segunda-feira, 29 de julho de 2013

A Guerra dos Bárbaros no Rio Grande do Norte

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A resistência dos nativos e a interiorização da colonização
 Francisco Galvão
Devido ao avanço das frentes pastoris, com o objetivo de expandir a pecuária, a ocupação do Sertão se intensificou. Entretanto, chegou o momento que a presença indígena se tornou um empecilho e essa a essa expansão. As autoridades coloniais utilizaram, então, a estratégia de desocupação das terras pela eliminação dos nativos que resistissem aos interesses colonizadores.



Os portugueses cobiçavam as grandes extensões de terras dos silvícolas e tentavam se apossar delas através do extermínio dos nativos, que se obrigavam a irem cada vez mais para o interior do território. Por outro lado, é bem possível que, enquanto ainda se arrastavam as negociações[1] com os portugueses, os holandeses tivessem animado o povo tarairiu a se rebelar no interior da colônia. Provavelmente havia um clima de revanchismo, pois os nativos teriam defendido os holandeses e deveriam se sentir ameaçados com o avanço dos portugueses, que sempre foram seus inimigos.

As tribos não possuíam um comando único que todos obedecessem; poderiam se aliar ou lutar sozinhas, de acordo com as circunstâncias. Na maioria das vezes, tratou-se mais de uma reação contra as perseguições dos brancos do que uma guerra com objetivos próprios. Os colonos provocavam os nativos para que atacassem e, assim, justificariam a guerra justa, que levaria à escravização dos nativos derrotados.

Era uma forma de expansão sem respeito às posses ancestrais dos indígenas. O Rio Grande que havia saído de um período de violência, vilipêndio e rapinagem, mergulhou em um conflito contra os indígenas, que, no espaço de cinquenta anos, exterminou as tribos do território.

Esse conflito ficou supostamente conhecido como a “Guerra dos Bárbaros” ou “Confederação dos Cariris” e envolveu várias etnias indígenas, no interior das capitanias do Nordeste.  As disputas se desenvolveram em três fases: a primeira foi iniciada na região do Assú, na capitania do Rio Grande; a segunda se concentrou na Paraíba; e a terceira teve como cenário central o Ceará. Os combates se generalizaram por todo o território, entre 1683 e 1713.

Durante a década de 1670, com a distribuição de sesmarias nas ribeiras dos rios Acauã, Seridó, Açu, Apodi e Mossoró, já começavam os primeiros conflitos, que eram resolvidos através de "acordos" entre os índios e os vaqueiros. A situação não mudou e os vaqueiros continuaram avançando sobre as terras indígenas. Em 1685, o povo de Janduí se revoltou e avançou contra os criadores. O Rio Grande pediu ajuda a Pernambuco e Paraíba, mas a situação não mudava.

Os índios avançaram rumo à Natal e, para se defenderem, os colonos construíram casas fortes e paliçadas. Em face dos pedidos de socorro, o governo-geral do Brasil, decidiu requisitar bandeirantes de São Paulo e de São Vicente. Os indígenas, além das armas europeias, adotaram o uso de cavalos e incendiavam fazendas, matavam o gado e os vaqueiros.

A resistência desses nativos foi um elemento surpresa e a presença dos bandeirantes[2], que foram eficientes no quilombo de Palmares, não conseguiu debelar a revolta. Ao contrário, o conflito dilatou-a para outras regiões, provocando a adesão das tribos dos anacés, jaguaribaras, acriús, canindés, jenipapos, tremembés e dos baiacus, que se mostraram muito violentos na defesa de seus direitos. Enquanto isso a guerra era alimentada pela ambição de uma parte dos colonos, que desejavam as terras que pertenciam aos nativos.

Quando Antônio de Albuquerque reassumiu o comando da guerra, seu objetivo era exterminar os guerreiros indígenas e escravizar mulheres e crianças.  Por outro lado, Bernardo Vieira, governando a capitania na época, habilidosamente atraiu os nativos para um acordo de paz. Essa pacificação terminou servindo muito bem para os colonos, pois o genocídio já havia sido iniciado e os colonos poderiam tomar posse das terras.

Os grupos nativos que se submeteram a essa pacificação tiveram o direito a uma légua quadrada de terra, devidamente demarcada para viver. As mulheres trabalhariam na agricultura, enquanto as crianças seriam educadas nos moldes cristãos e de acordo com os interesses dos dominadores.

