quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Governadores do Rio Grande do Norte - Informações básicas IV:

AUGUSTO SEVERO DE ALBUQUERQUE MARANHÃO


José Ozildo dos Santos



Orador, político, jornalista e inventor, Augusto Severo de Albuquerque Maranhão nasceu no dia 11 de janeiro de 1864, na Vila de Macaíba, Província do Rio Grande do Norte, sendo filho do Major Amaro Barreto de Albuquerque Maranhão e de dona Feliciana Maria da Silva e Albuquerque.
Após cursar humanidades, ingressou na Escola Politécnica, no Rio de Janeiro. No entanto, embora tenha iniciado o curso de Engenharia com brilhantismo, não chegou a concluí-lo. Gravemente doente, foi aconselhado pelos médicos a abandonar seus estudos e regressar ao Rio Grande do Norte.
Tempos depois, restabelecido em suas forças físicas, receou voltar à Corte, onde o clima era-lhe hostil. Em Natal, passou a dedicar-se ao magistério, integrando o corpo docente do colégio que, em 1882, havia sido fundado por seu irmão, o médico Pedro Velho, futuro primeiro dirigente da política potiguar, após a proclamação da República.
Idealista, cedo integrou-se às  agitações políticas de sua época, aderindo à campanha abolicionista e à propaganda republicana. A esse tempo, começou a projetasse como orador e jornalista, integrando o corpo redacional de ‘A República’.
Proclamada a República, deixou o comércio (atividade a qual dedicava-se desde 1884) e ingressou na política, elegendo-se deputado à Assembléia Estadual Constituinte de 1892. No ano seguinte, ascendeu à Câmara dos Deputados, alcançando projeção e destaque por sua brilhante atuação parlamentar, integrando naquela Casa, a Comissão de Orçamento e Finanças. Reeleito sucessivas vezes, permaneceu no Parlamento Nacional até sua prematura morte, ocorrida em 1902.
Carregava consigo um sonho: descobrir a dirigibilidade dos balões. E, apesar de ter conseguido vários triunfos na vida pública, nunca abandonou seus estudos no campo da Aeronáutica. Em 1893, financiado pelo governo brasileiro, construiu em Realengo um pequeno balão, destinado às suas experiências.
Entretanto, vítima de inimigos invejosos, teve cortado o auxílio e revogada autorização, anteriormente concedida pelo governo, fatos que impossibilitaram alcançar o resultado esperado. Apesar de tudo, não desanimou.
Em 1901, dispondo de parcos recursos e de generosos donativos de alguns amigos, seguiu para Paris. Na ‘Cidade Luz’, construiu o dirigível ‘Pax’, semi-rígido, que foi elogiado por todos os técnicos da época e com o qual, esperava provar suas teorias. Sem recursos suficientes, foi obrigado a antecipar a experiência final, que realizou-se a 12 de maio de 1902.
As dificuldades econômicas também impediram-lhe de dotar o aparelho com toda a segurança projetada. Auxiliado pelo mecânico francês George Sachet empreendeu o vôo experimental, na manhã do dia 12 de maio de 1902. Como esperado, o balão subiu. Mas, explodiu em pleno ar e o corpo de seu caiu gloriosamente morto, sobre Paris. Mártir da ciência, pioneiro da aviação, seu nome constitui-se numa legenda que ultrapassando fronteiras, incorporou-se “ao patrimônio moral da humanidade”

COPIADO DE: http://www.construindoahistoria.com

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O PRIMEIRO BISPO DE NATAL

DOM JOAQUIM ANTÔNIO DE ALMEIDA


José Ozildo dos Santos

F
igura da maior expressão da história eclesiástica norte-riograndense, Dom Joaquim Antônio de Almeida nasceu aos 17 de agosto de 1868, na fazenda Barra de Pajuçara, zona rural do antigo município de Goianinha, Província do Rio Grande do Norte, sendo o sétimo e último filho do casal José Antônio de Almeida e Antônia Maria de Almeida.
No dia 3 de outubro seguinte, recebeu o sacramento do batismo na Capela do Comum, localizada a três quilômetros da fazenda onde nascera, tendo como oficiante o padre Manoel Ferreira Borges, vigário da freguesia de Goianinha. Seu pai, tenente da antiga Guarda Nacional, em 1872, adquiriu a propriedade “Benfica”, onde passou a residir com sua família.
Em sua própria casa e com um professor particular, o menino Joaquim aprendeu as primeiras letras, tendo concluído o curso primário numa escola pública, regida pelo professor Antônio Corsino Lopes de Macedo, na vila de Goianinha. Vocacionado para o sacerdócio, tratou de aprender os rudimentos da língua latina com o padre Idalino Fernandes de Sousa, à época, vigário de Goianinha.

