropecuário constatou que no dia 31/12/2008 havia nos 184 municípios do estado do Ceará 2.460.000 cabeças de bovinos. Os cinco maiores rebanhos, que representavam 12% do total estavam nos seguintes municípios:
Quixeramobim 84.000 cabeças
Quixadá 54.000 cabeças
Morada Nova 54.000 cabeças
Tauá 54.000 cabeças
Icó 53.000 cabeças



[1] Antiga Soure.
[2] In ‘História do Brasil’ 6 vol. (trad. de Luis Joaquim de Oliveira e Castro) Belo Horizonte- Ed. Itatiaia, 1981.
[3] Robert Southey, escreveu: “ Na estação seca somem-se a maior parte dos rios do Ceara. De junho a dezembro não cai uma só gota de chuva, mas são frescas as noites e pesado o orvalho, soprando a brisa rija e regular das nove da noite as cinco da manha(...). O comercio de carnes secas cessara, e o gado, que do consumo interno sobrava, levava-se para Pernambuco, mas o morcego vampiro matava milhares de reses, reduzindo a pobreza opulentos criadores. Passam estes hediondos animais por mais destruidores do que todas as bestas feras.(...) Não há no sertão criador de gado, que não tenha seu rebanho de ovelhas e cabras, servindo estas últimas muitas vezes para amamentar crianças. A cabra, que exercia estas importantes funções, conservava sempre na família o nome de comadre.”
[4] In ‘História do Brasil’ 6 vol. (trad. de Luis Joaquim de Oliveira e Castro) Belo Horizonte- Ed. Itatiaia, 1981.
[5] In ‘As Oficinas de Carnes do Ceará’. Fortaleza, Gráfica Editorial Cearense, 1977
[6] Em ‘Um Capítulo da Economia Pastoril do Nordeste, publicado na revista Cultura Política, ano IV, n° 38, março de 1944, Rio de Janeiro.
[7] In ‘Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1834-1839)
[8] In ‘História do Brasil’ 6 vol. (trad. de Luis Joaquim de Oliveira e Castro) Belo Horizonte- Ed. Itatiaia, 1981.
[9] Conhecida como "Grande Seca" durou de 1791 a 1793 e destruiu quase todo o Nordeste. Nunca mais houve a recuperação completa.
[10] Haddock Lobo (1817-1869) na já citada “História Econômica e Administrativa do Brasil” relata: “há indícios para se supor que, ate a segunda metade do século XVIII, o fenômeno das secas não se vinha manifestando no Nordeste de maneira tão grave e cruel como em tempos mais recentes. Seu agravamento talvez haja influído na decadência da criação nordestina.”
[11] Relatório anual da Presidência da Província 1879
[12] Cálculo do autor, baseado no Relatorio Anual da Presidencia da Provincia 1874

HISTÓRIA DA CRIAÇÃO DE GADO NA PARAÍBA

Por Leopoldo Costa

A Paraíba de hoje compreende o antigo território da Capitania de Itamaracá. A Capitania de Itamaracá foi uma das quinze divisões originais do território brasileiro entregues a donatários em regime de hereditariedade. A Capitania foi doada a Pero Lopes de Sousa (1497-1539), em 1534. O território da estendia-se desde a linha imaginária de Tordesilhas até a costa, tendo como limite norte a baía da Traição (Paraíba) a feitoria de Igarassu (Pernambuco). Foram capitais da Capitania as cidades de Itamaracá e Goiana. Pero Lopes de Souza, que não pode assumir vindo em seu lugar o administrador Francisco Braga, que deixou a capitania em má situação financeira. Pero Lopes de Souza nomeou então o tenente João Gonçalves para dirigir a capitania. Era um bom administrador procurou o equilíbrio financeiro, fundou Vila Conceição (hoje Conceição) e construiu alguns engenhos, porém faleceu durante o exercício do cargo.
O donatário da capitania também veio a falecer em 1539 e as terras voltaram ao patrimônio da Coroa. O domínio do território pelos Potiguares era uma ameaça à segurança dos colonizadores