O Senado da Câmara de Natal pediu a prorrogação do mandato de Bernardo Vieira de Melo, mas a solicitação não foi aceita. Em Pernambuco, ele se tornou líder de uma corrente emancipacionista que propunha a instituição de uma república à moda de Veneza, livre da tutela portuguesa. Por causa dessas ideias, foi levado à prisão, onde faleceu.

A guerra ainda não havia terminado, em 1715, quando o governador de Pernambuco determinou que se extinguissem ou se afugentassem completamente os bárbaros que ainda habitavam os sertões nordestinos, entregando o uso da terra para os sesmeiros. O que se diz é que, depois de 1720, não houve mais registro de sublevação. Entretanto, em Julho de 1725, oficiais da Câmara de Natal enviaram carta ao rei Dom João V informando que vários grupos indígenas das Ribeiras do Apodi, Piranhas, Piancó e Açu e alguns índios aldeados estavam inquietos. Os oficiais pediram que não se desfizessem as duas companhias do Terço dos Paulistas estacionadas no Rio Grande do Norte, mas, ao contrário, que aumentassem os seus contingentes.

O convívio com os indígenas continua até hoje complicado, pois representam formas muito distintas de sobreviver e utilizar o meio ambiente. Para as frentes pastoris a melhor opção era a eliminação, independente do método utilizado. A Guerra dos Bárbaros significou a derrota definitiva do nativo do Nordeste, sua subjugação, abrindo espaço para a dominação territorial completa.

A retirada dos nativos abriu o espaço para se ampliar as a posse de terras dos sesmeiros. No Rio Grande do Norte a ocupação dessas terras foi entregue, em grande parte, aos pequenos investidores que foram excluídos do grande negócio que representou o açúcar no litoral. O isolamento desses núcleos produtores fez com que se desenvolvesse uma civilização que tentava retirar do próprio meio o máximo para atender as necessidades de sobrevivência.

A pecuária foi a atividade básica no interior do território. A ela se anexava a confecção de artefato de couro e as oficinas para a fabricação do charque[3]. Surgidas inicialmente na frente pastoril cearense, a atividade se beneficiou da produção das salinas do Rio Grande do Norte. Os trabalhadores da pecuária eram poucos e livres, pagos em animais, numa sociedade bem menos hierarquizada do que a açucareira do litoral. Com a desvalorização do rebanho durante o transporte para abate nos mercados consumidores, os produtores começaram a abater os animais e conservar a carne em sal, nos locais mais próximos aos portos.

Os rebanhos do interior potiguar se formaram no encontro de três frentes pastoris: uma que saiu do Cunhaú, outra que veio da Paraíba e a última que se formou a partir do Ceará. Esse gado se multiplicou com facilidade e durante o século XVII e XVIII. É fácil encontrar referências ao “gado do vento”, que eram rebanhos abandonados que vagavam sem donos pela capitania.

Nunca existiu uma política econômica que gerasse incentivos ao industrialismo e esse tipo de empreendimento ganhou relevo pelas necessidades geradas a partir do próprio modelo agroexportador. A partir da atividade criatória foram desenvolvidas as primeiras unidades industriais na área interiorana do Rio Grande do Norte.

As oficinas do charque potiguar surgiram durante a primeira metade do século XVIII e se concentraram na região de Açu e Mossoró. A produção era quase toda destinada para as regiões mineradoras e o transporte era feito por via marítima, passando por Recife e Salvador. Nas décadas de 1750 e 1760 parte da produção chegou a ser enviada para a Europa.

A expansão da manufatura da carne bovina potiguar era tão bem sucedida que provocou reações por parte do governo de Pernambuco[4] que pretendia manter o monopólio da carne na região. Essa concorrência, somado a outros motivos, provocou o fechamento das oficinas de processamento de carne de Açu e Mossoró, medida radical deliberada pelos pernambucanos, em 1788.

Gado e sal foram os negócios que renderam lucros para as capitanias produtoras, porém a seca iniciada em 1777 já havia tornado a produção de charque no nordeste inviável devido a morte dos rebanhos. Refugiando-se dessa seca, em 1780, José Pinto Martins construiu a primeira charqueada que se tem registro na cidade de Pelotas. Numerosos outros estabelecimentos foram construídos logo depois, dando inicio ao ciclo do charque na região sul.

Enquanto a produção do charque era extinta, aos poucos, a cotonicultura ganhava relevância em função de sua importância como produto incluído na economia de exportação. O primeiro período de expansão ocorreu na segunda metade do século XVIII, quando se tornou a principal matéria-prima abastecedora da indústria têxtil europeia. Esse surto exportador foi influenciado pela guerra de Independência dos Estados Unidos (1776-1783) que eram, na época, os principais fornecedores de algodão para os mercados industriais europeus.