DOM JOAQUIM ANTÔNIO DE ALMEIDA

Em 1885, matriculou-se no Colégio Diocesano de Olinda, iniciando ali o curso humanístico. No entanto, acometido de beribéri, foi obrigado a retornar ao lar paterno. Em 1889, com a saúde refeita, ingressou no Seminário Maior de Fortaleza, recebendo a tonsura clerical e as ordens menores em novembro de 1892. Um ano depois, o bispo diocesano dom Joaquim José Vieira, conferiu-lhe a ordem maior do diaconato, ordenando-lhe sacerdote no dia 2 de dezembro de 1894.
Retornando ao Rio Grande do Norte, dezesseis dias após sua ordenação, o jovem sacerdote celebrou sua primeira missa na Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Prazeres, em sua terra natal, oportunidade em que foi saudado gratulatoriamente pelo padre Waldevino Nogueira, membro do clero cearense, que veio ao nosso Estado, exclusivamente para participar daquela solenidade.
Convidado por dom Adauto de Miranda Henriques, o jovem padre Joaquim de Almeida foi servir à Diocese da Paraíba, investindo-se nas funções de professor do recém-criado seminário da capital paraibana, onde por falta de outros docentes, passou a lecionar as disciplinas de Geografia, Escritura e Liturgia, Francês, Teologia Moral e Eloqüência Sagrada. Mais tarde, tornou-se diretor espiritual (1895-1897) e reitor do referido seminário (1898-1906). Por suas virtudes, dedicação e zelo ao magistério e ao ministério sacerdotal, foi distinguido com o título de cônego honorário do cabido da catedral paraibana, aos 20 de agosto de 1896. Espírito incansável, de 1904 a 1905, realizou “uma peregrinação pelas cidades, vilas, povoados e fazendas da Paraíba e do Rio Grande do Norte, para obter auxílios pecuniários em favor do Seminário Diocesano”.
Na Paraíba, além das funções já mencionadas, o cônego Joaquim Antônio de Almeida foi consultor diocesano, vigário geral da catedral de Nossa Senhora das Neves e colaborador d’A Imprensa’, jornal católico que circulava naquele Estado. Ainda em 1905, foi agraciado com o título de monsenhor e aos 19 de janeiro do ano seguinte, foi escolhido para ocupar o recém-criado bispado do Piauí. E, nomeado através da Bula Cunetis ubique, pelo Papa Pio X, tornou-se o primeiro sacerdote norte-riograndense a ascender ao episcopado.
Sua sagração episcopal ocorreu no dia 4 de fevereiro daquele ano de 1906, na catedral de Nossa Senhora das Neves, em João Pessoa - antiga Cidade da Parahyba do Norte - tendo com sagrante dom Júlio Tontti, Núncio Apostólico do Brasil, e, como consagrantes, dom Adauto de Miranda Henrique e dom Luís de Brito, este último, bispo de Olinda-PE.
Conhecedor das dificuldades que ia enfrentar no Piauí, para ali seguiu levando em sua companhia seis padres, dois subdiáconos, cinco cléricos portadores das ordens menores, dois teólogos, setes filósofos e três preparatorianos. Sua posse naquela Diocese, ocorreu aos 12 de março daquele mesmo ano, “entre ruidosas manifestações de carinho e fraternidade”.
Dedicado e zeloso em suas funções, em pouco tempo, Dom Joaquim visitou as dez paróquias de sua Diocese. Em Teresina, ainda em meados de 1906, fundou o Seminário Diocesano Sagrado Coração de Maria e criou “um jornal para defender a doutrina cristã”, além de um colégio diocesano, na cidade de Parnaíba.
Entretanto, sua permanência naquele bispado não foi muito tranqüila. A diocese possuía um patrimônio, que foi doado por um casal português - a fazenda Piracuruca. No entanto, seus antigos moradores negaram-se a restituir à Diocese o referido patrimônio e “fizeram o possível para incompatibilizar o governo do Estado com o bispo”.
Ameaças surgiram. O jovem bispo, sem elementos e meios de defesa, entregou sua sorte a Deus, após ter conhecimento de que, por trás de tudo, “havia um plano diabólico, o Palácio Episcopal seria assaltado” e ele “seria preso e embarcado em canoa no Rio Parnaíba, navegando algumas milhas era simulado um naufrágio e morreria em conseqüência do acidente”.
O incidente somente não ganhou maiores proporções, porque seus incitadores, temeram a reação da comunidade católica. Por outro lado, o Dr. Anísio de Abreu, governador do Piauí, que desde o princípio deu sólido apoio aos antigos habitantes da fazenda Piracuruca, afastou-se do cargo por problemas de saúde. O vice-governador em exercício, Dr. Antônio Freire, “passou a ser o maior desvelado amigo de Dom Joaquim e por intermédio do padre Manoel Barreto, resolveu o caso do patrimônio de Piracuruca, que teve solução pacífica e conciliatória”. Entretanto, esta questão, “teve grande repercussão em todo o país, no Senado Federal e na Câmara. Pessoas insuspeitas afirmavam que o Dr. Nilo Peçanha, então presidente da República, telegrafara ao governador do Piauí, recomendando-lhe que fizesse respeitar a autoridade eclesiástica”.
Criada a Diocese de Natal, Dom Joaquim foi designado primeiro bispo do Rio Grande do Norte e assim, nessa condição, retornou ao seu Estado, aportando na capital potiguar n’O Manaus, no final da tarde do dia 11 de junho de 1911, sendo recebido e saudado por uma multidão de quase sete mil pessoas, ao som da Banda de Música do antigo Batalhão de Segurança, tendo à frente o governador do Estado, Dr. Alberto Maranhão, além de várias autoridades civis e militares.
Na Catedral de Nossa Senhora da Apresentação, foi saudado pelo cônego João Evangelista de Castro, vigário da freguesia. Após as solenidades de posse, no antigo “salão róseo do Palácio do Governo”, o Dr. Alberto Maranhão ofereceu um banquete ao bispo, seus acompanhantes e vários convidados ilustres.
Satisfeito com a recepção obtida de seus co-estaduanos, Dom Joaquim fez publicar no extinto ‘Diário do Natal’ - edição de 17 de junho de 1911 - a seguinte nota: “Impossibilitado de agradecer individualmente a todos que compareceram a nossa recepção e posse solene, vimos do alto da imprensa testemunhar, como nosso primeiro ato, profundos reconhecimentos aos nossos diocesanos em geral e, em particular, aos seus principais representantes”.
Instalada a nova diocese, tratou de estruturar o clero potiguar: criou logo o Seminário de ‘São Pedro’, entregando sua direção ao renomado monsenho Alfredo Pegado; repassou o Colégio Diocesano “Santo Antônio” à direção dos padres da Sagrada Família, e o “Santa Luzia”, de Mossoró, a um grupo de franciscanos oriundo de Portugal. Durante seu episcopado - que durou apenas quatro anos - realizou visitas a todas as paróquias de sua diocese, fazendo-se sempre acompanhado por grande número de auxiliares.
No Rio Grande do Norte, Dom Joaquim ordenou nove sacerdotes, que passaram a servir à diocese, tendo ainda criado a Paróquia de Taipú, sob a invocação de Nossa Senhora do Livramento, por decreto diocesano datado de 18 de abril de 1913, nomeando, como seu primeiro vigário, o padre Jefferson Urbano Rodrigues da Rocha, seu antigo auxiliar na diocese do Piauí.
Em maio de 1915, encontrava-se em visita à Paróquia de Canguaretama, quando, subitamente, foi acometido por um derrame cerebral. Retornando a Natal, ficou preso ao leito e achando-se impossibilitado de continuar à frente de sua docese, renunciou o sólio episcopal no dia 15 de junho daquele mesmo ano, passando à condição de bispo titular do Lari. Tempos mais tarde, na busca de cura para seus males, viajou ao Rio de Janeiro, onde, aparentemente, se refez.
Retornando ao Rio Grande do Norte, Dom Joaquim fixou residência em seu sítio “Belo Horizonte”, no município de Goianinha. Resignatário, em 1918, aceitou o convite que lhe foi formulado por Dom Adauto, passando a residir no Palácio Episcopal, na capital paraibana. Orador fluente, tornou-se missionário, pregando o evangelho nos sertões da Paraíba, Pernambuco e Alagoas, sempre atraindo multidões para ouvir suas palavras, seus ensinamentos. Desempenhou tal papel até o limite de suas forças físicas.
Doente, passou a residir em Bom Conselho-PE, numa casa de religiosos e ali esteve de 1935 a 1944. E, próximo a completar bodas de ouro de sua ordenação sacerdotal, resolveu voltar ao Rio Grande do Norte, para festejá-las na mesma matriz onde celebrou sua primeira missa - em Goianinha - sua terra natal.
Velho, cego, movendo-se pelos braços alheios, mas lúcido, Dom Joaquim de Almeida chegou à cidade de Macaíba, na companhia de alguns familiares, em princípios de dezembro de 1944. Aparentemente refeito da longa viagem, seguiu para Goianinha, na manhã do dia 17. No dia seguinte, celebrou suas bodas de ouro sacerdotais, realizando o grande desejo de sua vida. Retornando à Macaíba, passou a residir em casa de sua irmã Ana de Almeida Macedo. No seio familiar, entre uma rede e uma cadeira velha, viveu seus últimos dias de vida.
Barbas longas e brancas, Dom Joaquim possuía um aspecto místico e messiânico. Mantendo sempre a lucidez, celebrava de memória uma missa votiva à Nossa Senhora. Praticamente, viveu seus últimos dias de esmolas. Espírito humilde e caridoso, ainda dividia o pouco que chegava as suas mãos com os mais necessitados, que buscavam seus conselhos.
Enquanto viveu em Macaíba, “manteve certa mania pela terapêutica caseira, distribuindo garrafas medicinais por ele preparadas”, não faltando quem não o incluísse no rol dos taumaturgos. Por fim, faleceu naquela cidade, na tarde de um domingo, dia 30 de março de 1947, após sofrer “o martírio de uma enfermidade longa, aborrecida e incurável; isolando-se de si mesmo, numa época em que a Igreja cuidava pouco de seus padres doentes e imprestáveis”.
Havia celebrado sua última missa no dia 28 daquele infausto mês. O vigário de Macaíba, para a realização da procissão do Senhor Bom Jesus dos Passos, montou um altar em frente a casa onde residia Dom Joaquim e convidou-o para fazer o sermão do encontro.
No entanto, o velho prelado não encontrou forças para atender aquele pedido. Da janela de sua casa, viu com os olhos da alma, o cortejo religioso que passava pela rua. Horas depois, recolhido à sua velha cadeira, morria à semelhança de Samuel, o último dos Juizes de Israel.
Na manhã do dia 31, iniciaram-se os preparativos para seus funerais. Decretado feriado municipal por três dias, o corpo de Dom Joaquim foi levado para a Igreja Matriz e ali o povo macaibense, entre sentimentos compungidos e lágrimas, rendeu sua última homenagem ao primeiro bispo do Rio Grande do Norte. Seu corpo foi encomendado pelo monsenhor João da Mata Paiva (vigário-geral da diocese de Natal), auxiliado pelo padre João Weberck (vigário de Macaíba) e às 12:00 horas foi sepultado no Cemitério Público daquela cidade, que abrigou-lhe em seus últimos momentos de vida.
Trinta dias depois, a diocese celebrou suas exéquias solenes na antiga catedral, oficiadas por Dom Marcolino, 4º bispo de Natal. Na oportunidade, o padre Francisco das Chagas Neves Gurgel - secretário do bispado - pronunciou uma célebre oração fúnebre, inspirada no II Livro da Sabedoria.
No dia 9 de fevereiro de 1951, os restos mortais de Dom Joaquim Antônio de Almeida, foram exumados e transladados para uma capela em Macaíba, onde aquele prelado havia celebrado sua missa votiva. Por fim, em 3 de março seguinte, foram transportados para a antiga Catedral de Natal e ali chegaram acompanhados por vários fiéis, autoridades, sacerdotes e familiares, além de grande massa de curiosos, conduzidos numa urna por um grupo de escoteiros, ao som de marcha fúnebre.
A referida urna foi inumada no interior da catedral, junto à capela do Santíssimo Sacramento. No local, lê-se a seguinte inscrição latina: “Hujus vitae, testis virtutis/ Fuit custas; / Utque justus, Regis magnalia”, que em português, significa: “Foi desta vida o guardião e testemunha da virtude para cantar no céu, as grandezas de Deus”.
FONTE: http://www.construindoahistoria.com/search?updated-max=2011-05-02T12:07:00-07:00&max-results=10&start=24&by-date=false

