quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Historiador revela mais provas de que o Brasil foi realmente "descoberto" no RN

Duas mil milhas separam a cidade de Touros, no Rio Grande do Norte, a Porto Seguro, na Bahia. Mas poucos sabem que ambas possuem um ponto em comum: o descobrimento do Brasil. Pois é. A polêmica em torno do lugar exato onde Pedro Álvares Cabral desembarcou pela primeira vez no país voltará à tona nos próximos meses. O professor universitário Lenine Pinto, historiador e responsável por uma ampla pesquisa em torno do assunto, está finalizando mais um livro, desta vez intitulado “O Bando do Mar”. Na obra, dará continuidade ao seu primeiro livro, que tornou famosa a polêmica tese de que o Brasil foi descoberto no Rio Grande do Norte.
No ano de 1998 Lenine Pinto publicou a primeira edição do livro, que tinha por título “A Reinvenção do Descobrimento”. Naquela época a publicação foi destaque nacional pela abordagem da temática do descobrimento, e rendeu ao professor a participação em diversas palestras e programas de televisão. Em entrevista ao Portal Agora RN o docente afirmou estar animado com o novo trabalho, que ele já vem desenvolvendo desde 2007 e pretende lançar no próximo mês de novembro, durante um encontro de escritores em Natal.
“Neste novo trabalho pretendo apresentar aos leitores mais detalhes desse importante período de nossa história, detalhes estes que não estavam na primeira edição”, relatou.
Entre os pontos que o professor destaca como fundamentais para a tese da descoberta aqui no Rio Grande do Norte está o fato de Pedro Álvares Cabral, no dia em que implantou o Marco de Posse na praia de Touros, ter convocado todos os capitães para uma reunião em seu navio. No encontro ele perguntou aos capitães se não seria conveniente enviar um navio de volta a Lisboa para contar ao rei Dom Manoel que eles tinham achado a terra. Ao saber da notícia, o rei de pronto já se dispôs a mandar, no ano seguinte.
Outro ponto que ele ressalta é que Pero Vaz de Caminha, ao descrever a descoberta da terra, disse que a primeira coisa que viu foi um monte alto e redondo, que seria o Pico do Cabugi, segundo a tese de Lenine Pinto. O Monte Pascal, na Bahia, é uma torre, é cortado e não tem pico. “Isso aí é um atestado claro do descobrimento aqui”, ressalta.
O professor também detalhou que o pau brasil nascia aqui no Rio Grande do Norte e se estendia até Cabo Frio, com uma interrupção na Bahia. “Em Porto Seguro não tinha Pau Brasil, muito menos açúcar, essenciais para a economia da época”, completou.

Reivindicação histórica
Questionado sobre a passividade de políticos do RN em reivindicar uma possível correção histórica sobre a descoberta do Brasil, o professor foi bem direto em sua resposta. “Os políticos do Rio Grande do Norte, em outro caso, entregaram a Pernambuco a Ilha de Fernando de Noronha; eles não têm interesse em ajudar a história, não ligam para o nosso registro”, desabafa.
Como benefício ao Estado por essa possível correção histórica, o educador prevê que a mudança poderia ajudar muito a atividade turística potiguar, gerando mais atratividade para o RN.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O CAVALO DE ZUMBA DO TIMBÓ


Zumba do Timbó foi um rico senhor de terras e se encontrava em Lajes, quando recebeu de um portador o recado que sua esposa estava muito mal e o médico mandou dizer que, se quisesse vê-la antes da morte, teria que ir a Ceará Mirim nas próximas vinte e quatro horas. Zumba, em ato contínuo, subiu no cavalo e ganhou as estradas e veredas, cavalgando vinte e quatro horas sem parar, sem comer e sem beber. Quando eram dezessete horas do outro dia e já adentrava em Ceará Mirim, soube pela boca do povo que a esposa já havia morrido e o enterro estava saindo da igreja local. Ele, então, se dirigiu até a igreja, desceu do cavalo, entregou as rédeas a alguém e pediu que deixassem segurar a alça do caixão, só soltando quando o corpo da esposa morta chegou à sepultura.
Depois disso, levou o cavalo para uma de suas fazendas, em São José de Mipibú, para soltá-lo no pasto. Agradeceu sem vergonha ao cavalo dizendo: "A partir de hoje, homem nenhum monta mais em você... vai passar o resto da sua vida pastando e descansando... você andou vinte e quatro hora sem parar, sem reclamar, sem comer nem beber, sofreu tanto quanto eu... você está aposentado aposentado agora.