A cotonicultura já fazia parte das atividades produtivas de subsistência na capitania e essa expansão produtiva momentânea significou uma diversificação da economia na economia potiguar, surgindo na possibilidade de exportação de um produto que não fosse o açúcar.


[1] Pelo Tratado de Haia a República Holandesa reconheceu a soberania portuguesa sobre o Nordeste brasileiro. Mesmo derrotando os holandeses, Portugal se subemeteu ao pagamento de oito milhões de florins (equivalente a 63 toneladas de ouro) para manter o Nordeste. Sob a ameaça de invasão de Lisboa e da perda dos territórios conquistados, esta quantia deveria ser quitada em parcelas anuais ao longo de quatro décadas. Há quem diga que o valor inicial nunca foi pago.
[2] O terço dos paulistas e Domingos Jorge Velho.
[3] Carne seca.
[4] A capitania do Rio Grande funcionava como uma subcolônia de Pernambuco, que mantinha o controle administrativo.

domingo, 28 de julho de 2013

A INQUISIÇÃO NO BRASIL PRENDE MAIS DE 1000 PESSOAS E MANDA 29 PARA A FOGUEIRA NOS SÉCULOS XVI E XVIII

"Arrependo-me e peço perdão porque pequei. "Pela primeira vez em dois anos de martírio, Guiomar Nunes disse o que os inquisidores queriam ouvir. A multidão reunida na praça do Comércio, em Lisboa, na tarde de 17 de junho de 1731, gritava contra os hereges, enfileirados diante de um palanque, onde se encontravam autoridades políticas e religiosas. Diante de 3 mil pessoas eufóricas, um a um, os sete réus foram chamados à contrição uma última vez.

Acusada de judaísmo, a pernambucana entre eles resistiu muito antes de confessar. Enfrentara interrogatórios duríssimos na prisão. Suas palavras derradeiras, porém, não bastaram para o Tribunal do Santo Ofício. O inquisidor se ajoelhou no tablado montado para a ocasião e, enquanto os auxiliares retiravam-lhe a capa e o barrete, os condenados eram aspergidos com água benta.

Em seguida, receberam suas sentenças. Aos 47 anos, Guiomar foi garroteada - estrangulada com uma espécie de torniquete -, e seu corpo, consumido no meio da praça por chamas de até 6 m de altura. Ao pedir perdão, conseguiu evitar que fosse queimada viva. Do outro lado do Atlântico, no Engenho de Santo André (na atual Paraíba), o vendedor de latas Luís Nunes de Fonseca acabara de se tornar viúvo, com oito filhos do casal para criar.
Guiomar morreu em Portugal porque o Brasil não torturou ou fez arder seus hereges em fogueiras. Mas ela foi delatada e presa em um processo iniciado por aqui. E não foi a única. Por mais de 200 anos, a Inquisição católica atuou nas terras da América portuguesa. Estimulou delações e criou um clima de terror nas principais cidades por meio dos temidos visitadores e de auxiliares locais, integrantes do clero.

Prendeu e enviou para a Europa pessoas que dificilmente voltavam à terra natal.
Quem não foi condenado ao degredo e perdeu todos os bens acabou, como se dizia na época, purificado pelo fogo. A exemplo de Guiomar e dos outros condenados queimados com ela, que nem sequer puderam ser enterrados, suas cinzas foram espalhadas ao vento.

À frente da União Ibérica, o rei Filipe IV bem que tentou instalar um tribunal do Santo Ofício no Brasil, em 1623, mas não teve autorização da Igreja e desistiu diante das invasões holandesas no Nordeste. Entre os séculos 15 e 16, com a ocupação de colônias na Ásia e nas Américas, Portugal e Espanha empenharam-se em retomar as perseguições que marcaram a Idade Média. O objetivo era garantir que as novas terras se tornassem obedientes à fé europeia e controlar com rédea curta a crescente população de cristãos-novos (descendentes de judeus convertidos).

A chamada Inquisição medieval teve características distintas. Começou no século 13 (com precedentes no século anterior), agiu principalmente na França e na Itália e perseguiu quem discordava dos dogmas do catolicismo ou desrespeitava suas estritas normas de conduta. No século 15, porém, no auge do Renascimento, a atuação dos inquisidores era decadente. Após pressionar muito o papa, a Espanha conseguiu recriar o tribunal, em 1478, e Portugal, em 1536. Estava inaugurada a Inquisição moderna.

