terça-feira, 15 de julho de 2014

Os Mártires


O culto
Castelo Keulen 1645Em 06 de dezembro de 2006, a então governadora do Estado do Rio Grande do Norte, Wilma de Faria, sancionava a lei que declara feriado Estadual o dia 03 de outubro, para culto público e oficial dos mártires de Cunhaú e Uruaçu. Desde o ocorrido haviam passados 361 anos, mas apenas 6 da beatificação do Papa João Paulo II.
O evento cultuado se deu em 1645, quando a capitania do Rio Grande era um domínio holandês periférico. Enquanto em Pernambuco desabrochava a cidade Maurícia, do Conde Renascentista, com suas torres e sua atmosfera cosmopolita, nós permanecíamos, na arquitetura e na mentalidade, uma decadente aldeia portuguesa com status de cidade. O domínio holandês não era diverso do português, continuávamos isolados. Mera Fortaleza permeada por casebres amedrontados.
Antes de outubro, ainda em julho, ocorria dentro da capela do engenho Cunhaú, o massacre que vitimara o padre André de Soveral juntamente com 29 fiéis, em plena missa. O engenho Cunhaú era o centro econômico da capitania, residia ali seu maior núcleo populacional, apesar disso, era modesto em relação aos grandes engenhos de Pernambuco. Havia uma considerável presença portuguesa na região do engenho, tornando-o alvo prioritário para tapuias e brasilianos sedentos por sangue lusitano.
Capela do engenho CunhaúAo serem informados que portugueses em Pernambuco tinham-se rebelado, vingando-se dos indígenas que se aliaram aos holandeses, tapuias e potiguaras marcharam para Cunhaú e massacraram praticamente todos os portugueses que por lá haviam, exceto três que fugiram pelo telhado.
Segundo Diogo Lopes Santiago, Jererera, líder dos tapuias e filho do lendário Rei Janduí, foi o primeiro a iniciar o massacre. Há elementos miraculosos que narram que os braços dos indígenas que assassinaram o padre Soveral, após este tê-los ameaçado com maldições, atrofiaram e foram despedaçados pelos próprios indígenas vitimados pela raiva.
O imaginário que se criou em torno dos mártires de Cunhaú se originou, em parte, pelo panfleto feito por Lopo Curado Garro, que mescla o relato com elementos fantásticos: como uma suposta música que ascendia para o alto, dando “certo pressagio que foram os Anjos que acompanhavam as almas destes mártires para o Céu”. Assim como uma mancha de sangue fresco que apareceu na sepultura do padre Vigário Ambrósio Ferro, quinze dias após sua morte, que segundo o panfleto dava “mostras bastantes, que o tal [padre] brada ao Céu justiça”. Atestado também por Lopes Santiago, que afirma que após três meses do ocorrido o sangue derramado pelas vítimas estava “tão vivo e fresco como se naquela hora fora derramado”.
Após os massacres ocorridos no engenho Cunhaú e, posteriormente, na casa forte de João Lostão Navarro, os colonos portugueses da Capitania decidiram refugiar-se em um sítio localizado na beira da Lagoa de Uruaçu, atual município de São Gonçalo do Amarante, onde ergueram paliçadas e estocaram mantimentos.
Mulher tapuia retratada por Eckhout como selvagem, carregando parte de corposApós sitiar as paliçadas por 16 dias e noites os holandeses, juntamente com tapuias e potiguaras, resolveram atacar, mas foram repelidos, resultando na morte de vinte holandeses contra nenhuma baixa portuguesa. Em um segundo ataque, dessa vez com dois canhões, os portugueses capitularam. Tendo sido massacrados posteriormente enquanto eram levados para o porto de Uruaçu. O uso de emboscadas era parte fundamental da estratégia militar que ficou conhecida como Guerra Brasílica.
Parte considerável das fontes primárias, que são escassas, atribui o ocorrido à maldade desmedida e diabólica dos indígenas e batavos, levando para o campo moral e religioso um conflito de origem muito mais complexa. A forma como os tapuias guerreavam foi intencionalmente associada, pelas autoridades locais, à forças demoníacas e falta de humanidade, assim procurava-se legitimar a guerra. O relato de alguns cronistas era parte integrante desse empreendimento.
A guerra
Os tapuias formavam um conglomerado nada homogêneo, composto por diferentes etnias, culturas e costumes. A denominação Tapuia foi arbitrariamente imposta a todos as tribos que não falavam Tupi. O Tapuia era antes de tudo um anti-tupi.
Os holandeses estabeleceram forte relação com os tapuias, principalmente com os Janduís, explorando o interior da Capitania, ávidos pela esperança de encontrar prata e minerais preciosos. Quando os batavos foram expulsos em 1654, as veredas que se embrenhavam sertão adentro, foram utilizadas pelos colonos para colonizar  o interior.
5 BEBELAOs colonos que adentravam cada vez mais no sertão potiguar precisavam de mão-de-obra para agricultura e terras para a pecuária. Sem recursos para comprar escravos negros no mercado de Pernambuco, acabavam por capturar índios tapuias no interior para desempenhar essa função, apropriando-se de suas terras.  A legislação vigente proibia a escravidão indígena com uma ressalva: caso o índio fosse capturado em uma guerra justa.