A FREGUESIA DE NOSSA SENHORA DA GUIA, DO ACARI E SEU PRIMEIRO VIGÁRIO


José Ozildo dos Santos


Em idos de 1725, o sargento-mor Manoel Esteves de Andrade, oriundo da capital paraibana, fixou-se no Acari, após adquirir o sítio ‘Saco dos Pereiros’, por compra feita ao seu parente Nicolau Mendes da Cruz. Sentindo-se só, aquele desbravador (que era solteiro), freqüentemente chamava sua mãe para residir com ele no Seridó. Esta, muito católica, explicava ao filho que somente se deslocaria para aquele sertão inculto, quando existisse nas proximidades de sua fazenda uma capela, onde pudesse professar sua fé cristã.
Assim, em 1736, visando atender ao pedido de sua genitora, Manoel Esteves endereçou uma petição a dom José Fialho, Bispo de Olinda, a cuja diocese era subordinado o território norte-riograndense, solicitando autorização para erigir uma capela, no lugar chamado ‘Acari’, recebendo, no final, a devida:

“Ilustríssimo senhor. Dis o Sargento Mor Manuel Esteves de Andrade morador no districto do curato de Piancó que elle pretende erigir hua capella com a invocação de N. S. da Guia, no lugar xamado Acari districto do dito curato, para o fim de sua alma e dos mais moradores circunvizinhos, por ficarem distantes de sua Matriz oito dias de viagem, para cujo fim tem junto muita pedra, lhe fez a escritura do patrimonio que apresenta em meia legoa de terra que rende todos os annos de arrendamento deis mil reis, os quais aplica p.ª os paramentos, reparação, fabrica da dita capella por tanto pide a vossa Illustrissima lhe faça mercê atendendo ao muito serviço de Deos que se seguirá com a erecção desta capella conceder-lhe licença para apuder erigir, estando de todo acabada, e ornada com os paramentos necessários o seu Reverendo Parocho a possa benzer e nella celebrarem-se os divinos officios e já os moradores daquelle lugar alcansarão licença que apresentão para apuderem erigir por ter sido vossa Illustrissima informado do Reverendo Parocho ser util, em numerario, e receberá mercê. Para provisão para se erigir a capella na forma do estilo. Olinda, onse de Novembro de mil sete centos e trinta e sete estava a firma do Illustrissmo Senhor Bispo. Dom José Fialho por mercê de Deos, e da Sancta e Apostolica Bispo de Pernambuco, e do Concelho de sua Mag.e aq.m Deos goarde e d.a pela presente concedemos licença ao Sargento Mor Manoel Esteves de Andrade, para que possa erigir a capela de N. S. da Guia no lugar xamado Acari do curato de Piancó erecta na forma da nossa constituição dada em Olinda sob nosso signal, e sello aos dose dias do mês de Novembro de mil sete centos e trinta e sete, eu Miguel Alvares Lima escrivão da Câmara Episcopal o escrevi estava a firma do Illustrissimo Senhor bispo sello valla sem sello ex causa seis mil tresentos e vinte. Monteiro Registrada a folhas cento e setenta e nove do Livro trese do Registro Olinda dose de Novembro de mil sete centos e trinta e sete, etc, etc”.

