terça-feira, 30 de março de 2010

A insurreição comunista de 1935 em Natal

Na cidade de Natal, no dia 23 de novembro de 1935, o movimento comunista se faz presente através do levante do 21º BC, quando se antecipa à insurreição preparada por Carlos Prestes.
O Batalhão resiste pouco, poucos soldados guardavam-no e com a participação de oficiais do próprio batalhão, além de operários estivadores e civis, o quartel é facilmente dominado, sem resistência, "em nome do capitão Luís Carlos Prestes".
Gradativamente a onda revolucionária espalha-se pela cidade. O governador Rafael Fernandes, que no momento do ataque estava no Teatro Carlos Gomes, toma conhecimento do fato e refugia-se em casa de um amigo, igualmente ocorrendo com Gentil Ferreira, prefeito de Natal, que consegue refugiar-se no consulado chileno.
Todas as repartições públicas foram dominadas a partir daquele momento. Isso tudo foi precedido de muita correria, fugas, combates e muitos tiros. Sem poderem resistir, os leais ao governo constitucional são dominados e muitos deles presos, viabilizando assim a constituição da junta governativa, que se autodenomina de Comitê Popular Revolucionário. Como primeira medida, a junta apresenta um decreto destituindo o governador e a Assembléia Legislativa. É publicado também o jornal revolucionário "A Liberdade".
No calor dos combates surge, certamente como um herói artificialmente construído, a figura de Luiz Gonzaga. A morte deste, falecido "em combate", é explorada pela propaganda do governo como forma, talvez, de criar no seio dos norte-rio-grandenses um símbolo de resistência ao comunismo. Conforme notícias oficiais Luiz Gonzaga era um soldado leal ao governo e morrera defendendo a sua bandeira; outros, porém, baseados em depoimentos dos que participaram do movimento dizem que o mesmo era um simples mendigo surpreendido por uma bala perdida.
O governo comunista em Natal prossegue. Como forma de ampliar os seus domínios era preciso angariar recursos em dinheiro. Para isso foi determinado o arrombamento do Banco do Brasil em Natal donde se retiram importantes quantias, que posteriormente, pelo menos uma parte foi recuperada. Isso ocorreu também com o dinheiro da Fazenda Estadual.
Rumo ao interior, o movimento ampliou-se e conseguiu dominar 17 cidades das 47 existentes. Constituído por colunas o movimento comunista espalha-se pelo nosso território, promovendo a tomada das prefeituras, incêndio dos cartórios, soltura dos prisioneiros da cadeia e nomeação de um novo prefeito. Requisitam o dinheiro da prefeitura e da mesa de rendas, além de destituírem o delegado e o tabelião público.
Em direção ao Seridó, os rebeldes tomam Santa Cruz, única cidade do Estado que aclama e aplaude o movimento. A partir dali, o movimento dirige-se a Currais Novos. No entanto, encontram resistência, especificamente na Serra do Doutor, através de um grupo armado sob a liderança de Dinarte Mariz, que consegue desmontar os rebeldes, que saem em fuga.
Apesar de questionarmos a participação concreta de Dinarte Mariz no combate da Serra do Doutor, o que podemos perceber é que a região do Seridó, a partir de notícias acerca do que acontecia em Natal, organizou-se e conseguiu esfacelar o movimento comunista no Trairí, influenciando decisivamente a derrota dos rebeldes em nosso Estado.
Como vimos, apesar de ter deixado marcas profundas no seio do RN, numa perspectiva de proposta administrativa a partir da classe operária. O movimento comunista, a partir de Natal, não conseguiu obter êxito diante da falta de articulação entre as colunas do interior e, principalmente, tendo em vista as notícias vindas dos Estados vizinhos de que tropas policiais se dirigiam com destino ao nosso território. Todo o movimento no Estado durou apenas três dias.

MEDEIROS FILH0, Aristóles Eestam de. A Insurreição Comunista de 1935 em Natal. História do RN n@ WEB [On-line]. Available from World Wide Web: Acesso em 17/06/2002.