Em 1574 um incidente conhecido como ‘Tragédia de Tracunhaém’, ocorreu no engenho Tracunhaém em Pernambuco, próximo a atual cidade de Goiana. Esse episódio foi causado pelo rapto da filha do cacique potiguar por Diogo Dias proprietário do engenho Tracunhaém. O cacique tentou várias maneiras para libertar a moça, enviando inclusive emissários a Olinda, sem o menor sucesso. Em represália o cacique reuniu vários chefes potiguares e com quase mil homens atacou o engenho de Diogo Dias. Houve uma verdadeira chacina no local, seguindo-se o incêndio do engenho. Após esta tragédia, Dom Sebastião (1554-1578), rei de Portugal, pelo decreto real de janeiro de 1574, decidiu criar a capitania real do Rio Paraíba desmembrando-a da capitania de Itamaracá. As terras da nova capitania tinha como limites um paralelo que passava pela foz do rio Popoca e por outro que passava na baía da Traição.

Em 1575 foi enviada por ordem do governador geral Luís de Brito e Almeida (m.1577) uma expedição de guerra comandada pelo ouvidor geral Fernão da Silva para combater os índios Potiguares. Fernão tomou posse das terras em nome do rei sem que houvesse nenhuma resistência, mas isso foi apenas uma armadilha. Sua tropa foi surpreendida pelos Potiguares e teve que voltar para Pernambuco.
Em 1575 foi preparada uma segunda expedição comandada pelo próprio governador geral Luís de Brito e Almeida. Esta expedição nem sequer desembarcou nas terras paraibanas. Três anos depois o seu sucessor Lourenço da Veiga tentou conquistar o Rio Paraíba e também não obteve êxito

Depois de expulsos do Rio de Janeiro, os franceses tentaram se estabelecer na Paraíba, onde aproveitando a rivalidade com os portugueses aliaram-se aos Potiguares, que dominavam a região e fixaram-se na Baía da Traição, próxima a Mamanguape. Os franceses comerciavam pau-brasil, algodão, óleos vegetais e peles de animais nativos, que mandavam para a Europa.
Frutuoso Barbosa em 1579 organizou em Portugal uma nova expedição e impôs a condição de que se ele conquistasse a Paraíba, seria o governador por dez anos. Nem chegou ao Brasil, sua frota enfrentou uma forte tormenta e teve que retornar a Portugal.
Em 1582, repetindo a proposta anterior, Frutuoso Barbosa voltou para tentar conquistar a Paraíba, mas caiu numa emboscada dos Potiguares e dos franceses onde perdeu um filho em combate.
Nova expedição foi organizada em 1584, desta feita com a presença de Flores Valdez, Felipe de Moura e o insistente Frutuoso Barbosa, que conseguiram finalmente expulsar os franceses e conquistar a Paraíba. Após a conquista, foram construídos os fortes de São Tiago e São Felipe.

A conquista só foi definitiva em 1599 aproveitando da situação, pois os índios Potiguares se desentenderam com os Tabajaras e os últimos liderados pelo cacique Piragibe se aliaram aos portugueses para combatê-los firmando em 1585 um acordo de aliança. Com o acordo, João Tavares estabeleceu às margens do rio Sanhavá o povoado de Filipéia de Nossa Senhora das Neves.

Em maio de 1625, os holandeses que tinham sido rechaçados de Salvador decidiram invadir a Paraíba e comandados por Hendrikordoon desembarcaram e construiram um forte na baía da Traição. Foram expulsos em agosto de 1625. Os Potiguares por terem ajudado os holandeses também foram expulsos da região por Francisco Coelho. Temendo novos ataques de índios e holandeses, Francisco Coelho reconstruiu a fortaleza de Santa Catarina e o construiu o novo forte de Santo Antonio, situando cada um numa margem do rio Paraíba.

Em 5 de dezembro de 1632 uma nova expedição formada por 1.600 holandeses tentou conquistar a Paraíba, sendo derrotada pelos portugueses.
Em 26 de dezembro de 1634 revidando a derrota anterior, a ‘Companhia Holandesa das Índias Ocidentais’[1] com uma frota de 29 navios conquistou a capitania da Paraíba, incorporando-a à colônia da Nova Holanda. Em 1635, a cidade Filipéia de Nossa Senhora das Neves foi renomeada Frederikstad pelos holandeses em homenagem ao príncipe de Orange, Frederico Henrique. Frederikstad possuía aproximadamente mil e quinhentos habitantes e dezoito engenhos de açúcar na época da ocupação holandesa, que durou vinte anos. Queriam a Paraíba como um ponto de apoio para a invasão do Pernambuco. Em 1654, com a expulsão dos holandeses a cidade mudou o nome para Paraíba. (hoje João Pessoa). A pouca distancia de Filipéia, foi criado um aldeamento indígena que veio a transformar-se na vila de Santa Rita, hoje a cidade do mesmo nome.