Escrito a partir de http://padrecelestinopimentel.blogspot.com.br/2010/01/zumba-do-timbo.html

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Terreno em Lagoa D’anta pode ser um sítio arqueológico

Especialistas em arqueologia e antropologia estiveram no município de Lagoa D'anta e visitaram o ‘Sítio Queimado’, onde populares encontraram artefatos em cerâmica supostamente proto tupi. Além dos técnicos do  Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), estiveram no local autoridades do Executivo e Legislativo municipal.  Essa é a primeira etapa para um possível reconhecimento do local enquanto sítio arqueológico.
A busca por um possível sítio arqueológico naquele município, distante 125 km de Natal, começou após a reportagem, na qual a professora e antropóloga Taís Cruz expôs uma peça em cerâmica que possivelmente trata-se de uma tigela indígena. O artefato foi localizado por um aluno dela, em 2012, numa área de exploração de areia para construção civil. O rapaz doou a peça à professora há menos de um mês, quando Taís Cruz suspeitou ser um achado arqueológico.
O possível achado arqueológico chegou ao conhecimento dos especialistas do Iphan e da UFRN, que demonstraram interesse em conhecer a área para possíveis prospecções. Durante a visita realizada, o arqueólogo Iago Albuquerque, membro do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, confirmou que a área de onde a cerâmica indígena foi retirada, há três anos, caracteriza um sítio arqueológico.
De acordo com a Lei 3.924/61, o local agora está sob a proteção do Iphan, constituindo crime a retirada de qualquer objeto do lugar, bem como danificação das peças. Este local era usado para a retirada de areia destinada à construção civil. A antropóloga Taís Cruz explica que fez a primeira identificação da peça de cerâmica, várias histórias apontam para existência de índios naquela região. De acordo com a professora, apesar de a área ter sido isolada pela Prefeitura — com estacas e arame farpado —, eram visíveis as marcas recentes de pneus que podem ser de máquinas para escavação. As últimas peças encontradas este ano teriam sido esmagadas.
“Recebi do aluno Marcelo Sena várias fotos das prováveis cerâmicas indígenas. Elas estavam quebradas, mas estavam ainda em estado de total restauração. Contudo, elas foram encontradas todas destruídas”, denunciou Taís Cruz. A professora explica que os  próximos passos serão a notificação oficial pelo Iphan de que a área deve ser interditada; embargo do aterro sanitário feito no local do sítio arqueológico e a elaboração de um plano de ação para dar início às escavações.  

Copiado de /noticia/terreno-em-lagoa-da-anta-caracteriza-sa-tio-arqueola-gico/323483
Foto de Lenilton Lima

Canoas de Extremoz seriam os artefatos náuticos mais antigos do Brasil.