"Os judeus, em princípio, não podiam ser perseguidos pela Inquisição, que investigava apenas as pessoas batizadas. Mas, depois de forçados à conversão, seus descendentes eram investigados até mesmo dez gerações depois. Era racismo mesmo", diz o historiador Bruno Feitler, autor de Nas Malhas da Consciência - Igreja e Inquisição no Brasil.

Os cristão-novos eram estigmatizados e perseguidos havia pelo menos três séculos. Com o surgimento de colônias afastadas dos centros de poder, muitos deles preferiram se mudar (ou foram expulsos), o que causou preocupação nas autoridades locais, que temiam a retomada de práticas judaicas. Considerada a primeira professora do Brasil, Branca Dias foi vítima desse cenário.
Denunciada pela mãe e pela irmã (possivelmente sob tortura) ainda em Portugal, ela respondeu às acusações de judaísmo, cumpriu pena de dois anos de prisão e depois imigrou com o marido para Pernambuco, onde foi investigada mais uma vez - mesmo vários anos depois de morta, em 1558. Acabou condenada, assim como suas filhas e netas (elas, sim, estavam bem vivas...).

Com a atuação nas metrópoles e no além-mar, esse segundo momento da Inquisição foi marcado por um controle muito maior do Estado, que sustentava os tribunais e se responsabilizava por organizar os autos de fé, as grandes simulações do Juízo Final. Invariavelmente, as fogueiras eram acesas, os hereges, queimados (vivos, mortos ou na forma de bonecos, as efígies), e o povo festejava madrugada adentro.

No Brasil, os representantes do Tribunal do Santo Ofício eram as autoridades eclesiásticas locais, que tinham autonomia para identificar casos de desobediência à fé, realizar investigações preliminares e prender os suspeitos, remetidos para Lisboa, onde o processo era concluído. Essa estrutura funcionou entre os séculos 16 e 18. A sede podia estar distante, mas a Inquisição mostrou sua força bem de perto, especialmente quando enviou funcionários para visitas pessoais a algumas áreas cruciais da Colônia.

Era um grande acontecimento. O desembarque do emissário mobilizava a população e fazia multiplicar as procissões. Acompanhado de um séquito de dezenas de pessoas, o visitador era instalado em algum casarão central, onde o governador-geral, funcionários de alto escalão, juízes, bispos, vigários e missionários passavam para o beija-mão.

Em 1591, a recepção ao primeiro dos quatro enviados parou Salvador: "Heitor Furtado (de Mendonça) veio debaixo de um pálio de tela de ouro e, adentrando a Sé, ouviu renovados votos de louvor à sua pessoa e ao Santo Ofício. Dirigiu-se então à capela-mor, após a leitura da constituição de Pio V em favor da Inquisição, onde estava posto um altar ricamente adornado com uma cruz de prata arvorada, e quatro castiçais grandes, também de prata, com velas acesas, além de dois missais abertos em cima de almofadas de damasco, nos quais jaziam duas cruzes de prata.

Em meio a todo esse luxo, o visitador rumou para o topo do altar, sentou-se numa cadeira de veludo trazida pelo capelão e recebeu o juramento do governador, juízes, vereadores e mais funcionários, todos ajoelhados perante o Santo Ofício", descreve o historiador Ronaldo Vainfas. Sabe-se que Mendonça chegou preocupado - tinha lido um texto em que o padre Antônio Vieira dizia que, no Brasil, "não se guarda um só mandamento de Deus e muito menos os da Igreja".

O início das visitas marcava o Tempo da Graça, período de até 60 dias em que todas as pessoas eram "convidadas" a se manifestar. Nas ruas eram afixadas cópias do monitório, documento que listava os "crimes" sujeitos a investigação, incluindo blasfêmias, sacrilégios e, claro, transgressões sexuais e judaísmo. "Quanto mais rápido a pessoa se apresentava, menos suspeitas levantava contra si", diz Fernando Vieira, professor da Universidade Católica de Brasília.

A essa altura, a festa dava lugar à tensão. Como as denúncias eram anônimas, aquele era o momento ideal para vinganças. Uma mulher trocada pelo marido, por exemplo, poderia denunciá-lo por bigamia (também há casos de denúncias de homens abandonados pela mulher).

Um comerciante passado para trás nos negócios era capaz de sugerir que o concorrente praticava o judaísmo. Escravos denunciavam os seus senhores por sodomia. Na medida em que as acusações se acumulavam, os suspeitos eram levados para diante do visitador. Nem sempre sabiam qual o suposto crime. "No século 17, um homem acusado de homossexualismo confessou judaísmo porque achou que esse era o motivo da denúncia. Acabou julgado pelos dois", afirma Feitler.