Algumas informações sobre os escravos do Rio Grande

Desde o princípio da construção da Fortaleza dos Reis Magos (6 de janeiro de 1598), já se constata a presença dos chamados “negros de serviço da fortaleza”, empregados nos estafantes trabalhos de edificação daquela fortificação . O primeiro capitão-mor do Rio Grande, João Rodrigues Colaço, logo após a pacificação dos indígenas potiguares, volveu suas vistas para as terras banhadas pelo rio Potengi, pretendendo nelas plantar suas roças. Para tal fim, apossou-se de terras naquele rio, no território hoje correspondente ao município de São Gonçalo do Amarante-(RN). Aos 9 de janeiro de 1600, o capitão-mor de Pernambuco, Manuel Mascarenhas Homem, efetuou a doação oficial daquelas terras, conforme constou do capítulo anterior. No seu requerimento, através do qual pretendia a doação daquelas terras, João Rodrigues Colaço referia-se ao fato de que “comprara escravos de Guiné’ e os puzera “com um feitor, para começarem a plantar mantimentos”, “visto ser a primeira pessoa que começou a roçar e fazer benfeitorias no Rio Grande” . A presença do escravo, principalmente do escravo negro foi uma constante nas atividades econômicas da Capitania, e depois Província do Rio Grande do Norte. O braço escravo foi o construtor material do seu progresso, de 1598 a 1888. Os antigos assentamentos de batizados, casamentos e óbitos da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação do Rio Grande, referentes ao período de 1727a 1760, nos fornecem dados informativos preciosos, sobre o fenômeno da escravidão nas plagas norte-riograndenses. Os dados disponíveis nos dão conta de escravos pretos, indígenas e mestiços. Os pretos dividiam-se em dois grupos: os provenientes do continente africano e aqueles já nascidos no Brasil, os crioulos. Os indígenas, ou gentios da terra, eram tapuias de diversas procedências escravizados por ocasião da chamada Guerra dos Bárbaros, ou Guerra do Gentio Tapuia, episódio ocorrido a partir do ano de 1683, e cuja duração estendeu-se por quatro décadas. Do cruzamento genético do branco com a negra, surgiu o mulato. O mestiço do mulato com a negra obtinha a denominação de cabra. O fruto da miscigenação ocorrida, entre o branco e a indígena, recebia a denominação de mameluco. Havendo o cruzamento do negro com a indígena, o filho resultante recebia a classificação de cafuzo. Quando a mistura tornava-se por demais complexa, ou de difícil identificação, o indivíduo era classificado como par¬do. A classificação dos negros vindos da costa d’África era efetuada de acordo com os portos, de onde eram aqueles escravos provenientes. Na documentação disponível, deparamo-nos com indivíduos dos gentios de Guiné (os mais numerosos), de Angola, de Arda, da Costa da Mina, de Benguela e de Cachéu. Quanto aos tapuias escravos, a documentação nos dá conta de gentios das nações Putigi, Caboré, Panicuaçu, Jan¬duim, Paiacu, Capela, todos eles falando o mesmo idioma; “do sertão dos lcós”, provavelmente da nação lcó, do grupo Cariri, do sertão cearense; Jaguaribara, de classificação étnica imprecisa. Analisando-se os assentamentos eclesiásticos, constata¬mos uma grande percentagem de casamentos entre elementos das raças negra e tapuia, não se sabendo se tais matrimônios eram casuais, ou se recebiam uma certa influência patronal. Talvez houvesse o interesse dos Senhores em eliminar os vestígios étnicos e culturais do elemento tapuia, transformando os seus descendentes, através da miscigenação com a raça negra, em indivíduos mais afins com esta última. Outra hipótese é a de que os mestiços, do cruzamento do preto com o tapuia, seriam portadores de maior vigor físico, superior ao das duas raças-¬troncos. Trata-se de um fenômeno conhecido, pelos geneticistas, como o vigor dos híbridos. Realizando-se uma estatística, no tocante à duração de vida ou longevidade dos escravos, constata-se uma média de somente 29 anos. Considerando-se apenas os indivíduos falecidos com idade superior a 18 anos, aquela média de longevidade chega aos 42 anos. O trabalho forçado, a habitação precária, a alimentação deficiente, as más condições de higiene, as doenças epidêmicas, os traumas físicos e emocionais, tudo isso contribuía para a curta duração de vida dos escravos, pretos e tapuias. Convém salientar que os escravos, sempre que possível, recebiam toda a assistência religiosa necessária, por ocasião dos seus falecimentos. Eram sepultados em igrejas, nos adros das mesmas, ou nos alpendres existentes à frente de algumas capelas. Por ocasião dos sepultamentos, trajavam mortalhas ou hábitos, confeccionados de hamburgo, holanda, linhaça, linho, outros panos brancos; as crianças trajavam tecidos de tafetá carmezim, tecidos encarnados, etc. Muitos escravos eram envoltos em esteiras, para o sepultamento. Antigos cronistas nos deixaram informações sobre os grupos de escravos, vindos da Costa d’Africa. André João Anto¬nil, no seu livro Cultura e Opulência do Brasil, publicado em 1711, declarava:

“Os que vêm para o Brasil são ardas, minas, congos, de São Tomé, de Angola, de Cabo Verde e alguns de Moçambique, que vem nas naus da Índia. Os ardas e os minas são robustos. Os de Cabo Verde e de São Tomé são mais fracos. Os de Angola, criados em Luanda, são mais capazes de aprender ofícios mecânicos que os das outras partes já nomeadas. Entre os congos, há também alguns bastantemente industriosos e bons não somente para o serviço da cana, mas para as oficinas e para o meneio da casa” .

O francês L.F. Tollenare, que escreveu, em 1817, as suas Notas Dominicais, afirma:

“Os negros trazidos da África vêm de Angola, Cabinda, Benguela, Gabão e Moçambique, não os trazem mais da Costa de Ouro, desde que o governo português se comprometeu a não permitir mais o tráfico ao norte do Equador. Eram os mais bonitos. Os mais hábeis e mais convenientes para o serviço nas cidades são os negros de Angola; os Cabindas e Benguelas são dóceis e excelentes para o trabalho agrícola; os Gabões são ferozes e maus; injuria-se um negro chamado-se-o de Gabão. Os de Moçambique são fracos e pouco inteligentes; todos os carregamentos que deles vi chegar aqui eram miseráveis” .

MEDEIROS FILHO, Olavo de –Terra Natalense. Natal, Fundação José Augusto, 1991. 214p.

Os Franceses no Rio Grande do Norte

Quando os franceses foram expulsos do Sul do País seguiram rumo ao Norte, mantendo um ativo comércio com os nativos. Não conseguiram, no entanto, instalar uma colônia. Chegaram a contar com um intérprete: "Um castelhano tornado potiguar, beiço furado, tatuado, pintado de jenipapo e urucu, falando o nheengatu em serviço dos franceses com os quais se foi embora", narrou Câmara Cascudo. A base deles era o Rio Grande do Norte. Os franceses passaram a fazer investidas contra a Paraíba, com o apoio dos potiguares. O ataque mais audacioso se realizou entre 15 a 18 de agosto de 1597. Portanto treze navios, o embate se deu com a fortaleza de Santa Catarina de Cabedelo, sob o comando do aventureiro Jacques Riffaul, que desembarcou trezentos e cinqüenta homens. E mais: "Vinte outras naus reforçaram a investida, esperando a ordem no rio Potengi". Não foi um simples assalto de corsários, mas se constituiu uma verdadeira batalha. A fortaleza foi defendida por apenas vinte soldados. A artilharia contava com cinco peças. Os portugueses resistiram ao ataque, forçando os franceses a baterem em retirada. Vilma Monteiro analisa a importância dessa vitória: "Determina os novos rumos da conquista da região Norte. Permite a posse efetiva da Capitania do Rio Grande, seu povoamento e colonização, com isso abrindo as portas para a expansão civilizadora sobre novos territórios". Os franceses, diante desse quadro, ameaçavam a Paraíba; após a caída desta, a próxima conquista seria Pernambuco... Foram eles que iniciaram o processo de miscigenação entre europeus e americanos na região. Dois aventureiros se destacaram: Charles de Voux e Jacques Riffault. Ainda hoje um local guarda no nome a lembrança de Riffault, no bairro do Alecrim em Natal, onde se ergueu a Base Naval (Refoles).

O povo potiguara

A descoberta de um novo mundo proporcionava enfrentar barreiras, vencer desafios, rumar ao desconhecido. Terra... terra farta, terra de ninguém pronta para ser desbravada, conquistada e explorada.
Mas que surpresa! Os portugueses, aqui chegando depararam-se com criaturas

"de porte mediano, acima de 1,65cm, reforçados e bem feitos no físico. Olhos pequenos e amendoados como os da raça mongólica, escuros e encovados, de orelhas grandes, cabelos lisos e cortados redondos, arrancavam os pêlos da barba até as pestanas e sobrancelhas. Eram baços, claros, pintavam seus corpos com desenhos coloridos. Furavam o beiço, principalmente o inferior, assim como orelhas e o nariz". (SUASSUNA & MARIZ: 1997, p. 51).