Para as autoridades coloniais, desde sempre, a guerra contra os tapuias era considerada justa. Provocava-se intencionalmente um conflito apenas para suprir a demanda por mão-de-obra de forma legal. A escravidão indígena tornou-se assim um negocio lucrativo.
Os tapuias eram o maior empecilho para a emergente economia pastoril que avança sertão adentro.  O governador geral Matias da Cunha convocou o capitão Domingos Jorge Velho, o mesmo bandeirante que destruiu o Quilombo dos Palmares, para que este partisse “com todas as forças que tiver sobre aquele bárbaro, e fazer-lhe todo o dano que puder. Espero que não só terão todas as glórias de degolarem os bárbaros, mas a utilidade dos que aprisionarem, porque por a guerra ser justa resolvi em Conselho de Estado, que para isso se fez, que fossem cativos todos os Bárbaros que nela se aprisionassem”.
Tarairiús dançandoAcontece que os tapuias não estavam dispostos a renunciar suas terras e servir como escravos da forma como esperavam os colonos, para sua surpresa as tribos tapuias se uniram em uma espécie de confederação bárbara, deflagrando na capitania do Rio Grande, em 1687, uma guerra que se alastraria pelo Nordeste brasileiro, de Alagoas ao Ceará, até 1700, espalhando terror e destruição pelo sertão nordestino. Fato que ficou conhecido como Guerra dos Bárbaros.
Entre as tribos Tarairiús, a mais temida pelos portugueses da Capitania eram os Janduís. Após assimilarem as táticas e os equipamentos de guerra dos holandeses converteram-se em exímios atiradores e cavaleiros. A rainha, em carta ao governador de Pernambuco, esboça preocupação a respeito dos Janduís: “… por terem já muita quantia de cavalos em que se exercitam como doutrinação que lhes deixaram os holandeses”.
Tapuias armados e treinados pelos holandesesO fidalgo, José Lopes Ulhoa, escreve ao rei de Portugal “Estes Tapuyos a que chamam Jandoins são muitos diferentes dos outros porque não tem aldeias nem parte certa em que vivam e sempre andam volantes sustentando-se algumas vezes dos frutos da terra e caça que matam e outras de algum gado que lhes dão os vaqueiros ou eles lhes roubam [...] Querer castigar estes homens por força das Armas me parece quase impossível e muito inconveniente [...] os não poderão alcançar pela ligeireza com que este gentio marcha e pouco peso das armas que levam sem lhes ser necessário carregar os mantimentos com que se hão de sustentar”.
Os Janduís tornaram-se peritos em cavalos, superando em alguns casos os próprios vaqueiros, ameaçando a expansão dos pastos sertão adentro. Como relata o conde Miranda Andrada à rainha de Portugal, em 1659 “e hoje se vão fazendo poderosos, por terem muita criação de éguas, e com qualquer disciplina nos poderão fazer muito dano”.
Várias nações indígenas adquiriam armas de fogo através de transações com piratas estrangeiros. Como afirma Matias da Cunha, em carta de 1688 ao bispo governador de Pernambuco: “Uns afirmam que os navios de Piratas que por vezes entravam o Rio Açu (navegável de embarcações maiores por distância de oito léguas em cujas ribeiras havia de uma e outra parte muitos currais de gado) comerciando com tapuias Janduís lhe deram as armas e munições com que pelejam: e outros, que tendo o mesmo comércio com eles o Capitão-Mor da Fortaleza do Ceará, lhe dera pólvora, e munições que ainda lhe duram.”
Tarairiús comercializando com holandeses. Em julho de 1694, Morais Navarro em carta ao rei, fala que esses tapuias: “faziam pazes com qualquer navio estrangeiro que viera aquela costa, pois tanto suspiram pelos holandeses (…) só eles bastavam para nos conquistarem por terra pois são tantos como as folhas, e no valor não lhes excedemos mais que na desigualdade das armas”.
Os colonos, assustados pelos roubos e massacres, debandaram-se para as capitanias vizinhas, fazendo com que os tapuias dominassem um vasto território da Capitania. Em Natal a pena para quem fugisse era a prisão e o confisco dos bens. Os que restaram erguiam casas fortes improvisadas com paliçadas para defender-se. O capitão-mor Pascoal Gonçalves emitia apelos desesperados aos governos da Paraíba, Pernambuco e Bahia. E mesmo com reforços vindos da Paraíba e Pernambuco, os tapuias já se aproximavam de Ceará-Mirim, a apenas cinco léguas da capital. Nesse momento do conflito, a Capitania estava a um passo de ser conquistada pelos indígenas.
Em carta do Senado da Câmara de Natal, dirigida ao Rei, contabiliza-se um prejuízo de duzentos colonos mortos e trinta mil cabeças de gado, além de mil cavalos. O prejuízo econômico para a Capitania foi imensurável.
Os mártires
Ìndio TarairiúNo sertão potiguar, haviam dois grupos etnográficos predominantes, os Tarairiús e os Cariris, ambos eram denominados de tapuias. O nome tarairú deriva do peixe taraíra, conhecido como traíra. Os Tarairiús habitavam os sertões há séculos, senão milênios, já os Cariris habitavam inicialmente o litoral, tendo sido expulsos pelos Tupiniquins e Tupinambás, refugiando-se no interior. A expressão “caboré”, utilizada pelos natalenses, denominava uma tribo Cariri. Os Caborés, que habitavam originalmente a região de Apodi, foram aldeados, entre outras localidades, em Macaíba, no engenho Ferreiro Torto, a 18 km da capital.