Muitas vezes, amigos entregavam uns aos outros e familiares eram forçados a voltar-se contra um parente. Foi o que ocorreu com Ana Rodrigues, a primeira moradora do Brasil condenada à fogueira (leia essa e outras histórias a partir da pág. 30). "A chegada do visitador causava um descontrole nas relações sociais", diz o historiador Angelo Assis, professor da Universidade de Viçosa. O barbeiro Salvador Rodrigues foi acusado de sodomia pelos próprios irmãos na Belém de 1661. O inquérito levantou uma vasta rede de contatos homossexuais e acabou punindo outras pessoas na cidade.

Tradicionalmente, são citadas três visitações ao Brasil. A primeira, entre 1591 e 1595, passou por Bahia, Pernambuco, Itamaracá e Paraíba, num momento em que a União Ibérica enviava vários inquisidores às suas colônias. A segunda, de 1618 a 1621, a cargo de dom Marcos Teixeira, voltou à Bahia, dessa vez com maior foco na busca por cristãos-novos. A terceira, de 1763 a 1769, visitou a província do Grão-Pará e Maranhão e ficou sediada em Belém.

As motivações dessa última não estão muito claras, mas a explicação mais comum é a de que ela funcionou para prover suporte ao novo governo local e para mudar a direção da Igreja na região - o visitador, Giraldo José de Abranches, chegou com o novo governador-geral, Fernando da Costa de Ataíde Teive, e acumulou o posto de novo bispo da província. De toda forma, em nenhum outro lugar foram investigados tantos curandeiros e feiticeiros quanto naquelas paragens.

Os arquivos dessas investigações ainda não são totalmente conhecidos. Localizados na Torre do Tombo, em Portugal, eles citam 40 mil nomes de pessoas perseguidas, mas sem classificação por local de nascimento. Tampouco está claro se essas foram as únicas visitações. Recentemente descobriu-se outra, entre 1627 e 1628, que passou por Rio de Janeiro (onde o visitador Luís Pires da Veiga foi ameaçado de apedrejamento pela população), São Paulo e São Vicente. "Com certeza, há visitações das quais ainda não se encontraram os livros, fora aqueles que se perderam em naufrágios", afirma Assis.

O certo mesmo é que a Inquisição teve grande impacto na vida da Colônia. "A ação inquisitorial se fez sentir em todo o Brasil desde o início da colonização até o século 18, mesmo em capitanias que nunca receberam visitações, como Minas Gerais e Ceará", afirma a historiadora Marcia Eliane Souza e Mello, professora da Universidade Federal do Amazonas.

Tanto isso é verdade que há registros de processos antes da primeira visitação. Já em 1546, o donatário da capitania de Porto Seguro, Pero do Campo Tourinho, foi denunciado por ter afirmado que, em suas terras, ele era o "papa" e que trabalhador nenhum tiraria folga nos domingos e dias santos. Ao longo da década de 1550, em Salvador, o bispo dom Pedro Fernandes Sardinha, o primeiro do Brasil, exerceu funções inquisitoriais.

Bispos, padres, missionários, todos os membros da Igreja eram orientados a observar os costumes de seus fiéis e encaminhar os casos suspeitos para instâncias superiores. Mas a rede do Tribunal do Santo Ofício era mais vasta: havia representantes locais escolhidos no clero, os "comissários", que tinham a obrigação de circular pela região com os olhos (e ouvidos) bem abertos.

E contavam com a ajuda de informantes, os "familiares", homens influentes que conseguiam da Igreja um certificado de que tinham boa conduta e "sangue puro", intocado por antepassados judeus (o poeta Cláudio Manoel da Costa, por exemplo, foi recusado por "suspeita de sangue").

Os "familiares" acompanhavam as prisões e o confisco de bens determinado pelos comissários, às vezes antes mesmo da conclusão dos processos. A Quaresma era estratégica: todos os habitantes tinham o dever de confessar os pecados - e de entregar os alheios, sob pena de responder como cúmplices.

As grandes cidades foram as mais visadas. Minas Gerais, no auge da mineração, foi alvo preferencial. Assim como o Rio de Janeiro, na medida em que crescia em importância. No fim das contas (ao menos das disponíveis), veio de lá a maior parte dos acusados. "Rio e Minas, principalmente no século 17, tinham um importante número de representantes inquisitoriais. Mas há vítimas espalhadas por boa parte do país, como no Espírito Santo, no Piauí e em Goiás", diz a historiadora Anita Novinsky, da USP. Só na Paraíba, no século 18, 50 pessoas do mesmo círculo familiar foram presas, acusadas de manter as esnogas (sinagogas secretas).

