domingo, 13 de abril de 2014

Brasil Colonial: divergência entre o escravismo indígena e o africano.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume ago., Série 23/08, 2011, p.01-05.

“Liberte-se da escravidão mental,
Ninguém além de nós pode libertar nossas mentes
Não tenha medo da energia atômica,
Porque eles não podem parar o tempo
Por quanto tempo vão matar nossos profetas?
Enquanto nós permaneceremos de lado olhando
Huh, alguns dizem que é apenas uma parte disto
Nós temos que cumprir inteiramente o Livro”.

Bob Marley - Canção de Redenção


Durante o período escravista ocorrido no Brasil colônia, a utilização da mão-de-obra do escravo negro foi mais intensa comparada a do escravo indígena.
No imaginário popular, essa relação se deu pelo fato do índio ser de uma “raça” [1] mais preguiçosa e menos resistente do que o negro.

No entanto, não podemos negar que o tratamento com o indígena foi diferente do tratamento com o africano, mas isso ocorreu diante de diversos fatores sociais e biológicos que em nada tem a ver com esse estereótipo.

Os interesses econômicos da Coroa Portuguesa, a partir de meados do século XVI, passam a integrar efetivamente o Brasil no projeto comercial como um território que deve ser investido, e não mais apenas como um ponto de abastecimento aos navios que navegavam ao longo da África e do Oriente.
Sendo assim, para a intensificação da produção açucareira no território brasileiro era preciso empregar a força de trabalho escravo nos engenhos.
E, para isso, não seria mais fácil utilizar a mão-de-obra “da gente da terra” ao invés de buscar africanos do outro lado do continente?
Na teoria, a resposta imediata seria “sim!”, porém, mesmo sendo mais acessível, a escravidão indígena sobrepõe alguns pontos que devem ser levados em consideração.


O trabalho compulsório indígena.
Ao contrário dos povos africanos, as comunidades indígenas não utilizavam a prática escravista como um comércio.

Como Alencastro (2000, p.118) demonstra:
“O fato é que nenhuma comunidade indígena se firmou no horizonte da América portuguesa como fornecedora regular de cativos aos moradores. Como escrevem os autores de um incisivo estudo sobre a questão, a guerra tupinambá, fundada essencialmente na vingança – na morte do inimigo – não se enquadrava num processo de reprodução social mais amplo. Para converter os indígenas em fornecedores de escravos, carecia transformar sociedades de coleta e de caça em sociedades predadoras de homens”.

Assim, nenhuma comunidade indígena fornecia cativos regularmente aos portugueses, como acontecia nas redes internas de tráfico na África.
A cultura indígena era baseada essencialmente na vingança e, dessa forma, a captura do inimigo não tinha fins lucrativos.
Ao contrário dos povos africanos, que construíam reinos estruturados com base no comércio negreiro com os estrangeiros.
Ainda segundo Alencastro, autor da obra O trato dos viventes – formação do Brasil no Atlântico Sul, as leis editadas pela Coroa Portuguesa estabeleciam três tipos de apropriação dos indígenas: os resgates, os cativeiros e os descimentos.
Os resgates consistiam na negociação de índios prisioneiros.
Assim quem os comprasse da tribo rival além de livrá-los da morte teria o direito de utilizar seus trabalhos em até dez anos.
Os cativeiros eram índios obtidos através de uma “guerra justa” entre certas etnias, esses prisioneiros se tornavam escravos por toda a vida.
Os descimentos referiam-se ao deslocamento forçado dos índios para aldeamentos estabelecidos pelos europeus, onde os índios eram misturados e assentados, na maioria das vezes com o objetivo de proteção dos portos contra os estrangeiros (holandeses e ingleses principalmente) e dos ataques dos índios do interior que eram contra a ocupação portuguesa.
Quando libertos, os índios desses aldeamentos só podiam ser utilizados mediante a obtenção de um salário.
Apesar da existência dessas leis, o colonato abusava da utilização do trabalho indígena ignorando os direitos dados a eles pelo reino e pelo cristianismo.
Por este motivo, a mão-de-obra escrava indígena era comumente utilizada e os seus direitos eram negados, sendo apenas formalmente livres.
Porém, a permanência destes nos cativeiros e aldeamentos se tornou um problema para os colonos, pois eles costumavam fugir com facilidade devido ao conhecimento que tinham das regiões.
Outro problema recorrente era o pagamento do salário dos índios alugados e a própria escassez dos mesmos.
Já os escravos africanos sempre foram legitimados como posse, como um bem adquirido pelo comprador que poderia utilizá-lo como bem o quisesse.


Os problemas do trabalho indígena: as questões religiosas e biológicas.
Desde a “descoberta” do Brasil pela frota de Cabral em 1500, a percepção que os portugueses tinham dos nativos era a de um povo ingênuo, livre de pecados, mas que por terem hábitos “estranhos” precisavam da salvação através da fé católica.

Como Pero Vaz de Caminha aponta na carta do descobrimento enviada ao rei português D. Manuel: “(...) Contudo, o melhor fruto que dela [a terra] se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar” [2].

Assim, a expansão comercial marítima portuguesa, que visava lucros para a Coroa, tinha também como objetivo a propagação da fé católica.

E no período colonial essa propagação deveria se estender aos índios de todo o território brasileiro.


Sendo assim, a Igreja Católica defendia os índios porque acreditava que estes possuíam almas, e que por se tratarem de pessoas “puras”, que andavam nuas sem nenhuma maldade, precisavam ser ensinados e doutrinados dentro da religião cristã.
Os negros, por sua vez, tinham as suas religiões severamente reprimidas.
Dessa forma, o trabalho escravo indígena utilizado por muitos colonos encontrava forte oposição dos clérigos.
Por outro lado, a compra dos africanos trouxe um grande benefício para os senhores de engenho, pois trazidos da distante África não teriam chance de voltar às suas terras e estariam assim presos a uma nova terra totalmente desconhecida.
E a união de escravos negros para o planejamento de fugas seria também muito difícil já que muitos eram oriundos de tribos diferentes.
Outro fator relevante que facilitou a escravidão negra foram as freqüentes doenças que muitas vezes provocavam a mortandade dos nativos.
A derrubada do mato e o avanço dos canaviais facilitaram a proliferação dos mosquitos e das febres; a má alimentação e o contato com negros e europeus também contribuíram para ampliar a instauração de doenças, bem como a introdução de bois, cavalos e outros animais domésticos que transmitiam sarampo, gripe, bicho-de-pé, brucelose e varíola bovina até então desconhecidas pelo organismo indígena.
Entretanto, muitos africanos haviam adquirido imunidade às doenças. Sendo assim, “(...) mais baratos que os africanos, os índios escravos acabavam saindo mais caros porque morriam em maior número” (ALENCASTRO, 2000, p.137).
Dessa maneira, a mão-de-obra africana era mais rentável, principalmente para os senhores de engenho que precisava de uma força de trabalho maior na lavoura.
A descoberta do ouro permitiu também que muitos senhores enriquecessem e pudessem assim abandonar o difícil trabalho de conseguir e manter índios nos cativeiros e passaram a comprar africanos.
Assim, os entrepostos comerciais localizados no litoral africano passaram a intensificar o tráfico negreiro para a América.
Medida que favoreceu o governo português, ampliando o controle metropolitano sobre a colônia, pois, a partir disso, os senhores de engenho passam a depender do tráfico negreiro (liderado pelos comerciantes portugueses) para obter escravos africanos.


