terça-feira, 30 de março de 2010

Pré-História do Rio Grande do Norte

A antiguidade do homem no Rio Grande do Norte

Entre o fim do Pleistoceno e o início do Holoceno, as áreas que hoje constituem o Nordeste brasileiro começaram a ser ocupadas por grupos de caçadores que se estabeleceram próximo aos rios e fontes d’água, adaptando-se, assim, às árduas condições dos sertões. Tal ocupação – proveniente da dispersão populacional americana vinda do Velho Mundo e que ainda hoje é cheia de polêmicas e controvérsias (cf. MELLO E ALVIM, 1995-1996; MARTIN, 1997) – já se havia consolidado há 12 milênios do presente, no Piauí e na Bahia, enquanto que para o Rio Grande do Norte as datações radiocarbônicas de enterramentos humanos são de 10 mil anos antes do presente. Por essa mesma época, coabitavam com os grupos humanos espécimes hoje extintas de megafauna, como tigres dentes-de-sabre, mastodontes, paleolamas, preguiças e tatus gigantes, os quais eram abatidos, provavelmente por meio de armadilhas ou de emboscadas (MARTIN, 1999, p. 24-26). Para Gabriela MARTIN (op. cit., p. 26), “as datas mais antigas que assinalam a presença humana no Rio Grande do Norte foram registradas na região do Seridó”, especificamente nos Sítios Mirador, em Parelhas (9.410 anos) e Pedra do Alexandre, em Carnaúba dos Dantas (9.400 anos), portadores, também, de pinturas rupestres. Os enterramentos humanos do Sítio do Alexandre merecem um destaque especial tanto pela quantidade de esqueletos exumados até 1996 (cerca de vinte e oito), como pela presença de um pequeno mobiliário fúnebre e material lítico associado aos restos ósseos. Registrem-se, ainda, outras datações de 8, 6, 5, 4 e 2 mil anos antes do presente, provenientes do mesmo sítio, além da importância que os rituais funerários têm, hoje, para dar aos arqueólogos elementos para reconstituírem o modo de vida das sociedades primitivas (MARTIN, 1999. 1995-1996). Os registros rupestres – pinturas e gravuras – são, também, um forte indicativo da presença humana no Rio Grande do Norte pré-histórico, especialmente no que toca à evolução das manifestações artísticas. As pinturas e gravuras estão agrupadas em tradições, termo que Gabriela MARTIN descreve como sendo “a representação visual de todo um universo simbólico primitivo que pode ter sido transmitido durante milênios sem que, necessariamente, as pinturas de uma tradição pertençam aos mesmos grupos étnicos, além do que poderiam estar separados por cronologias muito distantes”. (MARTIN, 1997, p. 240). No Nordeste brasileiro – e também no território potiguar – existem, pelo menos, três grandes tradições: Nordeste, Agreste e Itaquatiara. Definida a partir das pesquisas de Niède GUIDON e outros pesquisadores no Piauí, estendendo-se até outros Estados como a Bahia, Sergipe, Paraíba, Pernambuco, Ceará e Mato Grosso, a Tradição Nordeste é identificada através de figuras de pequeno tamanho, antropomorfas, dotadas de enfeites, ornatos e atributos, os quais caracterizam a figura humana dentro de um contexto social rico: lutas, caças, danças e sexo – como se nos apresentam as pinturas. Os antropomorfos aparecem sempre em posição que sugere movimento e agitação; os que aparecem de perfil parecem estar gritando. Os grafismos dessa tradição são de traço leve e foram pintados com instrumentos finos, permitindo uma acurada técnica de delineação da pintura. A tradição Nordeste não representa somente o cotidiano dos grupos humanos pré-históricos do Nordeste, mas, também, cenas cerimoniais cujo significado ainda não é totalmente compreendido, podendo ser também representação de mitos. Sua presença repetida nos abrigos rupestres torna-se um indicador da tradição, chamado de “emblemático”, na prática, um logotipo desse horizonte cultural; exemplos disso são as cenas de duas figuras humanas, ambas de costas, separadas por tridígitos ou pontos; os chamados “grupos familiares” e as cenas de dança em torno de árvore, com figuras humanas portadoras de ramos nas mãos. A principal cor utilizada é o vermelho, com várias tonalidades, seguido do branco, amarelo, preto, cinza, verde e azul, havendo, constantemente, o uso da policromia. A cronologia dessa tradição inicia-se em torno dos doze mil anos antes do presente, para o Piauí, sendo associada a uma cultura de caçadores coletores que viviam em clima úmido e com recursos hídricos bem mais favoráveis que hoje. Os novos elementos da tradição Nordeste que aparecem nas pinturas da região do Seridó servem para descontextualizá-las da macrodivisão imposta e caracterizá-la como sendo uma subtradição, que ficou sendo chamada de