A Capitania do Rio Grande abrigava a maior concentração de Tarairiús da colônia, tendo como epicentro a região de Açu, onde viva a tribo dos Janduís. De acordo com Câmara Cascudo, o nome Janduí – que em tupi significa aranha pequena – teria derivado da palavra Nanduí, que significa ema pequena. Durante a invasão holandesa à Capitania do Rio Grande, época em que os Janduís eram os principais aliados dos holandeses, o brasão da Capitania era representado por uma Ema.
Janduí tinha 50 mulheres e 70 filhos, viveu mais de 100 anos. Dificilmente faziam casas, seu acampamento sempre era transitório, sendo queimado após abandonado. Dormiam ao relento, na terra, sem nada por baixo do corpo. Não andavam a noite devido ao perigo das cobras. Seu nomadismo fazia com que percorressem grandes distâncias, difundindo sua influência espacial por grande parte do nordeste brasileiro.
O filho de Janduí, Canindé, após a expulsão dos holandeses e um risco iminente de extinção de sua tribo por parte dos portugueses, rende-se e assina uma trégua. Diante de uma situação de extermínio, os Janduís souberam com muita destreza garantir diretamente com a Coroa Portuguesa um acordo de paz único na história brasileira, obtendo o reconhecimento de reino autônomo, vassalos diretos do próprio El Rei.
Ao Rei interessava manter sob controle essa lendária e temida casta de guerreiros que podia ser-lhe útil contra outros índios. Utilizando uma estratégia que fora bem sucedida na África, de acirrar conflitos entre grupos indígenas locais.
Aldeamento TapuiaEntretanto, o acordo de paz assinado diretamente com Portugal não foi bem quisto pelos colonos.  As autoridades coloniais portuguesas na Capitania durante o século XVII tinham como principal projeto político o extermínio dos tapuias. Alguns tendiam para o aldeamento como o governador Bernardo Vieira de Melo, outros para o conflito armado como o comandante do terço paulista Manuel Navarro.
A partir de então, a guerra passaria a ser de extermínio. Não importa mais se iriam ser mortos, escravizados, ou gerariam caboclos, os tapuias deveriam desaparecer. Sentimento compartilhado por autoridades coloniais e religiosas. O frei Manoel da Ressureição, por exemplo, contra as ordens do Rei, coagia os colonos a não “esperar defensivamente nos Arraias“, mas sim, seguir os indígenas “até lhes queimarem e destruírem as Aldeias, e eles ficarem totalmente debelados, e resultar da sua extinção, não só a memória, e temor do seu castigo, mas a tranquilidade, e segurança com que Sua Majestade quer que vivam, e se conservem seus vassalos, como por tão duplicadas ordens tem recomendado a este Governo”.
Em carta de janeiro de 1699, D. João de Lencastro, clama ao capitão-mor da capitania, Bernardo Vieirapara que este conceda “ao Mestre de Campo todos os que lhe pedir para a dita conquista, em que Vossa Mercê há de por todas as forças, para que aqueles Bárbaros fiquem extintos de todo.” O resultado não foi nenhuma surpresa, os que não foram mortos foram aldeados, como os Ariús, uma tribo Tarairiú, perseguidos sertão adentro, foram reduzidos em um aldeamento chamado Capina Grande. Para realizar o empreendimento contrataram os melhores mercenários que haviam na colônia, os paulistas.
albert-eckhout-9Os Janduís e demais Tarairiús remanescentes foram pacificados e aldeados a centenas de léguas de seu território original. Muitos foram forçados para o litoral, como os Canindés, que foram aldeados em São João da Ribeira do Cunhaú, não muito distante de onde ocorreu o primeiro massacre. Seus traços ainda são evidentes na população de Canguaretama e cercanias, sua marca foi mais persistente do que o sangue santo na capela. O homem do sertão dilui-se em homem mar, homem cana, homem útil. Jangadeiro, olhar sereno e mão firme não mais para projetar a lança, mas sim, para arquear a tarrafa sob o cardume de tainhas, mão forte não mais para golpear sua clava, mas sim, para cortar a cana que alimenta as usinas.
Na missa de beatificação, o então Papa e futuro Santo João Paulo II, nos lembrou que os mártires da Capela de Cunhaú pertenciam a uma geração de mártires que regaram o solo para a geração de novos fiéis. O mártir é aquele que tem fé, aquele que acredita. Morre pelo que acredita porque não poderia agir de outro modo. Em todo o sertão os Tarairiús morreram. Secos pela luta e pelo sol podem até não ter regado o solo em que tombaram, mas regaram a alma e o corpo do nordestino com força e destreza. Sua morte gerou fiéis, cangaceiros, jangunços, profetas, todos igualmente crentes. Sua morte gerou Canudos.
Na aridez da caatinga, no rastro dos Tarairiús, surge à civilização do couro, com ela um novo homem, meio tapuia, meio negro, meio beduíno, completamente nordestino. Esse homem, posteriormente, viria a construir e povoar todo um país.