Concluindo.
A partir disso, podemos concluir que a introdução de escravos africanos no Brasil serviu para aumentar a produtividade da economia colonial.

Pois, ao contrário dos africanos, os índios tinham as sua resistência abalada pelas doenças trazidas pelos estrangeiros, e isso acabava fazendo-os menos adeptos ao trabalho escravo (talvez daí tenha surgido a sua fama de preguiçoso).

Outros fatores que agravavam o escravismo indígena era o conhecimento que o índio tinha do território, aumentando assim a probabilidade de fuga, e a relativa proteção que Igreja Católica dava aos nativos.
A prática da utilização da mão-de-obra escrava indígena esbarrava também na dinâmica do capital mercantil, que tinha como base o tráfico negreiro.
E a questão da falta de população para povoar o território brasileiro e concretizá-lo como posse portuguesa foi resolvida pela implantação dos negros na terra, pois a Europa estava com um déficit populacional devido à peste.
Assim, o território brasileiro era povoado e isso evitava as ameaças que os invasores faziam para a Coroa portuguesa.
E para a Igreja, a evangelização dos índios também se mantinha sem ameaças com o escravismo africano.
Dessa forma, a escravatura no Brasil foi marcada pela complexidade nas relações entre dominadores e dominados e pelo conflito de interesses.
Os lucros do contrabando de famílias inteiras transformadas em escravos contribuíram para o sucesso econômico dos impérios coloniais, que apesar de toda a sua religiosidade não hesitaram em comercializar e se beneficiar do trabalho compulsório negro.
São evidentes as conseqüências dos maus tratos recebidos pelos escravos, pois mesmo quando já estavam livres do destino de escravidão no Brasil, a dolorosa experiência que tiveram jamais se apagará com o tempo.
E a condição de selvagens caracterizada pela inferioridade em relação ao branco se manteve no preconceito da sociedade, e até mesmo hoje em dia podemos ver os reflexos e a predominância desse preconceito em diversas situações do cotidiano.
Entretanto, a contribuição dessas duas etnias (não excluindo os portugueses) foi essencial tanto para a formação da população da época quanto para a formação da nossa cultura.
Percebendo isso, a noção de hierarquia entre "povos, cores e credos" não fará mais sentido nenhum, principalmente para os jovens da nossa sociedade que têm dificuldade em aceitar o outro, em aceitar tudo o que lhe é diferente.

Para saber mais sobre o assunto.
ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes – formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
CARDOSO, Ciro Flamarion. “Algumas polêmicas teóricas e interpretativas” In: A Afro-América: a escravidão no novo mundo. São Paulo: Brasiliense, 1982.
HOLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História Geral da Civilização Brasileira. 7 ed. São Paulo: DIFEL, 1985.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.
PRADO JR., Caio. “Sentido da Colonização” In: Formação do Brasil contemporâneo (Colônia). São Paulo: Brasiliense, 1976.
PRADO JR., Caio. “Caráter Inicial e Geral da Formação Econômica Brasileira” In: História Econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1986.
Texto: Profa. Adriana Costa.
Licenciada em História pelo Centro Universitário Metodista do Sul IPA.

[1] O atual conceito utilizado é etnia, que tem como objetivo evitar preconceitos e a noção de hierarquia entre os povos e as diferentes manifestações culturais.
[2] A Carta, de Pero Vaz de Caminha. Disponível em: http://www.culturabrasil.org/zip/carta.pdf

quarta-feira, 26 de março de 2014

Câmara devolve mandatos de Djalma Maranhão e Luís Gonzaga dos Santos

  Iniciativa corrige injustiça histórica contra a democracia.

A Câmara Municipal de Natal realiza no próximo dia 3 de abril (quinta-feira) uma Sessão Solene para a entrega de certificados de diplomação “in memoriam” às famílias do Prefeito e Vice-Prefeito de Natal, Djalma Maranhão e Luís Gonzaga dos Santos, devolvendo de forma simbólica os mandatos cassados pela ditadura militar aos mesmos. A solenidade ocorre às 18:30 horas no plenário da Casa Legislativa. Na sexta-feira (4) às 10 horas haverá também o descerramento de uma Placa alusiva ao ato no Salão Nobre da Prefeitura de Natal. O dia 3 de abril de 2014 foi escolhido por ocasião do aniversário de 50 anos do impeachment e cassação dos mandatos de Djalma e seu vice.
 
De autoria do vereador George Câmara (PCdoB), a resolução Nº 404/2014 reconheceu como atos antidemocráticos e injustos a decretação do impeachment e a cassação dos mandatos e direitos políticos do Prefeito e Vice-Prefeito de Natal, Djalma Maranhão e Luís Gonzaga dos Santos durante o golpe militar em 1964. A resolução foi aprovada por unanimidade pelos 29 vereadores da Casa no dia 20 de fevereiro.
 
Segundo George, a iniciativa anulou a decisão da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Natal ocorrida no dia 3 de abril de 1964 devolvendo (in memoriam) os mandatos de Djalma Maranhão e seu vice durante o período da ditadura militar no Brasil. "Os 21 vereadores que faziam parte da legislatura que cassou o prefeito e seu vice fizeram um documento na época afirmando que não havia ocorrido pressão pela aprovação do impeachment, quando todos sabiam da pressão e influência dos militares. Foi uma grande mentira, uma farsa montada", explicou George Câmara.
 