No Mato Grosso, foram cinco viagens de comissários em busca de casos de feitiçaria. O "mandingueiro" Manoel Francisco Davida não escapou.

Nos inquéritos por judaísmo, era comum os acusados se comprometerem por manter tradições como enterrar os mortos em terra virgem e certos hábitos à mesa. O capelão do inquisidor geral em Portugal, Andrés Bernardez, recomendava: "Existe uma forma judaica de cozinhar e comer, a que todos devemos estar atentos. Eles preparam seus pratos, principalmente a carne, com muito alho e cebola, fritando-os ao invés de assá-los ou utilizar a banha de porco". Na Bahia de 1560, a mucama de Joana Fenade a denunciou por "fritar cebolas em óleo e jogá-las numa panela com carne para todos comerem".

É verdade que a Inquisição foi muito mais mortal em outros lugares do mundo, mas isso não diminui o rastro de medo deixado no Brasil. De toda forma, ela legou aos historiadores relatos preciosos sobre o cotidiano da Colônia até cerca de 1768, quando o Tribunal do Santo Ofício português foi transformado em tribunal régio (no contexto das reformas do marques de Pombal), o que esvaziou sua atuação.

A extinção formal ocorreu em 1821.
Os processos reproduzem hábitos religiosos, alimentares, sexuais... As toneladas de papel arquivadas no Tombo apresentam da genealogia detalhada das famílias envolvidas às traições nos casamentos. "É um acervo riquíssimo e ainda não totalmente investigado", diz Novinsky.

Fonte: GUIA DO ESTUDANTE.

Mais Maria Boa

Natal, na década de 40, quando o Trampolim da Vitória concretizava-se como ponto crucial da estratégia 'yankee' na Segunda Guerra Mundial, escondia pérolas históricas em sua sociedade, algumas relembradas com orgulho até os dias de hoje, outras jogadas no buraco-negro do esquecimento. A senhora Maria de Oliveira Barros, paraibana de Campina Grande, é uma delas e uma das mais reluzentes.

Maria Boa, como era conhecida popularmente, era dona do maior e melhor cabaré que o Rio Grande do Norte já teve. Um mito que não sobreviveria não fosse a perspicácia de professores e alunos universitários, que resgatam sua vida em trabalhos acadêmicos de variados estilos. É o caso do texto 'Maria Boa, a primeira dama', do jornalista José Correia Gomes Neto. Ou de um capítulo do livro "Histórias que vivi", de Ary Guerra Cunha Lima.

Ambos resgatam fatos que comprovam a importância de Maria Boa e seu estabelecimento para a estadia norte-americana em Natal. De tão famoso, o cabaré era referência geográfica da cidade. Sua clientela variava de políticos de extrema importância a americanos oriundos da base de Parnamirim Field. A cafetina chegou ao ponto de ser homenageada pelos 'sobrinhos do Tio Sam' em um avião modelo B-25 utilizado no front. Quem custou a acreditar neste fato foi a própria Maria. Até que alguns tenentes decidiram levá-la até a linha de estacionamento dos B-25 logo após o jantar para não despertar a atenção dos curiosos. Ela constatou o fato. As lágrimas verteram de seus olhos quando viu à sua frente, pintada ao lado do número 5079, a inscrição "Maria Boa".

A importância da figura de Maria para a sociedade da época ainda é confirmada em outros trechos do texto na voz de outros autores citados por Correia. Eliade Pimentel, no artigo 'E o carnaval ficou na memória' destaca a presença de Maria Barros nos carnavais de Natal: Lá pela década de 1950, os desfiles passaram a acontecer na Avenida Deodoro da Fonseca. Maria Boa desfilava com Antônio Farache em carros conversíveis.

FONTE: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=485817354837775&set=a.277696195649893.67074.100002285441344&type=1&theater

1501 – O MARCO DE TOUROS, O MONUMENTO MAIS ANTIGO DO BRASIL E CONSIDERADO O REGISTRO DE NASCIMENTO DO PAÍS

O dia 7 de Agosto foi escolhido como a data do aniversário do estado do Rio Grande do Norte, porque nesta mesma data, no ano de 1501, aconteceu, em terras potiguares, um dos mais importantes fatos históricos do país: a fixação do primeiro Marco (Padrão) de posse colonial da terra brasileira por Portugal, que para muitos historiadores representa o registro de nascimento do Brasil.