FONTE: http://tuliomadson.com/2014/01/10/os-martires/

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Fotos históricas da base aérea dos Estados Unidos em Natal

Em 1942, em plena Segunda Guerra, Getúlio Vargas autorizou a construção de uma base militar dos EUA no Brasil. Estas fotos incríveis recontam a história do campo de Parnamirim.

Natal, 1942. Como parte dos acordos feitos por causa da Segunda Guerra, os americanos construíram uma base aérea em Parnamirim. Esta história incrível foi romanceada no filme “For All”, mas as imagens abaixo são um registro real daqueles dias.

Ivan Dmitri/Michael Ochs Archives / Getty Images​
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A base ficou conhecida como o “Trampolim da Vitória”. Todos os aviões americanos deviam passar por lá antes de seguir para os campos de batalha na Europa e África.

Ivan Dmitri/Michael Ochs Archives / Getty Images​
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E os militares aproveitavam para se inteirar da cultura local e relaxar um pouco na praia.

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domingo, 13 de abril de 2014

Brasil Colonial: divergência entre o escravismo indígena e o africano.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume ago., Série 23/08, 2011, p.01-05.

“Liberte-se da escravidão mental,
Ninguém além de nós pode libertar nossas mentes
Não tenha medo da energia atômica,
Porque eles não podem parar o tempo
Por quanto tempo vão matar nossos profetas?
Enquanto nós permaneceremos de lado olhando
Huh, alguns dizem que é apenas uma parte disto
Nós temos que cumprir inteiramente o Livro”.

Bob Marley - Canção de Redenção


Durante o período escravista ocorrido no Brasil colônia, a utilização da mão-de-obra do escravo negro foi mais intensa comparada a do escravo indígena.
No imaginário popular, essa relação se deu pelo fato do índio ser de uma “raça” [1] mais preguiçosa e menos resistente do que o negro.

No entanto, não podemos negar que o tratamento com o indígena foi diferente do tratamento com o africano, mas isso ocorreu diante de diversos fatores sociais e biológicos que em nada tem a ver com esse estereótipo.

Os interesses econômicos da Coroa Portuguesa, a partir de meados do século XVI, passam a integrar efetivamente o Brasil no projeto comercial como um território que deve ser investido, e não mais apenas como um ponto de abastecimento aos navios que navegavam ao longo da África e do Oriente.
Sendo assim, para a intensificação da produção açucareira no território brasileiro era preciso empregar a força de trabalho escravo nos engenhos.
E, para isso, não seria mais fácil utilizar a mão-de-obra “da gente da terra” ao invés de buscar africanos do outro lado do continente?
Na teoria, a resposta imediata seria “sim!”, porém, mesmo sendo mais acessível, a escravidão indígena sobrepõe alguns pontos que devem ser levados em consideração.


O trabalho compulsório indígena.
Ao contrário dos povos africanos, as comunidades indígenas não utilizavam a prática escravista como um comércio.

Como Alencastro (2000, p.118) demonstra:
“O fato é que nenhuma comunidade indígena se firmou no horizonte da América portuguesa como fornecedora regular de cativos aos moradores. Como escrevem os autores de um incisivo estudo sobre a questão, a guerra tupinambá, fundada essencialmente na vingança – na morte do inimigo – não se enquadrava num processo de reprodução social mais amplo. Para converter os indígenas em fornecedores de escravos, carecia transformar sociedades de coleta e de caça em sociedades predadoras de homens”.

Assim, nenhuma comunidade indígena fornecia cativos regularmente aos portugueses, como acontecia nas redes internas de tráfico na África.
A cultura indígena era baseada essencialmente na vingança e, dessa forma, a captura do inimigo não tinha fins lucrativos.
Ao contrário dos povos africanos, que construíam reinos estruturados com base no comércio negreiro com os estrangeiros.
Ainda segundo Alencastro, autor da obra O trato dos viventes – formação do Brasil no Atlântico Sul, as leis editadas pela Coroa Portuguesa estabeleciam três tipos de apropriação dos indígenas: os resgates, os cativeiros e os descimentos.
Os resgates consistiam na negociação de índios prisioneiros.
Assim quem os comprasse da tribo rival além de livrá-los da morte teria o direito de utilizar seus trabalhos em até dez anos.
Os cativeiros eram índios obtidos através de uma “guerra justa” entre certas etnias, esses prisioneiros se tornavam escravos por toda a vida.
Os descimentos referiam-se ao deslocamento forçado dos índios para aldeamentos estabelecidos pelos europeus, onde os índios eram misturados e assentados, na maioria das vezes com o objetivo de proteção dos portos contra os estrangeiros (holandeses e ingleses principalmente) e dos ataques dos índios do interior que eram contra a ocupação portuguesa.
Quando libertos, os índios desses aldeamentos só podiam ser utilizados mediante a obtenção de um salário.
Apesar da existência dessas leis, o colonato abusava da utilização do trabalho indígena ignorando os direitos dados a eles pelo reino e pelo cristianismo.
Por este motivo, a mão-de-obra escrava indígena era comumente utilizada e os seus direitos eram negados, sendo apenas formalmente livres.
Porém, a permanência destes nos cativeiros e aldeamentos se tornou um problema para os colonos, pois eles costumavam fugir com facilidade devido ao conhecimento que tinham das regiões.
Outro problema recorrente era o pagamento do salário dos índios alugados e a própria escassez dos mesmos.
Já os escravos africanos sempre foram legitimados como posse, como um bem adquirido pelo comprador que poderia utilizá-lo como bem o quisesse.


Os problemas do trabalho indígena: as questões religiosas e biológicas.
Desde a “descoberta” do Brasil pela frota de Cabral em 1500, a percepção que os portugueses tinham dos nativos era a de um povo ingênuo, livre de pecados, mas que por terem hábitos “estranhos” precisavam da salvação através da fé católica.

Como Pero Vaz de Caminha aponta na carta do descobrimento enviada ao rei português D. Manuel: “(...) Contudo, o melhor fruto que dela [a terra] se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar” [2].

Assim, a expansão comercial marítima portuguesa, que visava lucros para a Coroa, tinha também como objetivo a propagação da fé católica.

E no período colonial essa propagação deveria se estender aos índios de todo o território brasileiro.