Subtradição Seridó. A subtradição reflete o contexto geográfico em que se situaram os grupos de caçadores coletores estabelecidos na região seridoense há cerca de 10 mil anos – conforme as datações dos enterramentos presentes em sítios com pinturas desse horizonte cultural -, aparecendo uma grande profusão de pirogas (embarcações toscas), objetos e ornamentos corporais e representação de plantas, dando idéia de paisagem. São constantes temas como a caça, envolvendo animais como veados, emas, tucanos, onças, araras e capivaras; o sexo grupal e a masturbação; dança ritual em torno de árvore e o lúdico, na forma de “jogos”. A sociedade da Subtradição Seridó era estritamente hierárquica, como demonstram as inúmeras representações de antropomorfos com cocares sobre a cabeça, identificadores de sua alta posição social (MACEDO, 1998). A Tradição Agreste apresenta pinturas de técnica gráfica inferior à Tradição Nordeste, inferioridade também verificada no tocante aos temas. As suas características são a grande ocorrência de grafismos puros e canhestros, em geral, de tamanho grande, sem qualquer traço identificado e a não formação de cenas – quando estas se formam, apresentam poucos antropomorfos e zoomorfos. Um dos grafismos “emblemáticos” da tradição é um antropomorfo, de grande tamanho, geralmente estático, isolado e de forma grotesca, dando um aspecto totêmico à representação humana; outro emblemático é a figura de um pássaro, de longas penas e asas abertas, com tendência ao antropozoomorfismo (homem-pássaro). Marcas de mãos e pés em positivo são bastante comuns, especialmente, na parte superior dos suportes onde foram pintadas, assim como linhas, grades, espirais e outros sinais sem identificação imediata. Enquanto os povos da Tradição Nordeste tinham um contexto geográfico rico, pintando os abrigos sob rocha nas encostas das serras, nos vales das quais corriam rios caudalosos, os caçadores da Tradição Agreste viviam num ambiente bem mais modesto, ocupando pés-de-serra, várzeas e brejos, sempre próximos a fontes d’água e caldeirões, onde se acumulava a água das chuvas nos períodos de estiagem. A cronologia para essa tradição é de cerca de cinco mil anos antes do presente para o Piauí, e dois mil anos antes do presente para Pernambuco. Um exemplo típico de sítio dessa tradição é o Lajedo da Soledade, em Apodi. A Tradição Itaquatiara – ou das Itaquatiaras – aparece em blocos ou rochas ao lado dos cursos d’água e, às vezes, em contato com esta, compreendendo gravuras executadas sobre a rocha. Nela aparecem, comumente, grafismos puros e sinais como tridígitos, círculos, linhas e quadrados. É a tradição a que mais se tem prestado interpretações fantásticas e fantasiosas. Conhecemos poucos dados a respeito dos grupos humanos que as fizeram, devido a sua não associação com a cultura material desses povos, face esses registros estarem, quase sempre, em contato com a água. Exceção é o caso do Letreiro do Sobrado, em Pernambuco, de onde saíram datações de mil e duzentos a seis mil anos antes do presente para fragmentos de rochas gravadas, relacionadas com indústrias líticas e fogueiras. Acredita-se que as itaquatiaras brasileiras estejam relacionadas ao culto das águas, devido à sua localização em cursos d’água ou caldeirões, onde a água que cai no inverno fica retida. Provavelmente, são também relacionadas com cultos cosmogônicos das forças naturais e celestes, devido à existência de possíveis representações de astros ou linhas onduladas que imitam o movimento das águas. Disseminadas em todo o Brasil, as itaquatiaras têm o seu expoente máximo na Pedra do Ingá, na Paraíba. No Rio Grande do Norte há uma enorme profusão de sítios dessa tradição, especialmente na região do Seridó. A presença dos três principais horizontes culturais de Arte Rupestre do Nordeste no Rio Grande do Norte reforça a hipótese de que o seu território foi povoado por diversas levas de povos pré-históricos, em diferentes épocas. Esse povoamento, feito através de diferentes grupos humanos, deu origem às tribos indígenas que os cronistas holandeses e portugueses conheceram no Período Colonial. O extermínio dos indígenas do Sertão, durante a Guerra dos Bárbaros (séculos XVII-XVIII) representou o fim da evolução cultural pela qual vinham passando os grupos humanos do território potiguar.

MACEDO, Helder Alexandre Medeiros de; A antiguidade do homem no Rio Grande do Norte. A pré-história do espaço norte-riograndense (1999). História do RN n@ WEB [On-line]. Available from World Wide Web: Acesso em 17/06/02.

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