Os marcos, ou padrões, eram colunas de pedra, de altura variável, encimadas por uma cruz com inscrições em português, latim e árabe, que os portugueses passaram a usar como prova de suas descobertas e símbolos de sua fé.


Outros padrões foram deixados no litoral brasileiro - um no litoral baiano e outro na praia da Cananéia, São Paulo, sendo o de Touros o mais antigo.

A esquadra que, vinda de Lisboa, realizara a travessia e ergueu o padrão no litoral do Rio Grande do Norte, era formada por três caravelas e tinha no comando o capitão André Gonçalves e Américo Vespúcio como cosmógrafo.

O Marco instalado originalmente na cidade de Touros/RN foi feito de uma pedra calcária de granulação fina, provavelmente de mármore português ou lioz, medindo 1,20m de altura; 0,20m de espessura, 0,30m de largura; 1,05m de contorno.

Na parte superior, contém a cruz da Ordem de Cristo (a famosa Cruz de Malta) em relevo e, abaixo, as armas do rei de Portugal e cinco escudetes em aspas com cinco quinas, sem as bordaduras dos castelos.

O Marco de Touros é também cultuado pela comunidade de Cauã, como se fosse santo, e o chamam até de “Santo Cruzeiro”. O culto ao Marco surgiu em decorrência da falta de conhecimento das características da pedra e das inscrições nela contidas, como, por exemplo, a cruz que representa o símbolo da Ordem de Cristo. Estes fatores levaram a comunidade a crer que o Marco era realmente divino, vindo diretamente de Deus.

Os habitantes dessa comunidade acreditavam que tirar algumas lascas de pedra do Marco de Touros para fazer chá não constituía uma agressão e sim uma cura para as suas doenças. A comunidade, na sua obsessão religiosa, contribuiu para que o avanço do mar não viesse a destruir o precioso patrimônio – que foi o primeiro monumento histórico do Brasil português – pois, a cada avanço do mar, o Marco era deslocado do seu lugar de origem.

Mas desde 1976, quando foi declarado monumento nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Cultural, o Marco encontra-se em exposição no Forte dos Reis Magos, localizado na Praia do Forte, em Natal/RN.

Na praia onde foi instalado originalmente na cidade de Touros/RN, existe uma réplica, que mantém a tradição, os mitos, a crença do povo e reforça a ideia de que a ação religiosa dos habitantes preservou um patrimônio que, de outra forma, teria sido destruído.

Fonte: Embaixada de Portugal.

OS BANDEIRANTES – A VERDADE POR TRÁS DE UM FALSO MITO

Durante muito tempo, os bandeirantes foram encarados como "heróis". Eles teriam sido os desbravadores que contribuíram para a construção de nosso país, expandindo nossas fronteiras.

Neste sentido, a ficção literária contribuiu muito para a difusão do mito dos "heróis bandeirantes". Entre essas obras podemos destacar "A Bandeira de Fernão Dias", romance publicado pela primeira vez em 1928.

Seu autor, Paulo Setúbal, se especializou em romances históricos e costumava enfatizar que suas obras baseavam-se em documentação histórica, o que supostamente conferia veracidade aos seus relatos.

Outra importante contribuição foi a dada pelo escritor e desenhista Belmonte, pseudônimo de Benedito Bastos Barreto (1896-1947), que em 1940 lançou um livro escrito e ilustrado por ele: "No Tempo dos Bandeirantes". As ilustrações desse livro mostravam os bandeirantes vestidos de maneira elegante,com barba, chapelão de abas largas, botas e portando mosquetes.

Belmonte foi um artista importante, conhecido pelas suas brilhantes charges contra o nazismo que criou durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e pelas ilustrações que produziu para as primeiras edições da famosa série de livros infantis de Monteiro Lobato, "O Sitio do Pica-pau Amarelo".


No entanto, como historiador, seu trabalho pecava por apresentar a ficção como verdade histórica. Belmonte queria que os paulistas se orgulhassem do seu passado. Isso se explica pelo fato de que Belmonte era um regionalista fervoroso, que amava São Paulo e chegava a escrever cartas aos jornais criticando o estado de abandono dos monumentos históricos.

Mesmo não sendo fiéis à realidade histórica, os bandeirantes desenhados por Belmonte serviram de modelo para livros didáticos durante décadas. Serviram de modelo até para o monumento a Borba Gato, obra do escultor Júlio Guerra. Esse monumento encontra-se na entrada de Santo Amaro, bairro da cidade de São Paulo, onde o escultor Júlio Guerra, autor da obra, nasceu.