Após receber a autorização, o fundador de Acari retornou ao Seridó e logo tratou de iniciar a construção da capela de Nossa Senhora da Guia, que tornou-se o marco da evolução histórica desta cidade.
Concluindo a capela, Manoel Esteves voltou à presença daquele prelado pernambucano, apresentando-lhe essa segunda petição:

“Diz o Sargento Mor Manoel Esteves de Andrade morador do certão do Acari Freguesia do Piancó donde elle Sup.e tem erecto hua capella invocação N. S. da Guia com provisão de vossa Illustrissima, para effeito de se benser por esta acabada, e ter os paramentos necessários. Só lhe falta provisão pide a vossa Illustrissima seja servido mandar provisão para se benser a dita capella estando na forma da constituição pelo seu Reverendo Parocho, ou sacerdote de sua licença pelos longes do dito lugar e se puder diser nella missa, e os mais divinos officios, e receberá mercê”.

No dia 14 de abril de 1738, dom José Tomás deu o seguinte despacho:  “Passe provisão para se benser a capela na forma que se pede tendo ela os requisitos necessarios”. O documento final recebido pelo sargento-mor Manoel Esteves de Andrade tinha o seguinte teor:
“Concedemos licença ao sargento mor Manuel Esteves de Andrade, para que possa erigir a Capela de Nossa Senhora da Guia no lugar chamado Acari do Curato de Piancó, ercta na forma da nossa Constituição”.

No entanto, a ação pioneira do sargento-mor Manoel Esteves de Andrade não parou por aí. Retornando ao Acari, tratou de construir uma casa, ao lado esquerdo da capela, destinada à residência dos futuros párocos e sacristães. Esta casa, considerada a primeira do Acari, resistiu até 1908, quando foi demolida para dá lugar ao moderno Grupo Escolar Tomás de Araújo, onde, anos mais tarde, passou a funcionar a Prefeitura Municipal.

Lamentavelmente, o século XVIII é uma página obscura na história da cidade de Acari. Nada, exceto as sesmarias concedidas na região, até o presente foi divulgado e esta falta de documentos, nos impossibilita de relacionar os sacerdotes que foram capelães nessa localidade seridoense, durante os noventa e sete anos em que a Igreja de Nossa Senhora da Guia, permaneceu reduzida à condição de capela.
Nessa condição, ela integrou a freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó - sediada na atual cidade de Pombal, no alto sertão paraibano - até a criação da freguesia de Nossa Senhora Santana do Seridó, em Caicó, ocorrida a 15 de abril de 1748, em cumprimento as disposições contidas na provisão de 20 de fevereiro do ano anterior, expedida por dom frei Luís de Santa Teresa, à época, bispo de Olinda.
Entre os sacerdotes que passaram pela povoação de Acari, o mais antigo que se tem conhecimento é o padre José da Costa Soares, que a 15 de novembro de 1762 obteve por sesmaria uma data de terra, entre o rio Seridó e o Poço (sítio) da Raposa, na ribeira do Quipauá, no atual município de Santana do Seridó e que em 1776, exercia seu sacerdócio como capelão na próspera povoação, sede da futura freguesia de Nossa Senhora da Guia.
Lentamente, a pacata povoação do Acari foi ganhando importância e delineamento urbano. Em meados de 1832, para ali retornou o padre Tomás Pereira de Araújo, ordenado na capital baiana, aos 17 de março daquele ano.
Nascido a 15 de janeiro de 1809, o padre Tomás Pereira foi o primeiro acariense a ser distinguido com o título de sacerdote. Filho do casal Antônio Pereira de Araújo e Maria José Medeiros, pelo lado paterno, era neto de José Damasceno Pereira e Maria dos Santos Medeiros, e, materno, de Tomás de Araújo Pereira (primeiro presidente da província do Rio Grande do Norte) e de Teresa de Jesus.
Seus estudos eclesiásticos foram realizados no Seminário de Nossa Senhora da Graça, sediado em Olinda, província de Pernambuco, onde matriculou-se em 1826. No entanto, como dom João da Purificação Marques Perdigão - bispo de Olinda - encontrava-se ausente de sua diocese, o jovem sacerdote teve que dirigir-se para a cidade de Salvador, onde recebeu a sagrada ordem do presbiterato das mãos do arcebispo dom Romualdo Antônio de Seixas, tendo como companheiro de ordenação, o padre Joaquim Félix de Medeiros, também natural do Seridó potiguar.
Ao retornar ao Acari, aquele sacerdote foi recebido festivamente e após celebrar sua primeira missa na capela de Nossa Senhora da Guia, tornou-se seu capelão, em substituição ao padre Manoel Cassiano Pereira da Costa.
Prestigiado em seu meio, o padre Tomás Pereira ingressou na política e a 10 de novembro de 1834, elegeu-se deputado à primeira legislatura da Assembléia Legislativa Provincial (1835-1837). No exercício de seu primeiro mandato parlamentar, integrou a Comissão de Negócios Eclesiásticos. Por sua iniciativa e empenho, foi criada a Freguesia de Acari, através da Lei Provincial nº 15, de 13 de março de 1835, sob a invocação de Nossa Senhora da Guia, sendo esta a sua primeira conquista como deputado provincial e legítimo representante dos interesses de seus conterrâneos.
No dia 17 daquele mês e ano, por provisão assinada pelo padre Francisco de Brito Guerra - visitador provinciano - foi nomeado vigário encarregado da Freguesia de Acari, cabendo-lhe a missão de instalar aquela nova sede paroquial, a 16 de abril seguinte.
Antes, porém, em janeiro daquele ano de 1835, o padre Tomás Pereira havia sido designado vigário encarregado da freguesia de Nossa Senhora das Mercês, sediada na povoação de Serra de Cuité, província da Paraíba, funções que desempenhou por um ano e que a partir do mês de março, passou a acumular com a regência da Freguesia de Nossa Senhora da Guia, de Acari.
Ainda por sua ação parlamentar, conseguiu a aprovação do projeto, que convertido em Lei, sob o nº 16, de 18 de março de 1835, aprovou a criação da Vila do Acari, instituída dois anos antes, pelo Conselho da Província.
Em 1836, o padre Tomás Pereira de Araújo candidatou-se ao cargo de vigário colado da freguesia sob sua regência. Para a instrução do processo de habilitação, sobre sua conduta e modos de vida, atestaram os vereadores da Câmara Municipal do Acari. Em ato contínuo, “o bispo autorizou-o a opor-se por despacho de 26 de janeiro de 1836, propondo-o em primeiro lugar para o Acari, em ofício ao presidente da Província, datado de 13 de julho. O presidente indicou-o em 30 de agosto de 1836. Ainda neste 1836 foi nomeado”.
Como já ocupava a referida freguesia, o padre Tomaz continuou n exercício de suas funções e oficialmente somente foi investido no cargo de vigário colado da freguesia de Nossa Senhora da Guia, aos 18 de maio de 1839, por procuração, oportunidade em que lavrado o seguinte termo:

“Aos 18 de maio de 1839, processa-se a cerimônia de colação na Matriz do Corpo Santo, do Recife, onde o delegado do Bispo, D. Marques Perdigão, fez a imposição do barrete ao diácono Francisco Jorge de Souza, procurador do Pe. Thomaz de Araújo, que, pelo mesmo fez a profissão de fé e juramento... Finalmente mandamos passar a presente em virtude da qual havemos ao dito Padre Thomaz Pereira de Araújo por ‘collado; e confirmado na villa do Acary, deste nosso Bispado na forma do direito e de nossa Constituição, e lhe damos jurisdição ordinária para poder administrar todos os sacramentos aos seus fregueses, aos quais mandamos sob pena imposta pelo Direito o receber como seu verdadeiro parocho”.

Político influente, filiado à hostes do Partido Liberal, o padre Tomás de Araújo retornou à Assembléia Provincial reeleito para as legislaturas de 1838-1839, 1840-1841, 1848-1849 e 1860-1861. Naquela Casa Legislativa, durante as sessões de 1849, foi substituído pelo suplente padre Luís da Fonseca e Silva.
Em agosto de 1864, recebeu em sua paróquia a visita do padre mestre Dr. José Antônio Maria Ibiapina - o apóstolo do Nordeste - que, em peregrinação, ali esteve realizando suas santas missões, fundando uma Casa de Caridade, que teve vida efêmera.
Sacerdote dedicado, auxiliado por seus paroquianos, no período de 1859 a 1865, construiu a atual Igreja Matriz de Acari, que, à época, custou a importância de cem contos de réis, e, por suas proporções e tamanho, ainda hoje é a segunda maior do interior do Estado.
Na época, a imagem de Nossa Senhora da Guia, encontrava-se guardada na Igreja do Rosário. Sua translação para a nova Matriz, procedeu-se no dia 5 de agosto de 1867, oportunidade em que realizou-se uma magnífica festa, que “prolongou-se até o dia 16 daquele mês, com a presença, calculadamente, de oito mil pessoas, foi mister a construção de ruas de ranchos de palhas pela cidade”, para acomodar os visitante, fato, que durante muito tempo, foi lembrado pelo povo acariense.
À essa grande cerimônia compareceram 19 sacerdotes que não mediram as fadigas de uma jornada tão áspera até o sertão comburido pela inclemência do sol, vencendo óbices, a fim de reverenciarem a Virgem com as solenes cerimônias litúrgicas da benção de uma nova Matriz construída pelo esforço dos paroquianos e devotos das circunvizinhanças, graças à feliz iniciativa do vigário daquela centenária paróquia”.    
Homem culto, o padre Tomás era versado na língua latina e tido como excelente orador sacro. Inicialmente, regeu a Freguesia de Acari de 16 de abril de 16 de abril de 1835 a 4 de junho de 1870, quando foi substituído pelo padre Luís Marinho de Freitas.
De 1870 a 1873, esteve novamente como vigário encarregado da freguesia de Nossa Senhora das Mercês, sediada na vila de Serra do Cuité, no Curimataú paraibano, que à época, limitava-se com a antiga freguesia de Acari. No entanto, a 3 de agosto de 1873, reassumindo sua antiga paróquia, permaneceu como vigário colado de Acari até 2 de maio de 1893, quando doente, afastou-se de suas funções, falecendo no dia 13 de dezembro daquele ano. Em seus últimos momentos foi assistido pelo padre José Antônio da Silva Pinto, que oficiou suas exéquias.
Fugindo dos princípios da Igreja Católica, o padre Tomás Pereira deixou descendência no Seridó. E, espelhado, talvez, no exemplo do padre Francisco de Brito Guerra, em vida, no dia 7 de janeiro de 1869, compareceu perante um tabelião público na vila de Acari e assinando uma escritura de perfilhação, alegando fragilidade humana, reconheceu como seus, os seguintes filhos: Gercina Maria de Jesus, Teodora Maria de Jesus (filhas de Maria Custódia do Amor Divino); Maria Senhoria da Conceição (filha de Joaquina Senhorinha da Conceição); Manoel de Santana, Maria Inácia da Guia e Ana Maria da Guia (filhos de Antônia Maria da Conceição), “frutos de uniões clandestinas, proibidas pela Igreja”, que tornaram-se seus herdeiros e sucessores.
Por esta atitude, foi bastante censurado, dentro e fora da Igreja, fato que obrigou-o afastar-se de sua freguesia, passando a reger interinamente a Matriz de Nossa Senhora das Mercês, da vila de Serra do Cuité. Após promover o reconhecimentos de seus filhos o padre Tomás Pereira de Araújo “ainda viveu 24 anos e, certamente, transpassou-se com a consciência tranqüila por ter confessando publicamente o pecado cometido e, como cidadão, praticado um ato de justiça”.
Conta-se, que na juventude, o padre Tomás fora “um rapaz um pouco endiabrado e incorreu, muitas vezes nas iras do avô que depois de uma dúzia de bolos, trancava-o na cafua, tortura maior que a da palmatória. Quando em 1833 (?) o padre Tomás tirou, em concurso, a freguesia do Acari, o velho Tomás de Araújo, já cego, começou a exigir que o ouvisse de confissão. O padre, relutava, alegando o respeito filial, mas o velho replicava: O senhor como vigário da freguesia, não é meu neto é o meu pastor que tem a obrigação de atender a todos os penitentes que o procurarem. Não houve de evitar a confissão e o padre, lembrado talvez do castigo um tanto desumano, deu ao postulante a penitência de passar meia hora trancado na cafua. Tomás de Araújo cumpriu a pena e, ao sair da cafua, mandou chamar um pedreiro e demoliu-a”.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