Os canaviais eram cultivados às margens do rio Paraíba e na faixa litorânea. O açúcar durante muito tempo foi a força maior da economia paraibana. Por volta de 1630, existiam 21 engenhos de açúcar. O declínio começou em 1639, quando apenas seis engenhos paraibanos funcionavam e sobreveio em 1654, quando apenas dois engenhos faziam isto.

Na zona do Pilar, a menos de 100 quilômetros do litoral, já existiam em fins do século XVI e princípios do século XVII, muitos currais de criação de gado. Destas fazendas partiram os pioneiros que ocuparam a parte ocidental da capitania, aonde mais tarde vieram a surgir, as povoações de Pombal[2] e Piancó[3]. O início do povoamento de Pilar originou-se a da missão do padre Martim de Nantes naquela região. A colonização de Campina Grande teve início em 1697, quando o capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo (1731/1732) fundou na região um povoado que prosperou e foi promovida a cidade.

Em 1698, os jesuítas criaram um aldeamento dos índios Ariús. O aldeamento progrediu e em 1790 foi transformado em vila com o nome de Vila Nova da Rainha sendo um ponto de ligação entre o litoral e as regiões mais remotas, funcionando como um entreposto de gado e de farinha de mandioca.
Garcia D’Ávila empenhou, no interior paraibano, para que a Casa da Torre ficasse mais poderosa, na sua tentativa de monopolizar a criação de gado no Brasil. Estabeleceu diversos currais nas sesmarias que obtinha. Trouxe gado de suas fazendas da Bahia para iniciar a atividade nas regiões recém-conquistadas. Aliou-se com o capitão Manoel de Araújo, procedente de Pernambuco para comandar as operações. Mais tarde na região de Piancó houve uma desavença entre eles.

O bandeirante Domingos Jorge Velho (1641-1705), entre 1680 e 1684, fixou-se na região do rio Piranhas, organizando ali uma grande expedição destinada a destruição do Quilombo dos Palmares. Queria também explorar ouro e não vacilou, além de aniquilar índios, atacou o Quilombo de Palmares e atingiu as terras da poderosa Casa da Torre de Garcia d’Ávila.

Para incentivar a economia foi criado pelo marquês de Pombal (1699-1782) a ‘Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba’[4]. Isto aconteceu depois, que uma violenta epidemia de varíola dizimou 1.100 escravos e da revolta dos indígenas que lutavam contra a sua preação. A Companhia fracassou nos seus objetivos, devido à forte pressão, falta de apoio e a revolta dos comerciantes autônomos, que na época tinham prestígio e influência. O resultado foi a sua extinção em 1780.

Na Paraíba existiu a chamada ‘Estrada das Boiadas’, que partia de ‘(...) També, na divisa com Pernambuco pegava Mamanguape e trazia gadaria para os brejos, na divisão das vendas. A mais antiga das estradas partia a oeste do Espinharas, ribeira de Santa Rosa, Milagres, tocando depois na lagoa do Batalhão (Taperoá), seguia-se o rio, descendo a Borborema até Espinharas e daí a Patos, Piranhas (Pombal), Souza, São João do Rio do Peixe (um ramal recebia a contribuição de Cajazeiras) ia-se ao Ceará pelos Cariris Novos, Icó, Tauá, atingindo-se Crateús, inesquecível pelo encontro de centenas de vaqueiros que demandavam o Piauí’[5].

Durante a revolta indígena conhecida como ‘Confederação dos Cariris’, muitas batalhas sangrentas foram travadas em território paraibano, principalmente no vale do Curimataú, que dizimou muitas cabeças de gado e espantavam os fazendeiros que ocupavam a região. Alguns índios aliaram-se com os negros fugitivos e fundaram o quilombo de Cumbé, na região de Campina Grande. Os quilombolas destroçavam as plantações e roubavam o gado dos fazendeiros. O quilombo foi destruído em 1731.