Será que o verdadeiro Borba Gato, que viveu de 1628 a 1717, era mesmo merecedor de um monumento em sua homenagem? Durante vinte anos Borba Gato foi procurado pelo assassinato de dom Rodrigo Castelo Branco, então Administrador-Geral das Minas Gerais.

Uma das razões do crime teria sido a descoberta de ouro durante uma expedição. No entanto, quando foram descobertas as principais jazidas de ouro, a Coroa portuguesa perdoou Borba Gato em troca dos conhecimentos que o bandeirante tinha da região.

Outro bandeirante bastante homenageado pela memória oficial é Fernão Dias, cujo nome foi dado à estrada que liga São Paulo a Minas Gerais. Como vimos, Fernão Dias serviu de inspiração para um livro do romancista Paulo Setúbal. Outra obra inspirada na vida de Fernão Dias é o poema "O Caçador de Esmeraldas", de autoria do poeta Olavo Bilac.

O título do poema foi inspirado no fato de que Fernão Dias morreu acreditando que as pedras verdes sem valor que havia encontrado no sertão mineiro eram esmeraldas valiosas.

Na vida real, o "caçador de esmeraldas" foi responsável pela captura e venda de vários indígenas. Ele liderou um ataque à serra de Apucarana, localizada onde hoje é o estado do Paraná, que resultou na captura de cerca de cinco mil indígenas.


A captura de indígenas para serem vendidos como escravos foi a base da economia paulista até o século 17. Naquela época, essa prática era tão lucrativa que era chamada de "negócio do sertão". Uma das razões para essa lucratividade foi o aumento da demanda por escravos indígenas para compensar a falta de escravos africanos no Rio de Janeiro e na Bahia durante o domínio holandês em Pernambuco.

Durante esse período os holandeses passaram a controlar o tráfico de escravos trazidos da África, o que dificultava a importação de escravos na América portuguesa. A solução encontrada pelos senhores de escravos no Rio de Janeiro e na Bahia foi comprar índios capturados pelos bandeirantes.


No entanto, a maioria dos indígenas capturados pelos bandeirantes foi vendida para fazendas de trigo paulistas. Segundo o historiador John Manuel Monteiro, autor do livro "Negros da Terra: Índios e Bandeirantes nas Origens de São Paulo", essas fazendas conheceram o seu auge no período que vai de 1630 a 1680, quando algumas delas tinham mais de cem escravos índios.

Seja em busca de ouro e outras pedras preciosas, seja em busca de índios para aprisionar e vender, os bandeirantes enfrentavam uma série de perigos e desconfortos: ataques de onças; picadas de cobras, aranhas e insetos; doenças; sem falar na própria resistência oferecida pelos indígenas...

Curiosamente, as expedições organizadas com o intuito de capturar índios também contavam com a participação de outros índios, que eram usados como guias e em outras tarefas, e de vários mestiços, filhos de homens brancos com mulheres indígenas. Na São Paulo daquela época a influência da cultura indígena era tão grande que o tupi era mais falado que o próprio português.

Outro fator que incentivou o aumento da captura de índios foi a própria pobreza em que vivia a maioria dos paulistas. A falta de perspectiva levou vários paulistas a acreditarem que a única forma de saírem da miséria era capturar índios para vender como escravos.

Essa razão não diminui em nada a violência que era praticada contra os indígenas, mas torna a situação mais compreensível e mostra o quanto a realidade daquela época era mais complexa do que se imagina.

Ñeste sentido, o que contribuiu para a contrução do mito em torno da figura dos bandeirantes foi a própria transformação de São Paulo em uma metrópole entre os séculos XIX e XX. No período colonial, São Paulo não passava de um povoado isolado com pouco mais de mil habitantes.

O crescimento do ciclo do café contribuiu para que São Paulo adquirisse verdadeira pujança econômica. A região ganhou a fama de "terra do trabalho", lugar de progresso. As elites paulistas resolveram difundir uma história idealizada, segundo a qual, as raízes desse progresso já existiam na época dos bandeirantes. Os membros da aristocracia do café seriam os descendentes diretos dos "heróicos bandeirantes".


Os paulistas, especialmente os membros da elite, traziam "no sangue" a herança dos bandeirantes, homens valentes que não tinham medo de desafios, o que explicaria porque os paulistas eram trabalhadores dedicados e incansáveis.

Repare que esse regionalismo está carregado de preconceito em relação aos habitantes de outras partes do Brasil: São Paulo seria uma exceção, terra de riqueza e progresso num país de miséria e atraso; o paulista leva o trabalho a sério enquanto os brasileiros de outros lugares seriam "preguiçosos".

Fonte: Portal UOL.