Ainda de acordo com o vereador, a iniciativa repudia a decisão tomada por aqueles vereadores quando aprovaram o decreto que acatava os argumentos do Exército Brasileiro: que o Prefeito e o Vice-Prefeito de Natal, sendo comunistas, estavam impedidos de exercer seus mandatos. “Como forma de corrigir essa injustiça histórica, os nomes de Djalma Maranhão e Luís Gonzaga dos Santos, eleitos democraticamente, serão inscritos nos anais da Câmara Municipal, bem como, na sede da Prefeitura, como dignos representantes dos cidadãos natalenses”, coloca George.

Como surgiu o termo "BAITOLA"

Por Heitor Feitosa Macêdo
FONTE: http://estoriasehistoria-heitor.blogspot.com.br/2013_07_09_archive.html 
         Às vezes uma palavra é suficiente para denunciar um costume secular, escondido entre práticas completamente adversas, contrárias, antípodas, em negativas subconscientes de certos hábitos. É exatamente nesse contexto que se põe o termo “baitola”, frequentemente propalado pelos sertões nordestinos.
         Essa designação é comum no Ceará, o que não significa que tal expressão tenha sido gestada unicamente nessa parte do Nordeste, pois se observa o uso desse vocábulo também em regiões circunvizinhas. Além disso, a etimologia aponta relativa generalidade do termo no território brasileiro. Somando-se a tudo isso a antiga e frequente prática da homossexualidade.
         Num retrospecto bíblico encontra-se desabrida condenação à prática do coito anal, tendo Deus aspergido uma chuva de enxofre sobre Sodoma e Gomorra, matando seus habitantes carbonizados. Pobres sodomitas que morreram pelo amor e pelo "mau" uso de seus orifícios! Então, num mundo sustido na religião monoteísta, pela qual o Ocidente fora dominado, é bastante natural a aplicação de sanções a esse “nefando pecado”.
         Porém, para que não se perca, voltando mais um pouco no tempo, veem-se os gregos e romanos, gente que gozava da virilidade de mancebos enquanto escrevinhavam seus tratados de filosofia. Esses cultores de rapazes do mesmo sexo legaram aos tempos modernos inestimáveis compêndios científicos, que por muito tempo foram suprimidos pela Igreja, pois, afinal, tratavam-se de ideias criadas em seio politeísta.
         O homem quinhentista, ao desembarcar na terra de pindorama (terras das palmeiras, como era chamado o Brasil pelos índios), trazia em sua bagagem os mesmos tabus da Idade Média, temendo o fogo da inquisição pela impudicícia.
         Essa sociedade “genitalizada” e teoricamente monogâmica disseminou-se pelos sertões, incluindo os do Nordeste. A família formava a célula desse corpo social, cabendo ao pater familias decidir sobre os destinos da sua propriedade, ou seja, além dos bens imóveis, a mulher, os filhos e os escravos.
         Ao patriarca era dado o desfrute de possuir “de fato” quantas mulheres lhe aprouvesse, impondo-se a monogamia unicamente à classe feminina. Quantos aos filhos, cabia também ao chefe da família escolher-lhes a sorte, mesmo aos rebentos varões, ditando qual seria assexuado, seguindo a vida sacerdotal; e reservando às filhas casamentos escolhidos, geralmente, entregando-as ainda pré-adolescentes a outros velhos ricos.
         Rodeado de mulheres escravas, negras ou índias, incluindo-se as cunhãs surripiadas das aldeias pelas chamadas guerras justas, o patriarca geria verdadeiro harém. Muitos ficaram célebres por esse seu poder procriador, havendo destaque para Jerônimo de Albuquerque, apelidado de o Torto, por perder um olho em luta com os índios. Esse indivíduo teve 26 filhos, por isso ser também chamado de o “Adão pernambucano”[1].
         Jerônimo de Albuquerque viveu maritalmente com a índia Maria do Espírito Santo Arco Verde (filha do cacique Ubiraubi - Arco Verde), nascendo dessa união Catarina de Albuquerque (a Velha), a primeira filha do casal e a mais amada pelo pai.
         Catarina casou-se com um fidalgo florentino, Felipe de Cavalcante, que havia migrado da Itália por sofrer perseguição da poderosa família Médice.[2] Então, veio ele residir na Capitania de Pernambuco, deixando numerosa prole, da qual descende quase toda população nordestina, não sendo exagero afirmar que a maioria das famílias brasileiras possui alguma gota de sangue desse notável patriarca.
          Esses descendentes de Felipe e Catarina se lançaram ao sertão, espalhando-se pelos quatro ventos, e legando à atualidade as populações desses rincões. Destaque-se que os Cavalcante desmembraram-se em outras famílias, quase sempre aristocráticas, as quais, por muito tempo, ostentaram riqueza e valentia, inclusive no semiárido.  
         Porém, contrastando com o estereótipo sertanejo, Felipe carregava hábitos discrepantes aos institucionalizados pela tradição dos rudes moradores da caatinga. Isso pelo fato de o dito fidalgo ser acusado perante o Tribunal do Santo Ofício por sodomia, sendo denunciado por Belchior Mendes de Azevedo.[3]
         A sodomia era tratada por “pecado nefando”, e os dicionários mais antigos não a especificam, simplesmente registrando sua significação da seguinte forma: “Pecado, por antonomásia, nefando, e por consequência indigno de definição por sua torpeza”.[4] Mas, o que seria nefando?
         Segundo o velho dicionário de Bluteau, nefando é coisa indigna de exprimir com palavras, coisa da qual não se pode falar sem vergonha. O mesmo autor remete o pecado nefando, o de sodomia, ao demônio Incubo ou Sucubo, que ora serve de homem, ora de mulher.[5] Mas, como é sabido, trata-se da conjunção sexual anal, entre homem e mulher ou entre dois homens.
         Diz Gilberto Freyre[6] que os filhos família (filhos dos fazendeiros) muitas vezes iniciavam sua vida sexual com os moleques (filhos dos negros escravos), companheiros de brinquedos, sendo estes também chamados de “leva pancadas”, pois, frequentemente, eram vítimas de brincadeiras sádicas dos senhorzinhos.
         Ressalte-se a miscigenação do “tipo brasileiro”, já que é eticamente errado falar em raça, uma verdadeira mistura de brancos, negros e índios, sendo que estes últimos (os ameríndios) também não ficaram alheios à prática do amor sáfico ou socrático, ou seja, entre eles também houve homossexualismo.
         Os indígenas estavam organizados uma em sociedade “gerontocrática” [7], onde os mais velhos exerciam influência sobre as deliberações do restante da tribo. E, sendo a guerra uma constante entre aqueles povos, o homem adulto era mais valorizado do que as crianças e mulheres.[8] A masculinização era uma necessidade.
         Em regra, os chefes tupis possuíam mais de uma mulher, registrando-se 13 esposas para Cunhambebe e 34 para Amendua.[9] Entretanto, essa virilidade era posta a prova durante o desenvolvimento dos indivíduos mais jovens, que passavam de mitã a culumim-mirim, depois a culumim-guaçu,[10] até chegar a avá e tujuáe.[11]
         Nas fases iniciais, os jovens eram postos em compartimentos privativos aos homens, onde passavam por rituais secretos. Esse ambiente era chamado de “Baito”, que, segundo Gilberto Freyre, era “uma espécie de lojas de maçonaria indígena”.[12]  Os índios praticavam a pederastia sem ser por escassez ou privação de mulher, quando muito, pela influência do período de internato nessas casas secretas.[13]
         Entre os gentios do sexo masculino, deitar com as tias, irmãs e filhas não lhes causava nenhum embaraço, e muito menos os constrangia copular com outros machos. Sobre essa luxúria, diz Gabriel Soares de Sousa que muitos índios morriam exaustos de tanto fornicarem, além disso, eles aumentavam o órgão fálico com os pelos de um bicho peçonhento, tornando suas genitálias inchadas e disformes, ademais, assevera o autor que alguns valentes índios se gabavam por se servirem de outros homens, havendo nos sertões “alguns que têm tenda pública a quantos os querem como mulheres públicas”.[14]
         Frise-se que a homossexualidade não se restringia aos homens, existindo também mulheres que faziam as vezes de varões, como fora observado por Gandavo[15]:

Algumas índias a que também entre eles determinam de ser castas, as quais não conhecem homem algum de nenhuma qualidade, nem o consentirão ainda que por isso as matem. Estas deixam todo o exercício de mulheres e imitam os homens e seguem seus ofícios, como se não fossem fêmeas. Trazem os cabelos cortados da mesma maneira que os machos, e vão à guerra com seus arcos e flechas, e à caça perseverando sempre na companhia dos homens, e cada uma tem mulher que a serve, com quem diz que é casada, e assim se comunicam e conversam como marido e mulher.         
         
        Muitas etnias ameríndias habitaram o território cearense, inclusive os tupis, sob o nome de Tabajaras, moradores no litoral da Capitania. Outro tanto de índios residia no interior, chamados genericamente de tapuias, ou seja, contrários aos tupis, índios bravios ou de língua travada (que não falavam a língua geral, o tupi-guarani), figurando entre eles os Cariús, Jenipapos, Cariris, Jucás, Icós, Canindés etc.
         O intercurso racial resultou numa aculturação, isto é, na formação de uma cultura híbrida, sendo a palavra “baitola” uma dessas reminiscências. Algumas versões folclóricas tentam explicar o étimo de tal expressão, contudo, terminam em suposições jocosas e insustentáveis.
Em verdade, “baitola” ou “baitolo” deriva do termo indígena supramencionado, “baito”, recinto reservado aos jovens, com o acréscimo do sufixo “la” ou “lo”, certamente um hibridismo provindo da língua portuguesa, pois a fonética gentílica desconhecia o som da letra “l”. Cabe destacar que uma variante tupi para baito é “baité”, desmembrando-se em “mbaé”, aquele que é, e “ité”, frio, discordante.[16]  
No Ceará, ainda hoje, também é comum ouvir-se o termo “baitinga”[17], cuja etimologia concerne a “baito”, com o acréscimo de “tinga” (branco), constituindo outra remissão índia aos indivíduos homoafetivos de cor branca.
Talvez a discussão a respeito da etimologia de uma palavra dessa natureza pareça algo insignificante. Porém, representa uma das principais consequências do etnocídio acometido aos povos indígenas, pois o uso da língua bugre fora veemente proibido, inclusive em muitas aldeias, e oficialmente banido pelo Marquês de Pombal em 1758.
 É necessário dizer que uma palavra pode ir além das definições aduzidas pelos dicionários, como a expressão em comento, que ultrapassa a sua literalidade jocosa e discriminante, para alcançar importantes fatos históricos, a partir de sua etimologia e da variação semântica no decorrer do tempo.   
         Desta feita, vê-se que, talvez, inexista brasileiro que não possua um “gay” na família, mesmo que seja um tataravô da era colonial. Não ficando de fora os brancos, nem mesmo os negros, e quanto aos índios, são estes, indubitavelmente, os precursores dos baitolas de verdade.   
A outra versão diz o seguinte:
velha locomotivaA palavra "baitola" surgiu no Ceará, nas primeiras décadas do século 20, por volta de 1913, quando chegou ao Ceará o inglês de nome Francis Reginald Hull, o conhecido Mr. Hull (pronuncie-se mister ráu), que deu o nome a uma famosa avenida na cidade de Fortaleza-CE. Mr Hull fora designado superintendente de uma Rede Ferroviária no Ceará e passou, em muitas situações, a fiscalizar algumas obras de construção e reparo na própria Ferrovia.
Mr Hull era homossexual assumido. Quando ia pronunciar a palavra "bitola", que significa a distância entre dois trilhos, pronunciava "baitola". Quando ele se aproximava de onde estavam os trabalhadores, estes, que não gostavam do modo como eram tratados pelo chefe, diziam: "Lá vem o baitola, lá vem o baitola". A partir daí passou-se a associar a palavra baitola ao homossexualismo.
        
BIBLIOGRAFIA:
Bluteau, D. Raphael, Vocabulario Portuguez e Latino, Coimbra/Portugal, Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712.

Clerot, Leon F.R., Glossário Etimológico Tupi/Guarani, 1ª Reimpressão, Brasília - DF, Edições do Senado Federal, 2011.

Fernandes, Florestan, A função social da guerra na sociedade tupinambá, São Paulo, Editora Globo, 2006.

Fonseca, Antônio José Vitoriano Borges da, Nobiliarquia Pernambucana, Volume I, Rio de Janeiro, Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1935.