PADRE JOÃO MARIA

Copiado de: http://www.construindoahistoria.com/

O SANTO POTIGUAR (I)


José Ozildo dos Santos

J
oão Maria Cavalcanti de Brito nasceu a 23 de junho de 1848, no sítio Logradouro, no antigo território caicoense, hoje, parte integrante do município de Jardim de Piranhas, no Seridó norte-riograndense. Foram seus pais Amaro Cavalcanti Soares de Brito e Ana de Barros Cavalcanti. Com seu pai, que era professor primário, aprendeu as primeiras letras.
Padre João Maria

Em 1861, matriculou-se no tradicional Seminário de Olinda, no qual estudou os preparatórios e fez parte do curso de Teologia, recebendo as ordens menores. Transferindo-se para o Seminário de Fortaleza, ali concluiu seus estudos eclesiásticos. Sua Ordenação sacerdotal, ocorreu em 1871, após receber a ordem sagrada do presbiterato das mãos de Dom Luís Antônio dos Santos, Bispo Diocesano de Fortaleza.
Volvendo ao Rio Grande do Norte, o jovem sacerdote seridoense celebrou sua primeira missa a 10 de dezembro daquele mesmo ano, na Igreja Matriz de Nossa Senhora Santana, na cidade do Caicó e iniciou no sacerdócio como Capelão da povoação de Jardim de Piranhas, sua terra natal, onde fundou uma escola primária que funcionava em sua casa materna (1872-1877).
Seguidamente, foi capelão da povoação de Flores, atual cidade de Florânia, na região do Seridó potiguar. Designado vigário da Freguesia de Santa Luzia do Sabugi, na Paraíba, retornou ao Rio Grande do Norte para reger a Matriz de Nossa Senhora do Ó, de Papari - atual cidade de Nísia Floresta.
Anos mais tarde, permutando sua freguesia com o Padre José Herminio da Silveira Borges, tornou-se vigário da Matriz de Senhora da Apresentação, da cidade do Natal, em cujas funções empossou-se a 7 de agosto de 1881.
Sacerdote virtuoso, o Padre João Maria – como ficou conhecido -  por “seu apostolado incessante e caridade inextinguível foi a mais impressionante e sedutora figura de sacerdote que tenha paroquiado os natalenses. Em vida, cercava-o uma auréola de santidade”.
Em Natal, o Padre João Maria fez sua residência no consistório da Matriz de Nossa Senhora da Apresentação e num gesto digno de registro, “diariamente, a pé ou montado num jumento, saía de casa em casa, distribuindo conselhos, otimismo, animando e incentivando as almas piedosas. Dava todo dinheiro que por acaso recebia de suas atividades na Igreja. Muitas vezes, dava a própria rede, passando a dormir numa cadeira velha”.
Em 1905, quando da epidemia de varíola na cidade do Natal, “desdobrou-se no atendimento a quantos necessitavam de auxílio, remédios, comido, roupas, carregando água ou lenha para os que nem isso possuíam, trabalhando noite e dia nessa vigília de solidariedade humana”.
Figura da maior culminância na história do clero potiguar, o Padre João Maria foi ‘um verdadeiro discípulo de Cristo’, pois “a sua fé foi íntegra e infrangível como a dos mártires, a sua caridade incansável e ilimitada como a de Vicente de Paulo”.
Abolicionista nato, participou ativamente da vida social e católica natalense. E, num gesto pioneiro, fundou o ‘Oito de Setembro’, que foi o primeiro jornal católico editado no Rio Grande do Norte. Em Natal, o Padre João Maria criou a Escola São Vicente de Paula, na Matriz e deu início as obras de construção da futura Catedral, na Praça Pio X.
Cognado de ‘pai dos pobres’, esse título por si só, traduz a incomparável bondade que possuía. Adorado pelo povo natalense, faleceu a 16 de outubro de 1905, na capital potiguar, deixando “imperecível recordação de suas peregrinas virtudes”. No dia de seu sepultamento, a cidade toda esteve presente ao cortejo, que converteu-se numa apoteose.
Para homenagear seu eterno pastor, os natalenses colocaram um busto em bronze (modelado pelo escultor Hostílio Dantas), na praça que possui seu nome e que foi inaugurado no dia 7 de agosto de 1921. O lugar, logo tornou-se ponto de devoção popular e ainda hoje é visitado diariamente por milhares de devotos do ‘santo’ da cidade do Natal.
Entre seus irmãos, alcançou projeção e destaque o Dr. Amaro Cavalcanti, jurista de renome internacional, que representou o Rio Grande do Norte no Senado e na Câmara dos Deputados, e, foi Ministro de Estado e do Supremo Tribunal Federal, durante a Primeira República.
Patrono da cadeira nº 11 da Academia Norte-Riograndense de Letras, em vida, o Padre João Maria foi “absolutamente bom e absolutamente humilde” e tive “a raríssima felicidade de conservar imaculados esses atributos de tua perfeição, sendo, como igualmente foste, absolutamente pobre”. Seu sacerdócio, era um apostolado e como cristão, soube amar o próximo mais que do que a si mesmo.

Continua...

O RIO GRANDE DO NORTE NA CRÔNICA POLICIAL DO SÉCULO XIX - I

COPIADO DE: http://www.construindoahistoria.com/

O ASSASSINATO DO VIGÁRIO DA VILA DE PAPARI (21-11-1835)

José Ozildo dos Santos


N
orte-riograndense, o padre Antônio Gomes de Leiros fez seus estudos eclesiásticos no Seminário Episcopal de Nossa Senhora da Graça, em Olinda, Província de Pernambuco, onde ordenou-se em finais de 1833. Retornando ao Rio Grande do Norte, assumiu a recém-criada Freguesia de Nossa Senhora do Ó, sediada na antiga vila de Papari (atual cidade de Nísia Floresta), tornando-se o primeiro vigário daquela sede paroquial.


Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, na atual cidade de Nísia Floresta


Jovem e com grande disposição para o trabalho, o padre Leiros - como ficou conhecido - logo tornou-se estimado por seus paroquianos. No entanto, esquecendo os ensinamentos e os dogmas da Igreja e movido pelo espírito da ganância, ambicionou o ‘Sítio Bica’, pequena propriedade agrícola, pertencente ao agricultor Tomás Marinho, que com muitos esforços, havia transformado seu sítio no mais produtivo da região.
Alegando que o referido imóvel rural ficava dentro das terras, que formavam o patrimônio de sua freguesia, o referido sacerdote contratou os serviços do rábula Manuel Gabriel de Carvalho e usou das prerrogativas do cargo que ocupava para conseguir seus objetivos.
No final, num processo jurídico que durou poucos meses, conseguiu uma sentença que lhe foi favorável. Por outro lado, o agricultor Tomás Marinho, que passou a ser objeto de gozação em Papari, decepcionado com a justiça, jurou vingança. Adquiriu uma pistola e munições, na cidade do Natal e de maneira proposital, numa certa tarde, encontrou-se com seu arquiminigo, no centro da vila de Papari.
O padre Leiros, vendo-o, dirigiu-se ao seu encontro e num tom de zombação, disse:
- Tomás, perdeste a questão e a terra!
O agricultor, sacando de sua pistola, bruscamente investiu-se contra o sacerdote, dizendo:    
- E o senhor, padre, a vida!
Assim, efetuou um disparo, que mortalmente atingiu o referido sacerdote.
Ferido, o padre Leiros caiu agonizando. Minutos depois, Tomás Marinho foi preso e posteriormente, transferido para a cadeia do Natal. Na prisão, o assassino foi ajudado por alguém, que lhe forneceu uma lima e quinhentos mil réis, quantia que foi usada “para fazer o soldado, encarregado da sentinela, dormir estando acordado”.
Assim, serrando as grades de sua cela, evadiu-se numa noite chuvosa, antes de ser levado a julgamento. E, apesar de todas as diligências policiais, seu paradeiro não foi descoberto.
Quanto ao padre Leiros, assassinado publicamente, no centro de Papari, às 2 horas da tarde, do dia 21 de novembro de 1835, foi sepultado no interior da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Entretanto, em princípios de outubro de 1839, “o tenente José Antônio de Souza Caldas, comandante do destacamento do Corpo de Polícia na Vila Nova da Princesa, atual cidade de Assú, fora informado que um homem misterioso residia nos arredores da sede. Procurou verificar a veracidade da denúncia e encontrou Tomás Marinho já morto, por um colapso, horas antes da diligência policial”
Conduzido para a sede daquela vila, Tomás Marinho foi sepultado no interior da Matriz de São João Batista. No dia 15 daquele mesmo mês, chegou ao Assú, em visita pastoral, dom João da Purificação Marques Perdigão, bispo de Olinda, a cuja diocese era subordinado o território potiguar. Informado que o assassino do padre Leiros, havia sido sepultado no interior da Matriz local, aquele prelado determinou que o referido cadáver fosse dali retirado e sepultado distante do solo sagrado, no anonimato, para que fosse esquecido com o tempo.
Posteriormente, visitando a vila de Papari, no período de 3 a 5 de novembro daquele mesmo ano de 1839, o referido diocesano registrou a seguinte versão para os fatos:
Foi nesta povoação, que assassinaram o pároco antecessor do atual pela 1 hora da tarde, cuja morte mui sensível foi para a maior parte dos habitantes. Esse assassino, morrendo na freguesia do Assu, poucos dias antes de eu visitar aquela freguesia, foi sepultado na igreja, depois que aquele pároco encomendou seu corpo, ignorando ser o assassino do dito padre. Logo porém, depois que este corpo foi entregue à sepultura, foi desta tirado e enterrado em lugar não sagrado, em conseqüência da certeza que o pároco teve de ser homem o assassino daquele pároco”.
Na própria Papari - hoje cidade de Nísia Floresta - o nome do padre Leiros é completamente esquecido, numa visível demonstração de que não existe lugar na história para aqueles que esquecem seu ofício e desvirtuam os exemplos da fé.

O Guardião do Transitus Domini em Terras Potiguares


O Guardião do transitus Domini  em Terras Potiguares
 Irmã Vilma Lúcia de Oliveira, FDC
Coordenadora do Arquivo Metropolitano
 e do Centro Documental Potiguar
arquivo@arquidiocesedenatal.com.br

            A comunidade católica de Natal foi surpreendida, na manhã de 13.12.2011, com a notícia da morte do Monsenhor FRANCISCO DE ASSIS PEREIRA, aos 76 anos. Velado na Catedral Metropolitana de Natal, com missa presidida pelo Arcebispo Dom Matias Patrício de Macedo, concelebrada pelo Arcebispo Emérito Dom Heitor de Araujo Sales e diversos Sacerdotes, seguida do sepultamento no cemitério Vila Flor.
            Natural de Santa Cruz, RN, Monsenhor Assis nasceu em 12.4.1935. Filho de José Pereira de Carvalho e Rita Rodrigues de Carvalho. Foi ordenado sacerdote em 13.4.1958; recebeu o Título de Monsenhor, Capelão do Santo Padre, concedido pelo Papa João Paulo II, em 1991. Em 1.6.1994 a Santa Sé o confirmou Postulador, junto à Congregação das Causas dos Santos, no Vaticano. Além de Vigário, Capelão e estreito colaborador do Arcebispado de Natal em diversas funções eclesiais, foi professor, pesquisador, escritor, arquivista e compositor sacro. Fiel à Eucaristia, ao Breviário e ao Santo Rosário. Um Mestre que rezou, estudou, advertiu, confessou, perdoou, provocou confrontos, pediu perdão - como costumava dizer: tenho o pavio muito curto.  Contudo, um Mestre de gerações.
            Entregou sua vida a serviço da Igreja e da tutela daquilo que ela produziu em sua missão. Era cuidadoso em conservar a memória da ação pastoral da Arquidiocese de Natal.  Tinha sempre presente que na mens da Igreja os arquivos são lugares da memória das comunidades cristãs e promotores de cultura para a nova evangelização (Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja, A Função Pastoral dos Arquivos Eclesiásticos, Vaticano, 2.2.1997, p. 5). Se algumas características de sua fisionomia nos surpreendem, temos de pensar em seu caráter profundamente religioso e dedicado ao resgate histórico do transitus Domini (passagem do Senhor na expressão de Paulo VI) em Terras Potiguares. Ter o culto dos pedaços de papéis, dos documentos, dos arquivos, dos testemunhos de vidas, quer dizer, por repercussão, ter o culto de Cristo e o sentido da Igreja. (PAULO VI, Alocução aos Arquivistas Eclesiásticos, 26.9.1963).
            Assim, Monsenhor Assis, compreendia e tratava as fontes históricas, como laços que ligam a Igreja numa ininterrupta continuidade. São partes da mensagem de Jesus, que passa pelos escritos da primeira comunidade apostólica e de todas as comunidades eclesiais, chegando até nós num proliferar de imagens que documentam o processo de evangelização de cada Igreja Particular e de toda a Igreja (Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja, A Função Pastoral dos Arquivos Eclesiásticos, Vaticano, 2.2.1997, p. 6). 
            Seu ministério foi fecundo, Doutor em Filosofia e Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, tornou-se uma figura das mais preparadas e solicitadas que a Arquidiocese de Natal já conheceu. No Seminário São Pedro foi professor de Latim, Grego, Teologia, Grego Bíblico e Vice-Reitor (1962-1964). Na Universidade Federal do RN participou da implantação do Curso de Filosofia, do qual foi Coordenador (1982-1984), lecionou Metodologia da Ciência, Sociologia, Metafísica Geral e Problemas Metafísicos. Na Emissora de Educação Rural, da Arquidiocese de Natal, foi Diretor-Superintendente (1963-1965). Coordenou a Comissão de Liturgia, Música e Arte Sacra (1964-1977); o Secretariado de Opinião Pública (1967-1971); a Cúria Metropolitana da Arquidiocese de Natal (1988-2000). Foi Juiz Auditor da Câmara Eclesiástica de Natal, Vigário Episcopal para o Clero (1991-2001) e Vigário Geral da Arquidiocese (1994-2003).
            Como Postulador trabalhou no Processo de Beatificação dos Mártires de Cunhaú e Uruaçú da Arquidiocese de Natal, de D. Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira e de Dom Francisco Expedito Lopes, da Arquidiocese de Olinda e Recife, do Padre José Antônio de Maria Ibiapina, da Diocese de Guarabira, no Estado da Paraíba, do Padre João Maria Cavalcanti de Brito e do Cônego Luiz Gonzaga do Monte, ambos da Arquidiocese de Natal, e na Reabilitação Histórico-Eclesial do Padre Cícero Romão Batista, da Diocese do Crato, CE. Sua trajetória culmina como Sócio Efetivo da Academia Brasileira de Hagiologia e do Instituto Histórico e Geográfico do RN. Sua abnegação transparecia especialmente no modo como cumpria seus deveres, carregando em seu coração os sinais históricos das gerações que nos precederam no sinal da única fé. Eis o homem, o sacerdote, o Guardião do “transitus Domini” em Terras Potiguares.