Sendo assim, a Igreja Católica defendia os índios porque acreditava que estes possuíam almas, e que por se tratarem de pessoas “puras”, que andavam nuas sem nenhuma maldade, precisavam ser ensinados e doutrinados dentro da religião cristã.
Os negros, por sua vez, tinham as suas religiões severamente reprimidas.
Dessa forma, o trabalho escravo indígena utilizado por muitos colonos encontrava forte oposição dos clérigos.
Por outro lado, a compra dos africanos trouxe um grande benefício para os senhores de engenho, pois trazidos da distante África não teriam chance de voltar às suas terras e estariam assim presos a uma nova terra totalmente desconhecida.
E a união de escravos negros para o planejamento de fugas seria também muito difícil já que muitos eram oriundos de tribos diferentes.
Outro fator relevante que facilitou a escravidão negra foram as freqüentes doenças que muitas vezes provocavam a mortandade dos nativos.
A derrubada do mato e o avanço dos canaviais facilitaram a proliferação dos mosquitos e das febres; a má alimentação e o contato com negros e europeus também contribuíram para ampliar a instauração de doenças, bem como a introdução de bois, cavalos e outros animais domésticos que transmitiam sarampo, gripe, bicho-de-pé, brucelose e varíola bovina até então desconhecidas pelo organismo indígena.
Entretanto, muitos africanos haviam adquirido imunidade às doenças. Sendo assim, “(...) mais baratos que os africanos, os índios escravos acabavam saindo mais caros porque morriam em maior número” (ALENCASTRO, 2000, p.137).
Dessa maneira, a mão-de-obra africana era mais rentável, principalmente para os senhores de engenho que precisava de uma força de trabalho maior na lavoura.
A descoberta do ouro permitiu também que muitos senhores enriquecessem e pudessem assim abandonar o difícil trabalho de conseguir e manter índios nos cativeiros e passaram a comprar africanos.
Assim, os entrepostos comerciais localizados no litoral africano passaram a intensificar o tráfico negreiro para a América.
Medida que favoreceu o governo português, ampliando o controle metropolitano sobre a colônia, pois, a partir disso, os senhores de engenho passam a depender do tráfico negreiro (liderado pelos comerciantes portugueses) para obter escravos africanos.


Concluindo.
A partir disso, podemos concluir que a introdução de escravos africanos no Brasil serviu para aumentar a produtividade da economia colonial.

Pois, ao contrário dos africanos, os índios tinham as sua resistência abalada pelas doenças trazidas pelos estrangeiros, e isso acabava fazendo-os menos adeptos ao trabalho escravo (talvez daí tenha surgido a sua fama de preguiçoso).

Outros fatores que agravavam o escravismo indígena era o conhecimento que o índio tinha do território, aumentando assim a probabilidade de fuga, e a relativa proteção que Igreja Católica dava aos nativos.
A prática da utilização da mão-de-obra escrava indígena esbarrava também na dinâmica do capital mercantil, que tinha como base o tráfico negreiro.
E a questão da falta de população para povoar o território brasileiro e concretizá-lo como posse portuguesa foi resolvida pela implantação dos negros na terra, pois a Europa estava com um déficit populacional devido à peste.
Assim, o território brasileiro era povoado e isso evitava as ameaças que os invasores faziam para a Coroa portuguesa.
E para a Igreja, a evangelização dos índios também se mantinha sem ameaças com o escravismo africano.
Dessa forma, a escravatura no Brasil foi marcada pela complexidade nas relações entre dominadores e dominados e pelo conflito de interesses.
Os lucros do contrabando de famílias inteiras transformadas em escravos contribuíram para o sucesso econômico dos impérios coloniais, que apesar de toda a sua religiosidade não hesitaram em comercializar e se beneficiar do trabalho compulsório negro.
São evidentes as conseqüências dos maus tratos recebidos pelos escravos, pois mesmo quando já estavam livres do destino de escravidão no Brasil, a dolorosa experiência que tiveram jamais se apagará com o tempo.
E a condição de selvagens caracterizada pela inferioridade em relação ao branco se manteve no preconceito da sociedade, e até mesmo hoje em dia podemos ver os reflexos e a predominância desse preconceito em diversas situações do cotidiano.
Entretanto, a contribuição dessas duas etnias (não excluindo os portugueses) foi essencial tanto para a formação da população da época quanto para a formação da nossa cultura.
Percebendo isso, a noção de hierarquia entre "povos, cores e credos" não fará mais sentido nenhum, principalmente para os jovens da nossa sociedade que têm dificuldade em aceitar o outro, em aceitar tudo o que lhe é diferente.

Para saber mais sobre o assunto.
ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes – formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
CARDOSO, Ciro Flamarion. “Algumas polêmicas teóricas e interpretativas” In: A Afro-América: a escravidão no novo mundo. São Paulo: Brasiliense, 1982.
HOLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História Geral da Civilização Brasileira. 7 ed. São Paulo: DIFEL, 1985.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.
PRADO JR., Caio. “Sentido da Colonização” In: Formação do Brasil contemporâneo (Colônia). São Paulo: Brasiliense, 1976.
PRADO JR., Caio. “Caráter Inicial e Geral da Formação Econômica Brasileira” In: História Econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1986.
Texto: Profa. Adriana Costa.
Licenciada em História pelo Centro Universitário Metodista do Sul IPA.

[1] O atual conceito utilizado é etnia, que tem como objetivo evitar preconceitos e a noção de hierarquia entre os povos e as diferentes manifestações culturais.
[2] A Carta, de Pero Vaz de Caminha. Disponível em: http://www.culturabrasil.org/zip/carta.pdf

quarta-feira, 26 de março de 2014

Câmara devolve mandatos de Djalma Maranhão e Luís Gonzaga dos Santos

  Iniciativa corrige injustiça histórica contra a democracia.