Consideradas relíquias arqueológicas as  canoas indígenas do período pré-colonial e colonial do Brasil, foram retiradas há cerca de dois anos do fundo da lagoa de Extremoz, na Região Metropolitana de Natal, mas ficaram ao relento à entrada da Fundação de Cultura Aldeia Guajiru, naquela cidade. Ao ver os três lastros de madeira se deteriorando no gramado, os mais desavisados poderão não atentar – e mesmo questionar o cuidado - para importância histórica e cultural do aparato.  
Os pedaços compridos de madeira, que em quase nada lembram uma embarcação, podem contar a evolução socioeconômica e ambiental daquela região, além de ser fonte de pesquisa sobre tecnologias usadas na construção  de canoas. Estudos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) revelam que uma das embarcações é anterior ao descobrimento do Brasil. Com cerca de 700 anos,  a chamada “Extremoz 4” pode ser o artefato náutico mais antigo do país.
As demais, teriam pouco mais de 200 anos. Segundo o resumo da dissertação de mestrado sobre arqueologia marítima, disponível no site da UFPE, o pesquisador Hamilton Marcelo Morais Lins Júnior afirma que foram realizados “mergulhos na lagoa de Extremoz (RN) onde foram encontradas algumas canoas e datadas pelo C14, cujo artefato mais antigo, Extremoz 04 (700 ± 30 BP), serviu de protótipo como base para o estudo das remanescentes ainda existentes no litoral pernambucano”. 
A pesquisa pode “ter obtido a primeira datação de um artefato náutico anterior ao descobrimento do Brasil”, diz a dissertação “arqueologia marítima: a evolução da canoa monóxila em Pernambuco, Brasil (séc. XVI-XX)” . O método do carbono 14 é mundialmente conhecido, com certificação nos Estados Unidos, e neste caso serviu para precisar a datação de quatro embarcações retiradas da Lagoa de Extremoz, uma delas sob a tutela do Museu Câmara Cascudo. Os artefatos vieram à tona com a forte estiagem, em 2013, que baixou o nível das águas da lagoa.  As três canoas indígenas, a maior  com  mais de dois metros de comprimento, encontradas por um pescador foram posteriormente transportada pela Prefeitura para o local. Extremoz, segundo os registros históricos, já foi no século XVI uma aldeia de jesuítas - a Aldeia Guajiru - que vieram para catequizar os índios tupis e paiacus que habitavam a região.
O fotógrafo e pesquisador Lenilton Lima flagrou, à época, a retirada das embarcações e o transporte para um prédio público. “Estava fazendo um trabalho com o boi de reis na região, quando soube que tinham encontrado e estavam removendo peças indígenas da lagoa. Fui lá e registrei. E a expectativa era saber a idade e a quem pertenciam”, afirma.
Ao retornar ao local, o fotógrafo se surpreendeu com o estado em que encontrou o material. “Não sabia que estava tão deteriorado pela ação do tempo, jogado ao relento”, afirma. Ele contou que, além das embarcações que foram removidas, há relatos de pesquisadores da região de existir cerca de 12 canoas ainda submersas pelas águas. “Espera-se que, se houve outras na lagoa, que sejam tratadas com mais respeito. É uma parte importante da história e do resgate da memória da cidade, das civilizações indígenas e ”,

Convênio
O secretário adjunto de turismo de Extremoz, afirma que apesar de estar ao relento e sem qualquer estrutura de amparo, as canoas indígenas retiradas da Lagoa de Extremoz há cerca de dois anos estão “em condições de preservação”. Mas admite que há um projeto para construção de uma sala para abrigar os artefatos arqueológicos, ainda sem prazo para ser iniciada.
Um convênio entre a Prefeitura e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) foi firmado para estudos sobre a datação e identificação de demais dados sobre a construção, uso e a quem pertenciam as canoas. Além disso, a Prefeitura realiza um trabalho educativo sobre a importância arqueológica e histórica da cidade.

“Não é material para exposição, mas para ser fonte de estudo científico. Os arqueólogos que trabalharam ali sabem que está naquele local e, mesmo assim, foi possível fazer os trabalhos”, afirma o adjunto de Turismo. Para servir a exposição, ele explica que as peças precisariam passar por um processo de recomposição. “Todo um trabalho de recuperação ainda será feito”, antecipou o secretário.
A diretora da Fundação de Cultura Aldeia Guajiru, Lêda Medeiros, falando por telefone à imprensa, informou que a casa está apenas com a função de guardar o material e que o trabalho de preservação e pesquisa está sob cuidados da Prefeitura em parceria com Universidades.

Texto adaptado de reportagem original da Tribuna do Norte (http://tribunadonorte.com.br)
FOTOS: Lenilton Lima



sábado, 3 de outubro de 2015

O Massacre de Uruassú na carta do capitão Lopo Curado

Essa carta está no livro "Valeroso Lucideno" de Frei Manuel Calado. Foi escrita 20 dias após o massacre de Uruassú.
 