COPIADO DE: http://www.genealogiadorn.blogspot.com/2012/01/o-guardiao-do-transitus-domini-em.html#comment-form

O inverno e a caatinga

Jornal de WM


Meteorologistas de toda região nordestina reúnem-se em Natal, hoje e amanhã, para uma "análise dos parâmetros oceânicos e atmosféricos globais para prever o período chuvoso dos meses de março, abril e maio no semiárido", como está escrito no rilise oficial. Na linguagem matuta, quer dizer: o pessoal vai anunciar se haverá inverno normal ou não, depois de consultar esses 'parâmetros' do mar e do ar. No encontro anterior, realizado em janeiro em Fortaleza, a dica foi que teríamos chuvas dentro da média histórica.

Os profetas sertanejos acreditam que vamos ter um inverno bom. Os maribondos cabocos já fazem suas casas nos alpendres do Seridó e dos Cariris Paraibanos, conferi na viagem de semana passada. As formigas cuidam da proteção em torno de suas moradias subterrâneas e não se viu, nas ribeiras do Potengi, rolinha fazendo ninho no chão. Além do mais, as pedras de sal de Santa Luzia se derreteram em março, abril e maio, me confirmou Pedro Malhada. Acredito nas duas corporações: dos meteorologistas e dos sábios profetas sertanejos.

Aqui e acolá se tem notícia de chuvas no Piauí. Foi assim em dezembro e foi assim em janeiro. No Cariri cearense deu umas chuvadas boas na primeira metade de janeiro. Aqui mesmo no Rio Grande do Norte houve uma ou outra animando a gente. Tem boa parte do Seridó que suas matas, por cima das serras, estão verdes que é uma beleza. Vi isso em Acari e no caminho para Carnaúba dos Dantas e nas conversas percebeu-se que os sinais da natureza são positivos. Aguardemos o que vão dizer, agora, os "parâmetros oceânicos e atmosféricos globais". Faço a maior fé no taco dos meteorologistas, mas sem esquecer de São José.

Bom, tem outra reunião importante nesse universo sertanejo, mas que, infelizmente, a mídia natalense não deu importância. Foi, ontem, no CTGás: "Oficina Bioma Caatinga". Uma preparatória para a I Conferência Regional de Desenvolvimento Sustentável do Bioma Caatinga - A Caatinga na Rio + 20, que acontecerá agora, em março (de 14 a 16), em Fortaleza.

Na reunião de ontem aqui em Natal estavam programadas palestras e debates sobre o Bioma Caatinga Potiguar, Plano de Combate a Desertificação do Rio Grande do Norte e projetos para a conservação da Caatinga, entre outras proposições. Um assunto que é muito mais importante, bem muito mais, do que a Arena das Dunas. Gente, estão acabando com a caatinga e  o sertão ameaçado de virar um deserto, suas matas nativas se transformando em lenha para os fornos das cerâmicas!

A reunião de ontem no CTGás  foi promovida pela Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos. Será que tinha algum prefeito presente?

FONTE: http://tribunadonorte.com.br/noticia/o-inverno-e-a-caatinga/212172

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

ENCONTRO NA UFRN ABORDARÁ QUESTÕES INDÍGENAS


Na próxima quinta (16/02), no auditório da reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, ocorrerá a VI Aula Magna do Curso de Direito.

Na ocasião estarão presentes os palestrantes: professor José Humberto Góes Jr. - advogado popular dos indígenas do Santuário dos Pajés, em Brasília (local sagrado que vem sendo ameaçado pela especulação imobiliária); o morubixaba Manoel, da Aldeia Trabanda (Sagi / Baía Formosa, litoral sul do Rio Grande do Norte) - que abordará questões referentes aos conflitos de terra que atualmente envolvem a aldeia (a imobiliária Bezerra Imóveis está tentando grilar as terras em que vivem os índios do Sagi, para vendê-las a europeus interessados em construir um resort); e o professor Alcides Sales, da Fundação José Augusto - que apresentará aspectos de seu trabalho de resgate da cultura indígena no Rio Grande do Norte.

No sábado último (11/02), a convite do morubixaba Manoel, estive na Aldeia Trabanda, com os indígenas do Sagi. Junto a um grupo de pesquisadores e amigos das causas indígenas (reunindo as áreas de História, Geografia, Ciências Sociais e Matemática), pudemos conversar bastante sobre as questões pertinentes à comunidade e sobre a cultura indígena em nosso estado. Não deixamos de dançar, durante a noite, o Sagrado Toré, através do qual a comunidade foi abençoada pelas Forças do Criador e da Jurema Sagrada.
 
FONTE: http://profangelico.blogspot.com/