Em 1831, em alguns municípios do interior e principalmente naqueles localizados a ocidente da serra do Borborema, desenvolvia-se uma importante criação de equinos. O preço alto que era cobrado por estes animais, demonstrava que a produção era insuficiente para atender a demanda.
O gado caprino, ovino e suíno era de pouca importância.
Neste ano de 1831, foi iniciada a criação de muares na província. Os muares, mais resistentes do que os equinos, podiam suportar melhor as estradas ruins e a sua criação tinha esse objetivo.

Entre os anos de 1857 e 1860 foram exportados pela província a media anual de 292 toneladas de couros.[6]
No ‘Relatório da Presidência da Província’ para o ano de 1858, foi escrito: ‘Em alguns dos municípios do interior, e notavelmente nos que demorão ao occidente da serra do Borborema, consiste a riqueza na criação do gado vaccum e o cavallar. O alto preço porém, a que tem chegado essas espécies, prova que a produção não está em proporção com o consunmo. O gado cabrum, ovelhum e suinoso, e as aves domesticas são criados em menor escala.’

No ano de 1861, a província da Paraíba arrecadou 26.289 contos de réis de imposto sobre o gado bovino abatido para consumo interno. Como a tarifa era de 2$000 por cabeça, conclui-se que foram abatidas oficialmente 13.144 cabeças para consumo.

No ano de 1860, o imposto recolhido foi de 24.671 contos de réis, representando 12.335 cabeças de gado[7].
Com estes dados, que sabemos incompletos, pois a sonegação de impostos era um costume bastante arraigado, podemos concluir que o rebanho da província era de cerca de 145.000 cabeças de gado. Calculando pelo volume de couros exportados, os abates seriam de cerca de 20.000 cabeças, elevando a estimativa de rebanho para cerca de 220.000 cabeças. Apenas cotejando os dados da exportação de couros com a do pagamento de impostos podemos concluir que a sonegação era em torno de 35%.

A cidade de João Pessoa em meados do século XIX era abastecida por gado fornecido pelos ‘marchantes’ que os adquiria nas feiras de gado da província, principalmente Itabaiana, Campina Grande, Patos e Itambé para serem abatidos nos matadouros da cidade. José Américo de Almeida[8] informa que as feiras de Itabaiana e Campina Grande abasteciam toda a Paraíba e também Recife. Na própria cidade de João Pessoa existia a feira de gado de Oitizeiro, que localizava no antigo caminho para Recife.

Irenêo Joffily[9] informou que os preços de carne bovina em João Pessoa no final do século XIX eram entre 800 a 1$000 o quilo, enquanto nas feiras de Campina Grande e Itabaiana os preços eram 200 réis por quilo mais barato.
A população do Paraíba no final de cada década era a seguinte:
Ano

População
1900

490.000
1910

691.000
1920

961.000
1930

1.219.000
1940

1.476.000
1950

1.713.000
1960

2.018.000

Pelo menos quatro cidades paraibanas têm seus nomes derivados de atividades pecuárias: Curral de Cima, Curral Velho, Gado Bravo e Santana dos Garrotes.
O rebanho paraibano teve a seguinte evolução:


1938

1950

1957

1964

1964/1938
Bovinos

537.000

500.000

740.000

1.345.000

150%
Equinos

171.000

-

125.000

188.000

10%
Suinos

184.000

-

555.000

1.105.000

501%
Ovinos

273.000

300.000

559.000

951.000

248%
Caprinos

300.000

400.000

602.000

1.106.000

269%

Em 1964 foram abatidos em estabelecimentos controlados pelo governo:
Bovinos

110.000 cabeças
Suinos

130.000 cabeças
Ovinos

141.000 cabeças
Caprinos

168.000 cabeças

O IBGE no Censo Agropecuário constatou que no dia 31/12/2008 havia nos 223 municípios do estado da Paraíba 1.202.000 cabeças de bovinos. Os cinco maiores rebanhos, que representavam 8% do total estavam nos seguintes municípios:
Souza 23.000 cabeças
Pombal 21.000 cabeças
Paulista 20.000 cabeças
Monteiro 20.000 cabeças
Queimadas 17.000 cabeças
Hoje a Paraíba não tem expressão na criação de gado bovino. Dois municípios em outros estados do Brasil (Corumbá (MS) e São Felix do Xingu (PA) tem cada um mais bovinos pastando do que todo o estado.