Seus corpos nus expostos ao sol, sob o calor e maresia, demonstravam íntimo contato com a natureza selvagem e hostil. Contrastando com as cores do horizonte e na beleza exótica do lugar, os nativos observavam grandes embarcações com figuras espalhafatosas se aproximarem. Nesse primeiro contato, os portugueses encontraram um povo que, na escala evolutiva, superava o paleolítico e dava seus primeiros passos na revolução agrícola, quanto à domesticação de plantas de condições selvagens para mantimento de seus roçados, assim como o cultivo da mandioca. Também foram cultivadas outras espécies, como: milho, batata-doce, abóbora, algodão, tabaco, cuias e cabaças, e algumas árvores frutíferas. Para seu cultivo empregavam técnicas e instrumentos rudimentares, como a queimada e a derrubada de árvores com machados de pedra. Além da agricultura, os indígenas praticavam a caça e a pesca como fonte de alimentação, empregando armas como o arco e flecha com pontas talhadas em pedra. Da mesma forma que eram usados na guerra. Os homens nativos integravam-se perfeitamente ao meio, mas eram agressivos quanto a outros grupos e viviam em constantes lutas por seu território e lugares sagrados, defendendo sua aldeia. Festejaram a natureza, as estações, as luas, o sol, a chuva. Dançavam, cantavam em noites de festas, adornados com belas plumagens, em cocares, braceletes e tornozeleiras. Ficando em volta de grandes fogueiras, cultuavam seus mortos, valentes e valorosos guerreiros pedindo sua proteção, junto aos deuses. Enquanto que os inimigos vencidos e aprisionados eram sacrificados em rituais de antropofagia. Na cura de doenças, utilizavam de ervas e raízes extraídas da própria natureza. Assim como o uso de entorpecentes pelo Xamãs e Pajés, quando evocavam os deuses para auxiliá-los na luta contra os espíritos do mal. Falavam o nhe-ê-Katu (língua boa), diferenciando de outros dialetos existentes nas diferentes tribos. Utilizavam a cerâmica na fabricação de utensílios domésticos. A rede servia para o descanso e a canoa para locomoção e pesca. Sob o olhar europeu, aqueles nativos selvagens precisavam aprender normas de conduta e suas almas necessitavam de salvação para poderem integrar-se a uma civilização. Civilização essa que desprezara sua cultura, crenças, tradições interferindo no curso de suas vidas cotidianas. Foi de relevante importância a missão dos padres junto aos indígenas quanto à catequização, resultando em acordos de paz, ansiados por ambas as partes. Nesta jornada destaca-se a figura de Francisco Pinto, apóstolo da paz, que através da catequese conseguia levar os nativos para o lado dos portugueses. Assistindo-os em suas necessidades. Entre os nativos, Felipe Camarão revela-se como grande aliado dos portugueses, juntamente com seus comandados, destacando-se na luta contra os holandeses e seus aliados. A participação dos potiguares também é registrada na guerra dos bárbaros ou Confederação dos Cariris, em que se rivalizavam com os Tapuias. Pois não era possível essa homogeneidade entre tribos de diferentes línguas e costumes. As rivalidades existentes entre tribos, o domínio português e a presença de negros, contribuiu para que houvesse sincretismo de culturas, onde o índio perdeu seu espaço e território. Com isso, sua história é de difícil acesso, ficando diversas indagações sobre origens e evolução cultural, pois a presença do português e da catequização contribuíram para um direcionamento na visão histórica, a partir do momento que sentiram necessidade de integrá-los ou combatê-los, de acordo com seus interesses.

ARAÚJO, F. das C. de S. O. ; SILVA, F. V. da; MACÊDO, M. das V. de A. & SILVA, M. E. da. Potiguares. História do RN n@ WEB [On-line]. Available from World Wide Web: Acesso em 17/06/02. Por Genilson Medeiros Maia – Aluno do período 98.2