“Relação das últimas tiranias, e crueldades, que os pérfidos holandeses usaram com os moradores do Rio Grande, escrita pelo Capitão Lopo Curado aos dois mestres de campo, e governadores da liberdade de Pernambuco, João Fernandes Vieira, e André Vidal de Negreiros, cujo traslado de verbo ad verbum, é o seguinte:

 Em particular aviso a Vossas Senhorias do memorável sucesso do Rio Grande, depois das duas matanças que fizeram os tiranos Flamengos, acompanhados de bárbaros Tapuias e Pitiguares, e nesta derradeira, certo que é incrível a tirania, no qual servirá de maior exemplo, e que escureça todas quantas têm sucedido no mundo em tempo dos imperadores romanos antigos; memória que haverá enquanto durar o dito; pois o sangue derramado de tantos inocentes, clama aos céus justiça, e aos príncipes da terra favor, a tomar vingança de tais tiranos: e para relatar os sucessos, e modos que houve entre os ditos Flamengos de suas deslealdades, e traições, é tomar o tempo a Vossas Senhorias, ainda que o mesmo o há de manifestar; porque tais tiranos quer Deus que os conheçam, para que a cristandade veja, que mais vale passar por todos os tormentos da morte, que viver morrendo entre o nome de tal gente. Patente é a Deus, e ao mundo, e o será daqui em diante às mais remotas nações dele, a traição que usaram os ditos holandeses com os pobres moradores do Rio Grande, estando em uma cerca recolhidos por se livrarem dos bárbaros Tapuias, e Brasilianos, passando, e padecendo nela havia três meses notáveis misérias, nos quais foram acometidos por muitas vezes dos tais inimigos, que ainda não fartos do sangue, que fizeram derramar ao povo de Cunhaú, e casa forte de João de Lostao, pretenderam esgotar o desta pobre gente cercada, para que nela se acabasse o nome português daquela Capitania, para o que dezesseis dias, e noites os tiveram em cerco, assim Tapuias, como Brasilianos e Flamengos, nos quais lhes deram terríveis batarias sem as poderem levar, usando de um ardil, para com ele fazer a obra que pretendiam. E foi, que armaram uns carros emadeirados, levando-os diante de si, com mosquetaria, e outros instrumentos de guerra para chegarem à dita cerca, mas não foi bastante este artifício, porque setenta portugueses que havia nela, ainda que poucos no número, mais muitos no esforço, os arredaram de si de maneira com quinze armas de fogo, e os mais com paus tostados, que lhe quebraram os carros, e os puseram em fugida com perda do dito inimigo de vinte homens, sem da nossa parte perigar nenhum, e vendo os ditos Flamengos que os não podiam render, lhes cometeram que se entregassem, pois eles eram ali vindos da fortaleza, e seu tenente, para os guardarem assim dos ditos selvagens, como dos Flamengos moradores, que com os ditos estavam, os quais lhes tinham feito aquela guerra. E vendo os ditos moradores o tão pouco que se podiam fiar da palavra de tiranos, disseram, que enquanto ali estivessem Tapuias, e Brasilianos, queriam antes morrer, que se entregar; e que tinham bom exemplo na traição das mortes, que fizeram no Cunhaú na casa forte de João de Lostao, ao que lhes responderam, que em nome de S. Alteza o Príncipe de Orange, lhes requeriam se entregassem, e não usassem mais de armas, prometendo-lhes vidas, e fazendas, na maneira que até então os gozavam, e fazendo o contrário que mandariam vir uma peça de artilharia da fortaleza, e com ela os bateriam, e não escaparia nenhum, e os teriam por alevantados. E considerando os ditos cercados, que já não tinham mantimentos nenhuns, nem munições para sustentar as armas, fiados nas palavras dos ditos Flamengos, lhes disseram que fizessem disso um papel, o qual fez o tenente, e os mais oficiais de guerra, em que se assinaram, e nele lhes prometeram de os guardar dos ditos selvagens Tapuias, e Brasilianos, e conservar com a vida, e fazenda; e feito o sobredito, pediram que em reféns haviam de levar cinco moradores para a fortaleza, o que lhes foi concedido: os quais foram Estêvão Machado de Miranda. Vicente de Souza Pereira, Francisco Mendes