Freyre, Gilberto, Casa – Grande & Senzala, 18ª Ed., Editora José Olímpio, Rio de Janeiro, 1977.

Gandavo, Pedro de Magalhães, Tratado da Terra do Brasil, Brasília - DF, Edições do Senado Federal, 2008.

Seraine, Florival, Revista do Instituto do Ceará, Tomo LXIV, Ano 1950.

Sousa, Gabriel Soares de, Tratado Descritivo do Brasil em 1587, São Paulo, Ed. Hedra, 2010.    



[1] Freyre, Gilberto, Casa – Grande & Senzala, 18ª Ed., Editora José Olímpio, Rio de Janeiro, 1977, p. 278.
[2] Fonseca, Antônio José Vitoriano Borges da, Nobiliarquia Pernambucana, Volume I, Rio de Janeiro, Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 1935, p. 208.
[3] Freyre, op. cit., p. 321.
[4] Bluteau, D. Raphael, Vocabulario Portuguez e Latino, Coimbra/Portugal, Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712, p. 688.
[5] Ibidem, op. cit., p. 698.
[6] Freyre, op., cit., p 50.
[7] Fernandes, Florestan, A função social da guerra na sociedade tupinambá, São Paulo, Editora Globo, 2006, p. 204, 190 e 289.
[8] Ibidem, op. cit., p. 206.
[9] Ibidem, op. cit., p. 271.
[10] Ibidem, op. cit., p. 196 e 197.
[11] Ibidem, op. cit., p. 188 e 189.
[12] Freyre, op. cit., p 118 e p. 136.
[13] Ibidem, op. cit., p. 119.
[14] Sousa, Gabriel Soares de, Tratado Descritivo do Brasil em 1587, São Paulo, Ed. Hedra, 2010, p. 299.
[15] Gandavo, Pedro de Magalhães, Tratado da Terra do Brasil, Brasília - DF, Edições do Senado Federal, 2008, p. 136.
[16] Clerot, Leon F.R., Glossário Etimológico Tupi/Guarani, 1ª Reimpressão, Brasília - DF, Edições do Senado Federal, 2011, p. 87.
[17] Seraine, Florival, Revista do Instituto do Ceará, Tomo LXIV, Ano 1950, p. 10.

Notícia interessante para os genealogistas do Nordeste

DOCUMENTOS INÉDITOS: V - Confirmação da Patente do Sargento-mor Leandro Custódio de Oliveira Castro
                                                                                             
Heitor Feitosa Macêdo
        
        
             O Sargento-mor Leandro Custódio de Oliveira Castro migrou para o Ceará no final do século XVIII, onde se alocou definitivamente, constituindo numerosa família e adentrando na vida militar, servindo como oficial nas chamadas Ordenanças.
         A oralidade é sobeja de historietas no que tange ao Leandro Custódio de Oliveira Castro, inclusive quanto a sua chegada aos sertões do Ceará, mais precisamente, nos Inhamuns, onde deixou rico folclore ao seu respeito.
         Leonardo Feitosa foi o primeiro a registrar, em letras, os contos narrados pela tradição. Um desses, interessantíssimo, refere-se à origem de Leandro. Assim, disse o “velho contador de histórias” que Leandro Custódio de Oliveira Castro, o primeiro desse nome, viera do Rio Grande do Norte para o Ceará, porque lá teria maculado a honra de uma parenta.
         Conta-se que o pecado cometido pelo “potiguar” teria sido o fato de ter engravidado uma prima, em desconformidade com as leis eclesiásticas, recusando-se a reparar o dano. A ofendida, Ana Tereza da Anunciada,[1] entregara seu corpo sob a falsa promessa de casamento, o qual foi esperado por algum tempo. Frequentemente, Ana Tereza ia até a cadeia onde Leandro cumpria pena, e perguntava-lhe se já resolvera casar, ao que o contumaz “deflorador” respondia “não”.
         Depois do nascimento da criança, ante as negativas de Leandro em ceder àquela obrigação, Ana Tereza voltava à sua casa insatisfeita, momento em que mirava o seu inocente filho, cantando:

Quero-te bem,
Quero-te ódio,
Por seres filho
De Leandro Custódio.[2]
            
      Algum tempo depois, Leandro resolvera casar-se com a prima, mas ela já havia mudado de ideia, recusando-o como marido. Na verdade, Ana Tereza possuía um gênio forte, de uma índole inquebrantável.
         Depois disso, veio Leandro bater no sertão cearense dos Inhamuns. Certamente a amizade ou o parentesco determinaram essa escolha, sendo o verdadeiro motivo ainda hoje ignorado.
         No seu novo domicílio, arranjou um casamento rentável, com uma noiva rica e literalmente “bem aparentada” (no sentido do parentesco). A nubente chamava-se Eufrásia Alves Feitosa, filha do Capitão José Alves Feitosa, dono da Fazenda Várzea da Onça.
         Na época, o costume era de que as mulheres contraíssem matrimônio ainda muito jovens, e, não raramente, casavam-se durante a fase da puberdade. Assim, a esposa de Leandro possuía, na data do enlace, catorze anos.[3] Diz o assentamento eclesiástico:

Aos vinte dias do mês de novembro do ano de oitenta e nove (1789) na capela do Cococi [...] receberam-se em casamento Leandro Custódio de Oliveira (Castro), natural da Freguesia de Igarassu, com D. Eufrásia Alves Feitosa, natural da Freguesia de Arneiroz [...] Manuel da Costa Gadelha – Cura de Arneiroz.[4]
            