[1] A Companhia Holandesa das Índias Ocidentais foi fundada em 3 de Junho de 1621 por um grupo de refugiados calvinistas de Flandres e Brabant que fugiram para a Holanda para escapar à perseguição religiosa. A ela foi concedido um alvará para o monopólio do comércio com as colônias ocidentais pertencentes à República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos. Sob o domínio da Espanha as possessões portuguesas, segundo se calculava, seriam o calcanhar-de-aquiles, e se pensava que a Espanha sacrificaria sua defesa à dos próprios domínios americanos. Por isso, em 1624-1625, a Companhia dedicava ao Brasil o melhor de suas atenções, tentando ocupar Salvador, mas, por esta cidade ser capital da colônia lusitana na América, os holandees não obtiveram êxito.
A Companhia desempenhou, em geral, importante papel na colonização holandesa das Américas e foi responsável pela ocupação de áreas no nordeste brasileiro.
A opção pela por Pernambuco era óbvia ele fazia parte das chamadas ‘capitanias de cima’ e monopolizavam a produção do açúcar, principal gênero de exportação do Brasil e a ocupação do território era meramente litorânea, não excedendo uma faixa de 70 quilômetros a partir da costa.
A Companhia possuia cinco escritórios, chamados de câmaras (kamers), em Amsterdam, Midelburgo, Roterdam, Hoorn e Groningen, sendo as câmaras de Amsterdam e de Midelburgo aquelas que mais contribuíram para a companhia. O conselho de administração consistia de 19 membros e era conhecido como o "Heeren XIX".
[2] No final do século XVII, Teodósio de Oliveira Ledo realizou uma entrada através do rio Piranhas. Nesta venceu o confronto com os índios Pegas e fundou uma aldeia que recebeu o nome Piranhas. Devido ao sucesso não demorou muito até que passaram a chamar o local de Nossa Senhora do Bom Sucesso. Em 1721 foi construída no local a igreja do Rosário, em homenagem à padroeira da cidade considerada uma relíquia história nos dias atuais. Sob força de uma Carta Régia datada de 22 de junho de 1766,o município passou a se chamar Pombal. Pombal desenvolveu pouco. Só foi criado o município em 30 de abril de 1959, sendo instalado em 3 de junho de 1959.
[3] Piancó foi declarado município em 11 de dezembro de 1831, sendo instalado em 2 de maio de 1832.
[4] A segunda companhia pombalina monopolista a ser criada no Brasil foi a ‘Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba’, fundada em 1759, quatro anos depois da criação da ‘Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão’. Esta companhia veio a ser ainda mais lucrativa do que a primeira. O seu capital era superior ao da anterior, pois contava com mais de dois milhões de cruzados; os seus privilégios eram em tudo idênticos, embora se aplicassem às regiões de Paraíba e Pernambuco. Tal como a sua congênere do Grão-Pará e Maranhão, esta companhia fomentou igualmente a agricultura, em especial a cultura de cacau. Tinha trinta navios ao seu dispor que iam buscar escravos e outros produtos, e exportavam para a Europa diversos gêneros coloniais.
Entre 1778 e 1779, esta companhia, juntamente com a anterior, foi despojada dos seus privilégios reais, durante o governo de D. Maria I, que se assumiu como muito crítico relativamente a algumas políticas do Marquês de Pombal. De qualquer modo, estas organizações continuaram a desempenhar a sua atividade, embora agora como duas companhias ou sociedades particulares, com um menor peso no incremento do desenvolvimento econômico da colônia brasileira.
[5] Luís da Câmara Cascudo. ‘Tradições Populares da Pecuária Nordestina. (Documentário da Vida Rural n. 9). Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura/ Secretaria de Informação Agrícola, 1956.
[6] Relatorio anual da Presidencia da Provincia 1861
[7] Relatório anual da Presidência da Província 1861.
[8] No livro ‘A Paraíba e Seus Problemas’, João Pessoa, a União, 1980.
[9] No livro ‘Notas sobre a Parahyba’, Brasilia, Thesaurus, 1977.