A Câmara Municipal de Natal realiza no próximo dia 3 de abril (quinta-feira) uma Sessão Solene para a entrega de certificados de diplomação “in memoriam” às famílias do Prefeito e Vice-Prefeito de Natal, Djalma Maranhão e Luís Gonzaga dos Santos, devolvendo de forma simbólica os mandatos cassados pela ditadura militar aos mesmos. A solenidade ocorre às 18:30 horas no plenário da Casa Legislativa. Na sexta-feira (4) às 10 horas haverá também o descerramento de uma Placa alusiva ao ato no Salão Nobre da Prefeitura de Natal. O dia 3 de abril de 2014 foi escolhido por ocasião do aniversário de 50 anos do impeachment e cassação dos mandatos de Djalma e seu vice.
 
De autoria do vereador George Câmara (PCdoB), a resolução Nº 404/2014 reconheceu como atos antidemocráticos e injustos a decretação do impeachment e a cassação dos mandatos e direitos políticos do Prefeito e Vice-Prefeito de Natal, Djalma Maranhão e Luís Gonzaga dos Santos durante o golpe militar em 1964. A resolução foi aprovada por unanimidade pelos 29 vereadores da Casa no dia 20 de fevereiro.
 
Segundo George, a iniciativa anulou a decisão da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Natal ocorrida no dia 3 de abril de 1964 devolvendo (in memoriam) os mandatos de Djalma Maranhão e seu vice durante o período da ditadura militar no Brasil. "Os 21 vereadores que faziam parte da legislatura que cassou o prefeito e seu vice fizeram um documento na época afirmando que não havia ocorrido pressão pela aprovação do impeachment, quando todos sabiam da pressão e influência dos militares. Foi uma grande mentira, uma farsa montada", explicou George Câmara.
 
Ainda de acordo com o vereador, a iniciativa repudia a decisão tomada por aqueles vereadores quando aprovaram o decreto que acatava os argumentos do Exército Brasileiro: que o Prefeito e o Vice-Prefeito de Natal, sendo comunistas, estavam impedidos de exercer seus mandatos. “Como forma de corrigir essa injustiça histórica, os nomes de Djalma Maranhão e Luís Gonzaga dos Santos, eleitos democraticamente, serão inscritos nos anais da Câmara Municipal, bem como, na sede da Prefeitura, como dignos representantes dos cidadãos natalenses”, coloca George.

Como surgiu o termo "BAITOLA"