     Desse matrimônio nasceram dez filhos, aos quais se juntou o primogênito de Leandro, o pequeno Leandrinho (Leandro Custódio Bezerril) que ficara residindo com a mãe, Ana Tereza, nas terras do Rio Grande do Norte.
         Anos depois de alocar-se no Ceará, Leandro Custódio resolvera fazer uma visita aos parentes na sua terra natal, levando consigo a esposa Eufrásia, e, premeditadamente, pediu a esta que, chegando ao Rio Grande, solicitasse a guarda do filho de Ana Tereza.
         Atendendo ao pedido de Eufrásia, Ana Tereza entregou-lhe a criança, entretanto, destacou que dava o filho a Eufrásia e nunca o faria em favor de Leandro, por ser ele “muito ruim”.[5] Desta forma, retornara o casal ao Ceará trazendo o pequeno Leandro Custódio Bezerril.
         Os descendentes de Leandro Custódio de Oliveira Castro e Eufrásia Alves Feitosa foram:[6]
1 - Coronel Lourenço Alves de Castro c/c D. Lusia Alves Feitosa e Vale, filha do Major José do Vale Pedrosa;
2 - Capitão Francisco Alves de Castro c/c Bárbara Alves Feitosa, filha do Alferes Jacinto de Morais Rego;
3 - Bernardo Freire de Castro Jucá c/c D. Antonia Joana Cedrim, filha do português Francisco Pereira Maia Guimarães e Maria Isabel da Penha[7];
4 - D. Ana de Castro (Donana da Cajazeira) c/c José de Sousa Rego, dono da Fazenda Cajazeira, filho do Capitão Vicente Ferreira de Sousa;
5 - Leandro Custódio de Oliveira Castro (o segundo com este nome) c/c D. Maria, filha de José de Sousa Rego. Leandro fora assassinado por José do Vale Pedrosa (o Nô);
6 - Capitão José Alves de Castro (da Fazenda Cruz); em 1as núpcias c/c D. Benedita (filha do Major José do Vale Pedrosa); em 2as núpcias c/c Ana Pereira (neta de Teodósio, tronco da família Lô do Estreito);
7 - Leonarda Alves do Vale c/c José Alves de Araújo Feitosa, filho do Capitão Leonardo de Araújo Chaves;
8 - D. Joana c/c Coronel Pedro Alves Feitosa e Vale, da Fazenda Papagaio, filho do Major José do Vale Pedrosa;
9 - D. Maria Madalena de Castro c/c Capitão Pedro Alves Feitosa, da Fazenda Cococá, filho de Eufrásio Alves Feitosa, da Fazenda Estreito;
10 - D. Antonia Cândida de Castro c/c Felix Manoel de Morais Rego, filho de Alberto de Morais Rego, morador no Apodi/RN, e neto paterno do Capitão-mor Pedro de Sousa Rego.


1. Onde Nasceu Leandro Custódio de Oliveira Castro?
           
       A tradição oral e muitos documentos apontavam que Leandro Custódio de Oliveira Castro teria como naturalidade o Rio Grande do Norte. Todavia, com o aparecimento de outras fontes, descobriu-se que ele nascera em Pernambuco.
         Inquestionavelmente, Leandro, antes de chegar ao Ceará, estava domiciliado no Rio Grande do Norte, na Fazenda de Tamatanduba, que faz divisa com a Fazenda Cunhaú, antigas propriedades dos Albuquerque Maranhão.[8]
         Em 21 de julho de 1871, um dos netos de Leandro, o ex-deputado estadual Padre Francisco Máximo, declarou em seus Autos de Ordenação que seu avô era natural do Rio Grande do Norte, nos seguintes termos:

O clérigo Francisco Máximo Feitosa e Castro, seminarista desta diocese, natural e moradores na Freguesia do Cococy, filho legítimo de Lourenço Alves de Castro e de Lusia Alves Feitosa e Valle naturais da mesma Freguesia do Cococy; neto paterno de Leandro Custódio D’ Oliveira Castro Natural da Freguesia de Tamatanduba no Rio Grande do Norte (do Bispado de Pernambuco), e de Eufrásia Alves Feitosa natural da Freguesia de Arneirós deste Bispado, e ambos já falecidos; neto materno de José Do Valle Pedrosa, e Anna Gonçalves Vieira Mimosa, ambos da Freguesia do Cococy e já fallecidos; desejando ascender a ordens menores sacras até presbytero para o que deve previamente habilitar-se de vita et moribus vem rogar a Vossa Exelência  Reverendíssima se digne admitil-o a referida habilitação mandando proceder nas diligências do estylo até final sentença.[9]
            
        Apesar de tudo isso, os documentos paroquiais evidenciam que a naturalidade de Leandro era mesmo Pernambuco, mais especificamente, Igarassu. Essa afirmação é repetida em vários assentamentos, como o foi no de seu casamento (supracitado) e no de batismo de seu filho, Francisco:

Aos dois dias do mês de novembro do ano de noventa e hum (1791) na capela do Cococi filial a esta matriz de Arneiroz, batizei e pus os santos óleos em Francisco, filho legítimo de Leandro Custódio de Oliveira (Castro), natural da Freguesia de Igarassu e de D. Eufrásia Alves Feitosa, natural da Freguesia de Arneiroz; neto paterno de Bernardo de Castro Pereira, natural de Goianinha Freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres e de Dona Joana da Conceição natural de Igarassu; neto paterno de José Alves Feitosa e de Dona Maria Madalena, já defunta, naturais de Arneiroz, nasceu em quinze de setembro do mesmo ano, foram padrinhos o Sargento-mor Francisco Alves Feitosa e D. Maria Alves Feitosa mulher do Alferes Francisco Alves Feitosa de que fiz este assento em que me assino – Manuel da Costa Gadelha, Cura de Arneiroz.[10]
            
      Portanto, não resta dúvida quanto ao lugar de origem do Sargento-mor Leandro Custódio de Oliveira Castro, no caso, Igarassu/PE. No entanto, presume-se que Leandro tenha transferido seu domicílio para o Rio Grande do Norte (Tamatanduba), por motivos ainda desconhecidos.

2. Um dos Legados de Leandro: Sobrenomes
            
      A família a qual Leandro se unira através do casamento era numerosa, com uma parentela quase infinda. A maioria dessa gente tinha o hábito de casar-se dentro do mesmo clã, ou seja, praticavam a endogamia. Uma dessas consequências, além dos defeitos genéticos, era a repetição dos nomes e sobrenomes, sendo comum os Francisco, os Lourenço, “Manuéis” etc., seguidos  dos patronímicos “Alves Feitosa”, invariavelmente.
         Essa homonímia resultava em confusões, dificultando a identificação dos membros desta grei, sendo isso remediado pela técnica de remeter o nome do indivíduo ao lugar de sua residência, uma fazenda, por exemplo, dizendo-se: José Alves Feitosa da Várzea da Onça[11] para distingui-lo de seu primo José Alves Feitosa de Santana.[12]
          Outro método era o uso do substantivo militar de alferes, sargento-mor, major, capitão, capitão-mor. Mas isso só funcionava até que alguém, homônimo, alcançasse a mesma patente, quando se recorria novamente à distinção toponímica, ligada ao domicílio.
         As famílias ricas e afidalgadas do sertão casavam-se, nas palavras de João Brígido, “como os gados, quase os pais com as filhas, tudo por amor dos haveres”.[13] Entre os Feitosa não era diferente, unia-se o primo com prima e tio com a sobrinha. Contudo, excepcionalmente, realizaram-se nos dois primeiros séculos poucos casamentos fora da parentela.
         O casamento de Eufrásia com Leandro Custódio de Oliveira Castro constou entre essas exceções. Tal enlace ampliou o número possível de combinações dos nomes de família, que passaram a adotar, com maior frequência, os sobrenomes “Oliveira” e “Castro”.