Pré-História do Rio Grande do Norte

A antiguidade do homem no Rio Grande do Norte

Entre o fim do Pleistoceno e o início do Holoceno, as áreas que hoje constituem o Nordeste brasileiro começaram a ser ocupadas por grupos de caçadores que se estabeleceram próximo aos rios e fontes d’água, adaptando-se, assim, às árduas condições dos sertões. Tal ocupação – proveniente da dispersão populacional americana vinda do Velho Mundo e que ainda hoje é cheia de polêmicas e controvérsias (cf. MELLO E ALVIM, 1995-1996; MARTIN, 1997) – já se havia consolidado há 12 milênios do presente, no Piauí e na Bahia, enquanto que para o Rio Grande do Norte as datações radiocarbônicas de enterramentos humanos são de 10 mil anos antes do presente. Por essa mesma época, coabitavam com os grupos humanos espécimes hoje extintas de megafauna, como tigres dentes-de-sabre, mastodontes, paleolamas, preguiças e tatus gigantes, os quais eram abatidos, provavelmente por meio de armadilhas ou de emboscadas (MARTIN, 1999, p. 24-26). Para Gabriela MARTIN (op. cit., p. 26), “as datas mais antigas que assinalam a presença humana no Rio Grande do Norte foram registradas na região do Seridó”, especificamente nos Sítios Mirador, em Parelhas (9.410 anos) e Pedra do Alexandre, em Carnaúba dos Dantas (9.400 anos), portadores, também, de pinturas rupestres. Os enterramentos humanos do Sítio do Alexandre merecem um destaque especial tanto pela quantidade de esqueletos exumados até 1996 (cerca de vinte e oito), como pela presença de um pequeno mobiliário fúnebre e material lítico associado aos restos ósseos. Registrem-se, ainda, outras datações de 8, 6, 5, 4 e 2 mil anos antes do presente, provenientes do mesmo sítio, além da importância que os rituais funerários têm, hoje, para dar aos arqueólogos elementos para reconstituírem o modo de vida das sociedades primitivas (MARTIN, 1999. 1995-1996). Os registros rupestres – pinturas e gravuras – são, também, um forte indicativo da presença humana no Rio Grande do Norte pré-histórico, especialmente no que toca à evolução das manifestações artísticas. As pinturas e gravuras estão agrupadas em tradições, termo que Gabriela MARTIN descreve como sendo “a representação visual de todo um universo simbólico primitivo que pode ter sido transmitido durante milênios sem que, necessariamente, as pinturas de uma tradição pertençam aos mesmos grupos étnicos, além do que poderiam estar separados por cronologias muito distantes”. (MARTIN, 1997, p. 240). No Nordeste brasileiro – e também no território potiguar – existem, pelo menos, três grandes tradições: Nordeste, Agreste e Itaquatiara. Definida a partir das pesquisas de Niède GUIDON e outros pesquisadores no Piauí, estendendo-se até outros Estados como a Bahia, Sergipe, Paraíba, Pernambuco, Ceará e Mato Grosso, a Tradição Nordeste é identificada através de figuras de pequeno tamanho, antropomorfas, dotadas de enfeites, ornatos e atributos, os quais caracterizam a figura humana dentro de um contexto social rico: lutas, caças, danças e sexo – como se nos apresentam as pinturas. Os antropomorfos aparecem sempre em posição que sugere movimento e agitação; os que aparecem de perfil parecem estar gritando. Os grafismos dessa tradição são de traço leve e foram pintados com instrumentos finos, permitindo uma acurada técnica de delineação da pintura. A tradição Nordeste não representa somente o cotidiano dos grupos humanos pré-históricos do Nordeste, mas, também, cenas cerimoniais cujo significado ainda não é totalmente compreendido, podendo ser também representação de mitos. Sua presença repetida nos abrigos rupestres torna-se um indicador da tradição, chamado de “emblemático”, na prática, um logotipo desse horizonte cultural; exemplos disso são as cenas de duas figuras humanas, ambas de costas, separadas por tridígitos ou pontos; os chamados “grupos familiares” e as cenas de dança em torno de árvore, com figuras humanas portadoras de ramos nas mãos. A principal cor utilizada é o vermelho, com várias tonalidades, seguido do branco, amarelo, preto, cinza, verde e azul, havendo, constantemente, o uso da policromia. A cronologia dessa tradição inicia-se em torno dos doze mil anos antes do presente, para o Piauí, sendo associada a uma cultura de caçadores coletores que viviam em clima úmido e com recursos hídricos bem mais favoráveis que hoje. Os novos elementos da tradição Nordeste que aparecem nas pinturas da região do Seridó servem para descontextualizá-las da macrodivisão imposta e caracterizá-la como sendo uma subtradição, que ficou sendo chamada de Subtradição Seridó. A subtradição reflete o contexto geográfico em que se situaram