Por Heitor Feitosa Macêdo
FONTE: http://estoriasehistoria-heitor.blogspot.com.br/2013_07_09_archive.html 
         Às vezes uma palavra é suficiente para denunciar um costume secular, escondido entre práticas completamente adversas, contrárias, antípodas, em negativas subconscientes de certos hábitos. É exatamente nesse contexto que se põe o termo “baitola”, frequentemente propalado pelos sertões nordestinos.
         Essa designação é comum no Ceará, o que não significa que tal expressão tenha sido gestada unicamente nessa parte do Nordeste, pois se observa o uso desse vocábulo também em regiões circunvizinhas. Além disso, a etimologia aponta relativa generalidade do termo no território brasileiro. Somando-se a tudo isso a antiga e frequente prática da homossexualidade.
         Num retrospecto bíblico encontra-se desabrida condenação à prática do coito anal, tendo Deus aspergido uma chuva de enxofre sobre Sodoma e Gomorra, matando seus habitantes carbonizados. Pobres sodomitas que morreram pelo amor e pelo "mau" uso de seus orifícios! Então, num mundo sustido na religião monoteísta, pela qual o Ocidente fora dominado, é bastante natural a aplicação de sanções a esse “nefando pecado”.
         Porém, para que não se perca, voltando mais um pouco no tempo, veem-se os gregos e romanos, gente que gozava da virilidade de mancebos enquanto escrevinhavam seus tratados de filosofia. Esses cultores de rapazes do mesmo sexo legaram aos tempos modernos inestimáveis compêndios científicos, que por muito tempo foram suprimidos pela Igreja, pois, afinal, tratavam-se de ideias criadas em seio politeísta.
         O homem quinhentista, ao desembarcar na terra de pindorama (terras das palmeiras, como era chamado o Brasil pelos índios), trazia em sua bagagem os mesmos tabus da Idade Média, temendo o fogo da inquisição pela impudicícia.
         Essa sociedade “genitalizada” e teoricamente monogâmica disseminou-se pelos sertões, incluindo os do Nordeste. A família formava a célula desse corpo social, cabendo ao pater familias decidir sobre os destinos da sua propriedade, ou seja, além dos bens imóveis, a mulher, os filhos e os escravos.
         Ao patriarca era dado o desfrute de possuir “de fato” quantas mulheres lhe aprouvesse, impondo-se a monogamia unicamente à classe feminina. Quantos aos filhos, cabia também ao chefe da família escolher-lhes a sorte, mesmo aos rebentos varões, ditando qual seria assexuado, seguindo a vida sacerdotal; e reservando às filhas casamentos escolhidos, geralmente, entregando-as ainda pré-adolescentes a outros velhos ricos.
         Rodeado de mulheres escravas, negras ou índias, incluindo-se as cunhãs surripiadas das aldeias pelas chamadas guerras justas, o patriarca geria verdadeiro harém. Muitos ficaram célebres por esse seu poder procriador, havendo destaque para Jerônimo de Albuquerque, apelidado de o Torto, por perder um olho em luta com os índios. Esse indivíduo teve 26 filhos, por isso ser também chamado de o “Adão pernambucano”[1].
         Jerônimo de Albuquerque viveu maritalmente com a índia Maria do Espírito Santo Arco Verde (filha do cacique Ubiraubi - Arco Verde), nascendo dessa união Catarina de Albuquerque (a Velha), a primeira filha do casal e a mais amada pelo pai.
         Catarina casou-se com um fidalgo florentino, Felipe de Cavalcante, que havia migrado da Itália por sofrer perseguição da poderosa família Médice.[2] Então, veio ele residir na Capitania de Pernambuco, deixando numerosa prole, da qual descende quase toda população nordestina, não sendo exagero afirmar que a maioria das famílias brasileiras possui alguma gota de sangue desse notável patriarca.
          Esses descendentes de Felipe e Catarina se lançaram ao sertão, espalhando-se pelos quatro ventos, e legando à atualidade as populações desses rincões. Destaque-se que os Cavalcante desmembraram-se em outras famílias, quase sempre aristocráticas, as quais, por muito tempo, ostentaram riqueza e valentia, inclusive no semiárido.  
         Porém, contrastando com o estereótipo sertanejo, Felipe carregava hábitos discrepantes aos institucionalizados pela tradição dos rudes moradores da caatinga. Isso pelo fato de o dito fidalgo ser acusado perante o Tribunal do Santo Ofício por sodomia, sendo denunciado por Belchior Mendes de Azevedo.[3]
         A sodomia era tratada por “pecado nefando”, e os dicionários mais antigos não a especificam, simplesmente registrando sua significação da seguinte forma: “Pecado, por antonomásia, nefando, e por consequência indigno de definição por sua torpeza”.[4] Mas, o que seria nefando?
         Segundo o velho dicionário de Bluteau, nefando é coisa indigna de exprimir com palavras, coisa da qual não se pode falar sem vergonha. O mesmo autor remete o pecado nefando, o de sodomia, ao demônio Incubo ou Sucubo, que ora serve de homem, ora de mulher.[5] Mas, como é sabido, trata-se da conjunção sexual anal, entre homem e mulher ou entre dois homens.
         Diz Gilberto Freyre[6] que os filhos família (filhos dos fazendeiros) muitas vezes iniciavam sua vida sexual com os moleques (filhos dos negros escravos), companheiros de brinquedos, sendo estes também chamados de “leva pancadas”, pois, frequentemente, eram vítimas de brincadeiras sádicas dos senhorzinhos.
         Ressalte-se a miscigenação do “tipo brasileiro”, já que é eticamente errado falar em raça, uma verdadeira mistura de brancos, negros e índios, sendo que estes últimos (os ameríndios) também não ficaram alheios à prática do amor sáfico ou socrático, ou seja, entre eles também houve homossexualismo.
         Os indígenas estavam organizados uma em sociedade “gerontocrática” [7], onde os mais velhos exerciam influência sobre as deliberações do restante da tribo. E, sendo a guerra uma constante entre aqueles povos, o homem adulto era mais valorizado do que as crianças e mulheres.[8] A masculinização era uma necessidade.
         Em regra, os chefes tupis possuíam mais de uma mulher, registrando-se 13 esposas para Cunhambebe e 34 para Amendua.[9] Entretanto, essa virilidade era posta a prova durante o desenvolvimento dos indivíduos mais jovens, que passavam de mitã a culumim-mirim, depois a culumim-guaçu,[10] até chegar a avá e tujuáe.[11]
         Nas fases iniciais, os jovens eram postos em compartimentos privativos aos homens, onde passavam por rituais secretos. Esse ambiente era chamado de “Baito”, que, segundo Gilberto Freyre, era “uma espécie de lojas de maçonaria indígena”.[12]  Os índios praticavam a pederastia sem ser por escassez ou privação de mulher, quando muito, pela influência do período de internato nessas casas secretas.[13]
         Entre os gentios do sexo masculino, deitar com as tias, irmãs e filhas não lhes causava nenhum embaraço, e muito menos os constrangia copular com outros machos. Sobre essa luxúria, diz Gabriel Soares de Sousa que muitos índios morriam exaustos de tanto fornicarem, além disso, eles aumentavam o órgão fálico com os pelos de um bicho peçonhento, tornando suas genitálias inchadas e disformes, ademais, assevera o autor que alguns valentes índios se gabavam por se servirem de outros homens, havendo nos sertões “alguns que têm tenda pública a quantos os querem como mulheres públicas”.[14]
         Frise-se que a homossexualidade não se restringia aos homens, existindo também mulheres que faziam as vezes de varões, como fora observado por Gandavo[15]:

Algumas índias a que também entre eles determinam de ser castas, as quais não conhecem homem algum de nenhuma qualidade, nem o consentirão ainda que por isso as matem. Estas deixam todo o exercício de mulheres e imitam os homens e seguem seus ofícios, como se não fossem fêmeas. Trazem os cabelos cortados da mesma maneira que os machos, e vão à guerra com seus arcos e flechas, e à caça perseverando sempre na companhia dos homens, e cada uma tem mulher que a serve, com quem diz que é casada, e assim se comunicam e conversam como marido e mulher.         
         