2.1. O Sobrenome “Jucá”
            
     Leandro Custódio batizou um de seus filhos com um sobrenome inédito, “Jucá”. Homenageando seu pai, chamou a criança de Bernardo Freire de Castro Jucá. E a razão que o levou a usar esta denominação (Jucá) é explicada, por alguns, como uma forma de Leandro também prestar cortesia aos índios habitantes dos Inhamuns.
         Não parece ser uma assertiva sensata, pois, naqueles tempos, o índio era tratado como coisa, e não na categoria de gente. Havendo verdadeira aversão às práticas indígenas, desde as danças e cânticos até o hábito de pilhagem, principalmente dos gados. Afinal, os moradores dos Inhamuns eram criadores, e os índios eram uma ameaça, exceto aqueles que estavam abrigados nas Missões ou absorvidos pela civilidade.
         Outra versão para explicar o motivo que levou Leandro a batizar seu filho com o inusitado sobrenome, “Jucá”, encontra embasamento no fato de ele residir na Fazenda Cruz, à margem do Rio Jucá.
         Paralelamente, é comum na vegetação da caatinga inhamunsense haver uma pequena árvore denominada de jucá (ou pau ferro, por sua rija natureza). Essa palavra, de origem indígena (Jucá), significa “matar”, sendo bastante comum observá-la, alhures e algures, funcionado como nome próprio, “Juca”, com acento tônico na primeira sílaba, “jú”.
         Talvez, a verdadeira razão que levara Leandro a batizar seu filho com o dito sobrenome nunca seja respondida, porém, o que importa é que esse patronímico vingou, espalhando-se ao longo das gerações, hoje, existindo em todo o país.

2.2. Os Sobrenomes “Bezerril” e “Bizarria”
            
     Como ficou dito, o filho primogênito de Leandro chamava-se Leandro Custódio Bezerril, e veio morar com o pai no Ceará, onde também findou casando dentro da família Feitosa, com Josefa, filha de Francisco de Holanda Cavalcante.[14]
        Não havia uma regra muito rígida para o uso dos sobrenomes, consequentemente, existindo variações para se escrever um mesmo patronímico. Assim, Bezerril corrompeu-se em Bizarria,[15] sendo este segundo nome o mais usado e propagado pelos descendentes de Leandro Custódio Bezerril, que também se assinava como Bezarril.[16]

3. A Carta Patente
            
     O posto de Sargento-mor das Ordenanças fora requerido por Leandro Custódio, havendo necessidade de o pedido ser confirmado no prazo fixado em lei, no caso, dois anos. O documento trás a carta patente e o pedido de confirmação da mesma.
                     Sem dúvida, a oportunidade de obter o dito posto fora obra do cunhado de Leandro, o Capitão-mor José Alves Feitosa, que havia sido nomeado para esta função depois da criação da Vila de São João do Príncipe (hoje, cidade de Tauá/CE).
         Existia uma estreita relação entre esses dois cunhados, inclusive no que respeitava aos negócios. Nesse sentido disse Leonardo Feitosa:

O sargento-mor Leandro Custódio tornou-se muito rico. Em certo ano fez ele um empréstimo interessante ao cunhado: tinha ele uma boiada pegada para marchar para a feira, quando o Capitão-mor José Alves Feitosa, que, às vezes, acarretara com grandes despesas de natureza urgente, se apresentou e pediu-lhe a boiada toda por empréstimo, e sendo atendido, mais tarde pagou-a na mesma moeda – uma boiada com igual número de bois.[17]
            
     Desta feita, faz-se oportuno apresentar a carta patente com o seu respectivo requerimento de confirmação, para o posto de sargento-mor das Ordenanças da Vila de São João do Príncipe. Cargo que não era pago com o soldo, mas com privilégios, isenções, graças e honras, conforme se ler, abaixo, no documento e em sua respectiva transcrição paleográfica.

Informe com o seu parecer o Governador Interino do Ceará juntando Copia da Ordens, que o authorizaỏ a creaçaỏ deste posto, e remetendo hum mapa da Povoaçaỏ desta Villa e seu Termo. Lx.a 22 de março de 1804.
[sete rubricas ilegíveis]
Senhor
Diz Leandro Custodio de Oliveira e Castro Sargento Mor das ordenansas da Villa novamente creada Denomenada Sáo [João] do Príncipe da Capitania do Ciará grande, que seno Nomiado pelo Governo Interino daquela Capitania no dito Posto como consta de sua Patente junta requer a V.A.R. queira Mandar passar lhe sua Carta Patente de confirmação na forma do Custume.
P// a V.A.R assim o queira Determinar visto estar secomcluindo o tempo na mesma Patente declarado p.a ser confirmada.
ERM
Como Procurador Antonio Jozé da S.a Coêlho
Os Governadores Interinos da Capitanîa do Seará Grande etc. Faze-Mos saber aos que esta Carta Patente virem, que attendendo a achar-se vago o Posto de Sargento Mór das Ordenanças da Villa de Sam Joáo do Principe, novamente criada, de que he Capitáo Mór Jozé Alves Feitoza e haver Nos sito Proposto pelos Officiaes da Camera da referida Villa com acistencia do mesmo Capitáo Mór em primeiro lugar a Leandro Custodio de Oliveira Castro, por concorrerem nelle os requizitos necessários; e por esperar-Mos delle que no exercio do mencionado Posto se haverá com zelo e honra, e muito como deve a boa confiança que de sua pessoa feze-Mos: Have-Mos porbem na conformidade das Reaes Ordens nomear ao dito Leandro Custodio de Oliveira e Castro, no Posto de Sargento Mór das Oredenanças da Villa novamente criada e denominada Sam Jóao do Principe de que he Capitaỏ Mór Jozé Alves Feitoza; como qual não haverá soldo algum, mas gozará de todas as honras; graças, privilégios, e izençoens, que directamente lhe pertencerem; e será obrigado a requerer a Sua Alteza Real o Principe Regente Nossa Senhor á confirmaçảo desta Patente dentro de dois annos contados da data desta como Determina a real Ordem de 22 de Maio de 1795: Pelo que Ordena-Mos ao dito Capitaó Mor por tal o reconheça, honra, e estima, e lhe confira a Posse e Juramento do estillo de que fará assento nas costas desta; e aos Officiaes e Soldados seos subordinados  lhe obideçảo, e cumpráo suas Oredens relativas ao Real Serviço como devem e sáo obrigados. Em firmeza do que lhe Manda-Mos passar a prezente por Nos assinadas e sellada com o Sello das Armas Reaes, que se registará na Secretaria deste Governo, e Vedoria Geral. Dada na Villa da Fortaleza do Seará aos onze dias do mez de Janeiro. Anno de Nascimeto de Nosso Senhor Jezus Christo de mil oito centos e três. Francisco Luiz de Mariz Sarmento Secretario do Governo a fiz escrever.
D.or Gregorio Joze da S.a Couto [rubrica]
O Capp.am Joze Henriques Pr.a [rubrica]
Luis Martins de Paula [rubrica]
Carta Patente pela qual VV.SSrias hão porbem nomear a Leandro Custodio de Oliveira e Castro no Posto de Sargento Mor das Ordenanças da Villa novamente criada e denominada Sam Joáo do Principe, pelos motivos nella declarados.
Para VV.SS.rias verem.  
Regd.a no Lv.o de Reg.o de patentes e Nomeaçỏes, que serve nesta Secretr.a do Gov.o V.a da Fort.a 13 de Janr.o de 1803/Francisco Luiz de Mariz Sarm.to [rubrica]
Deste Reg.to na Secretaria
Zs....................2$560Zs
Julio_ _ _ _ _ 32$000 [V]