os grupos de caçadores coletores estabelecidos na região seridoense há cerca de 10 mil anos – conforme as datações dos enterramentos presentes em sítios com pinturas desse horizonte cultural -, aparecendo uma grande profusão de pirogas (embarcações toscas), objetos e ornamentos corporais e representação de plantas, dando idéia de paisagem. São constantes temas como a caça, envolvendo animais como veados, emas, tucanos, onças, araras e capivaras; o sexo grupal e a masturbação; dança ritual em torno de árvore e o lúdico, na forma de “jogos”. A sociedade da Subtradição Seridó era estritamente hierárquica, como demonstram as inúmeras representações de antropomorfos com cocares sobre a cabeça, identificadores de sua alta posição social (MACEDO, 1998). A Tradição Agreste apresenta pinturas de técnica gráfica inferior à Tradição Nordeste, inferioridade também verificada no tocante aos temas. As suas características são a grande ocorrência de grafismos puros e canhestros, em geral, de tamanho grande, sem qualquer traço identificado e a não formação de cenas – quando estas se formam, apresentam poucos antropomorfos e zoomorfos. Um dos grafismos “emblemáticos” da tradição é um antropomorfo, de grande tamanho, geralmente estático, isolado e de forma grotesca, dando um aspecto totêmico à representação humana; outro emblemático é a figura de um pássaro, de longas penas e asas abertas, com tendência ao antropozoomorfismo (homem-pássaro). Marcas de mãos e pés em positivo são bastante comuns, especialmente, na parte superior dos suportes onde foram pintadas, assim como linhas, grades, espirais e outros sinais sem identificação imediata. Enquanto os povos da Tradição Nordeste tinham um contexto geográfico rico, pintando os abrigos sob rocha nas encostas das serras, nos vales das quais corriam rios caudalosos, os caçadores da Tradição Agreste viviam num ambiente bem mais modesto, ocupando pés-de-serra, várzeas e brejos, sempre próximos a fontes d’água e caldeirões, onde se acumulava a água das chuvas nos períodos de estiagem. A cronologia para essa tradição é de cerca de cinco mil anos antes do presente para o Piauí, e dois mil anos antes do presente para Pernambuco. Um exemplo típico de sítio dessa tradição é o Lajedo da Soledade, em Apodi. A Tradição Itaquatiara – ou das Itaquatiaras – aparece em blocos ou rochas ao lado dos cursos d’água e, às vezes, em contato com esta, compreendendo gravuras executadas sobre a rocha. Nela aparecem, comumente, grafismos puros e sinais como tridígitos, círculos, linhas e quadrados. É a tradição a que mais se tem prestado interpretações fantásticas e fantasiosas. Conhecemos poucos dados a respeito dos grupos humanos que as fizeram, devido a sua não associação com a cultura material desses povos, face esses registros estarem, quase sempre, em contato com a água. Exceção é o caso do Letreiro do Sobrado, em Pernambuco, de onde saíram datações de mil e duzentos a seis mil anos antes do presente para fragmentos de rochas gravadas, relacionadas com indústrias líticas e fogueiras. Acredita-se que as itaquatiaras brasileiras estejam relacionadas ao culto das águas, devido à sua localização em cursos d’água ou caldeirões, onde a água que cai no inverno fica retida. Provavelmente, são também relacionadas com cultos cosmogônicos das forças naturais e celestes, devido à existência de possíveis representações de astros ou linhas onduladas que imitam o movimento das águas. Disseminadas em todo o Brasil, as itaquatiaras têm o seu expoente máximo na Pedra do Ingá, na Paraíba. No Rio Grande do Norte há uma enorme profusão de sítios dessa tradição, especialmente na região do Seridó. A presença dos três principais horizontes culturais de Arte Rupestre do Nordeste no Rio Grande do Norte reforça a hipótese de que o seu território foi povoado por diversas levas de povos pré-históricos, em diferentes épocas. Esse povoamento, feito através de diferentes grupos humanos, deu origem às tribos indígenas que os cronistas holandeses e portugueses conheceram no Período Colonial. O extermínio dos indígenas do Sertão, durante a Guerra dos Bárbaros (séculos XVII-XVIII) representou o fim da evolução cultural pela qual vinham passando os grupos humanos do território potiguar.

MACEDO, Helder Alexandre Medeiros de; A antiguidade do homem no Rio Grande do Norte. A pré-história do espaço norte-riograndense (1999). História do RN n@ WEB [On-line]. Available from World Wide Web: Acesso em 17/06/02.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Turma de História - Natal





Turma do Curso de História em Natal. Disciplina de História do Rio Grande do Norte II.
Foi muito bom!