        Muitas etnias ameríndias habitaram o território cearense, inclusive os tupis, sob o nome de Tabajaras, moradores no litoral da Capitania. Outro tanto de índios residia no interior, chamados genericamente de tapuias, ou seja, contrários aos tupis, índios bravios ou de língua travada (que não falavam a língua geral, o tupi-guarani), figurando entre eles os Cariús, Jenipapos, Cariris, Jucás, Icós, Canindés etc.
         O intercurso racial resultou numa aculturação, isto é, na formação de uma cultura híbrida, sendo a palavra “baitola” uma dessas reminiscências. Algumas versões folclóricas tentam explicar o étimo de tal expressão, contudo, terminam em suposições jocosas e insustentáveis.
Em verdade, “baitola” ou “baitolo” deriva do termo indígena supramencionado, “baito”, recinto reservado aos jovens, com o acréscimo do sufixo “la” ou “lo”, certamente um hibridismo provindo da língua portuguesa, pois a fonética gentílica desconhecia o som da letra “l”. Cabe destacar que uma variante tupi para baito é “baité”, desmembrando-se em “mbaé”, aquele que é, e “ité”, frio, discordante.[16]  
No Ceará, ainda hoje, também é comum ouvir-se o termo “baitinga”[17], cuja etimologia concerne a “baito”, com o acréscimo de “tinga” (branco), constituindo outra remissão índia aos indivíduos homoafetivos de cor branca.
Talvez a discussão a respeito da etimologia de uma palavra dessa natureza pareça algo insignificante. Porém, representa uma das principais consequências do etnocídio acometido aos povos indígenas, pois o uso da língua bugre fora veemente proibido, inclusive em muitas aldeias, e oficialmente banido pelo Marquês de Pombal em 1758.
 É necessário dizer que uma palavra pode ir além das definições aduzidas pelos dicionários, como a expressão em comento, que ultrapassa a sua literalidade jocosa e discriminante, para alcançar importantes fatos históricos, a partir de sua etimologia e da variação semântica no decorrer do tempo.   
         Desta feita, vê-se que, talvez, inexista brasileiro que não possua um “gay” na família, mesmo que seja um tataravô da era colonial. Não ficando de fora os brancos, nem mesmo os negros, e quanto aos índios, são estes, indubitavelmente, os precursores dos baitolas de verdade.   
A outra versão diz o seguinte:
velha locomotivaA palavra "baitola" surgiu no Ceará, nas primeiras décadas do século 20, por volta de 1913, quando chegou ao Ceará o inglês de nome Francis Reginald Hull, o conhecido Mr. Hull (pronuncie-se mister ráu), que deu o nome a uma famosa avenida na cidade de Fortaleza-CE. Mr Hull fora designado superintendente de uma Rede Ferroviária no Ceará e passou, em muitas situações, a fiscalizar algumas obras de construção e reparo na própria Ferrovia.
Mr Hull era homossexual assumido. Quando ia pronunciar a palavra "bitola", que significa a distância entre dois trilhos, pronunciava "baitola". Quando ele se aproximava de onde estavam os trabalhadores, estes, que não gostavam do modo como eram tratados pelo chefe, diziam: "Lá vem o baitola, lá vem o baitola". A partir daí passou-se a associar a palavra baitola ao homossexualismo.
        
BIBLIOGRAFIA:
Bluteau, D. Raphael, Vocabulario Portuguez e Latino, Coimbra/Portugal, Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712.

Clerot, Leon F.R., Glossário Etimológico Tupi/Guarani, 1ª Reimpressão, Brasília - DF, Edições do Senado Federal, 2011.

Fernandes, Florestan, A função social da guerra na sociedade tupinambá, São Paulo, Editora Globo, 2006.

Fonseca, Antônio José Vitoriano Borges da, Nobiliarquia Pernambucana, Volume I, Rio de Janeiro, Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1935.

Freyre, Gilberto, Casa – Grande & Senzala, 18ª Ed., Editora José Olímpio, Rio de Janeiro, 1977.

Gandavo, Pedro de Magalhães, Tratado da Terra do Brasil, Brasília - DF, Edições do Senado Federal, 2008.

Seraine, Florival, Revista do Instituto do Ceará, Tomo LXIV, Ano 1950.

Sousa, Gabriel Soares de, Tratado Descritivo do Brasil em 1587, São Paulo, Ed. Hedra, 2010.    



[1] Freyre, Gilberto, Casa – Grande & Senzala, 18ª Ed., Editora José Olímpio, Rio de Janeiro, 1977, p. 278.
[2] Fonseca, Antônio José Vitoriano Borges da, Nobiliarquia Pernambucana, Volume I, Rio de Janeiro, Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1935, p. 208.
[3] Freyre, op. cit., p. 321.
[4] Bluteau, D. Raphael, Vocabulario Portuguez e Latino, Coimbra/Portugal, Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712, p. 688.
[5] Ibidem, op. cit., p. 698.
[6] Freyre, op., cit., p 50.
[7] Fernandes, Florestan, A função social da guerra na sociedade tupinambá, São Paulo, Editora Globo, 2006, p. 204, 190 e 289.
[8] Ibidem, op. cit., p. 206.
[9] Ibidem, op. cit., p. 271.
[10] Ibidem, op. cit., p. 196 e 197.
[11] Ibidem, op. cit., p. 188 e 189.
[12] Freyre, op. cit., p 118 e p. 136.
[13] Ibidem, op. cit., p. 119.
[14] Sousa, Gabriel Soares de, Tratado Descritivo do Brasil em 1587, São Paulo, Ed. Hedra, 2010, p. 299.
[15] Gandavo, Pedro de Magalhães, Tratado da Terra do Brasil, Brasília - DF, Edições do Senado Federal, 2008, p. 136.
[16] Clerot, Leon F.R., Glossário Etimológico Tupi/Guarani, 1ª Reimpressão, Brasília - DF, Edições do Senado Federal, 2011, p. 87.
[17] Seraine, Florival, Revista do Instituto do Ceará, Tomo LXIV, Ano 1950, p. 10.