Aos sette dias do mez de fevereiro do Anno do Nacimento de Nosso Senhór Jezus Cristo de mil oito sentos e seis dei pose e tomei o Juramento depreito e amenaje a liandro Custodio de Oliveira e Castro do posto de Sargento Majór das orden.ças da V.a de S. Joaó do Principe o que tudo fiz na forma do estillo dia cera Supra.
Jozé Al´z Feitoza [rubrica]
Cumpra-se, e Registre-se. Vedoria Geral do Seará em 15 de Janeiro de 1803/
[rubrica ilegível]
Req.da a fl 148 fv L.o 1º de Registro q serve [sem.es ?]: nesta Vedoria Geral V.a da Fort.a do Seará em 15 de Janr.o de 1803/
Emigdio Pinto de Vasconcellos [rubrica]




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Brígido, João, Ceará (Homens e Fatos), Fortaleza - Ceará, Edições Demócrito Rocha, 2001.

Cascudo, Luís da Câmara, A Casa de Cunhaú: História e Genealogia, Brasília, Edições do Senado Federal, 2008.

Feitosa, Aécio, Casamentos Celebrados nas Capelas, Igrejas e Fazendas dos Inhamuns (1756 - 1801) – História da Família Feitosa, Fortaleza - CE, 2009.

Feitosa, Leonardo, Tratado Genealógico da Família Feitosa, Fortaleza - CE, 2º Ed., Imprensa Oficial, 1985.

Lima, Lourival Maia, Os Mais, Crato - Ceará, Fundação Casa das Crianças de Olinda, 1982.


DOCUMENTOS:

Arquivo Histórico Ultramarino, Brasil - Ceará, 09 de março de 1803.

Departamento Histórico Diocesano Padre Antonio Gomes de Araújo (DHDPG), Crato - CE, Autos de Ordenação.
   




[1] Feitosa, Leonardo, Tratado Genealógico da Família Feitosa, Fortaleza - CE, 2º Ed., Imprensa Oficial, 1985, p. 86.
[2] Ibidem, op. cit., p. 87.
[3] Diz Leonardo Feitosa que Eufrásia nascera no ano de 1775, tendo se casado aos 14 anos de idade (in Feitosa, op. cit., p. 88).
[4] Feitosa, Aécio, Casamentos Celebrados nas Capelas, Igrejas e Fazendas dos Inhamuns (1756 - 1801) – História da Família Feitosa, Fortaleza - CE, 2009, p. 136.
[5] Feitosa, Leonardo, op. cit., p. 87.
[6] Ibidem, op. cit., p. 86.
[7] Ver: Lima, Lourival Maia, Os Mais, Crato - Ceará, Fundação Casa das Crianças de Olinda, 1982. Ver também os assentamentos de batismo de Nossa Senhora da Penha, no Crato - CE, pois consta nesses calhamaços o registro de nascimento de Antônia, em 07/12/1805.  
[8] Cascudo, Luís da Câmara, A Casa de Cunhaú: História e Genealogia, Brasília, Edições do Senado Federal, 2008, p. 23, 47, 84, 85, 96, 98 e 99.
[9] Departamento Histórico Diocesano Padre Antonio Gomes de Araújo (DHDPG), Crato - CE, Autos de Ordenação do Padre Francisco Máximo Feitosa e Castro.
[10] Feitosa, Aécio, op. cit., p. 137.
[11] Feitosa, Leonardo, op. cit., p. 27.
[12] Ibidem, op. cit., p. 31.
[13] Brígido, João, Ceará (Homens e Fatos), Fortaleza - Ceará, Edições Demócrito Rocha, 2001, p. 313.
[14] Francisco de Holanda Cavalcante era filho do Capitão Arnaud de Holanda Cavalcante e de Francisca, neta do Cel. Francisco Alves Feitosa (Leonardo, op. cit., p. 38 e 94).
[15] Compartilha dessa mesma opinião Aécio Feitosa, dizendo que o primeiro a usar a corruptela foi Raimundo Bizarria, ex-professor da Bahia (in Feitosa, Aécio, op. cit., p. 242).
[16] Essa variante, Bezarril, pode ser vista no requerimento de confirmação da carta patente de José do Vale Pedrosa (Arquivo Histórico Ultramarino, Brasil - Ceará, 09 de março de 1803).   
[17] Feitosa, Leonardo, op. cit., p. 87.


FONTE: http://estoriasehistoria-heitor.blogspot.com.br/2013/08/documentos-ineditos-v-confirmacao-da.html