Pereira, João da Silveira, Simão Correia, deixando eles dez soldados de guarda da dita cerca, e gente que nela estava; e tomaram todas as armas de fogo, e paus tostados com que os moradores se tinham defendido. Estavam mais recolhidos para segurarem suas vidas na fortaleza o P. Vigário Ambrósio Francisco Ferro, Antônio Vilela o Moço, Joseph do Porto, Francisco de Bastos, e Diogo Pereira, e prisioneiros João Lostao Navarro, Antônio Vilela Cide. Em dois do presente mês de outubro chegou uma lancha do Recife ao Rio Grande, e conforme a execução que se fez, trouxe ordem para matar a todos os moradores de dez anos para cima, como ao diante se verá; em três do dito mês véspera de S. Francisco mandaram os Flamengos da fortaleza sair a todos os moradores que nela estavam, que foram os acima nomeados dizendo que já estavam seguros dos Tapuias, porquanto se tinham ido para o sertão, e que fossem em companhia da tropa que ia em sua guarda para a cerca aonde estavam os outros moradores, visto haver lá muitos mantimentos com que se podiam sustentar, e não estando na dita fortaleza passando fomes por falta de mantimentos, e que iam seguros porquanto tinham lá na dita cerca aos ditos dez soldados, que lhes tinham deixado para sua guarda. No mesmo ponto lançaram aos ditos, que estavam na fortaleza, e em batéis os levaram pelo rio acima três léguas, acompanhados dos soldados, e os lançaram fora no porto do dito rio, chamado de Huruauassu meia légua da dita cerca, na qual acharam passante de duzentos Brasilianos bem armados com Antônio Paraupaba escaramuçando em um cavalo, e tanto que estiveram em terra, os Flamengos despiram nus aos ditos moradores, e os mandaram pôr de joelhos (o que eles receberam com muna paciência, e os olhos em Deus) e logo chamaram aos Brasilianos para os matar, o que se executou logo, fazendo nos corpos destes mártires tais anatomias, que são incríveis; e não contentes com elas, os ditos Flamengos os ajudaram a matar, assim arrancando os olhos a uns, e tirando as línguas a outros, e cortando as partes vergonhosas, e metendo-lhas nas bocas. No mesmo instante que os acabaram de matar, foram os ditos Flamengos à cerca deixando os Brasilianos no lugar em que tinham feito os martírios nomeados para a segunda execução; e aos moradores disseram, que os senhores do Concelho do Recife os mandavam chamar, para o que estava um barco logo para partirem, e que fossem em sua companhia para os embarcarem, e vendo os sobreditos que era a viagem tão apertada, sem lhes darem demora alguma, e sem saberem dos que eram mortos, e disseram todos juntos, e cada um por si, que eles iam morrer, porque seus corações lhos diziam; e despedindo-se com lágrimas, e suspiros de mulheres, filhos, irmãos e irmãs, foram todos dando graças a Deus, e mui conformes, por morrerem por seu Deus, e por seu Rei, e sua pátria, e dizendo estas mesmas palavras aos tiranos algozes que os levavam; e chegando aonde estavam os sobreditos Brasilianos lhos entregaram, e com a tirania, e desumanidade que em seus corações habita, os mataram, sem ficar nenhum; na qual execução se fizeram as maiores anatomias, e martírios nos corpos destes mártires, que são coisas que a boca não pode pronunciar. E acabante as ditas mortes deixaram os corpos postos ao sol, e sobre a terra, e sem sepultura nenhuma, e os membros tão divididos em partes, que não se conhecia quais eram os de cada um dos ditos mártires. No mesmo instante foram os mesmos tiranos Flamengos, e Brasilianos à cerca, aonde somente ficaram as pobres viúvas, e órfãos, e as acabaram de despojar de todos seus bens, deixando-as a muitas nuas, e com outros opróbrios, que passo em silêncio. Julguem agora Vossas Senhorias o que fariam as pobres viúvas, quando souberam dos mesmos algozes, que todos os homens eram mortos, e tão cruelmente, para que os olhos se aprestaram a fontes, e as bocas, para as funerais lamentações de seus consortes, pois é de ver (meus senhores) que até isto estes tiranos tiraram a esta pobre gente, porque querendo lamentar com suspiros, e lágrimas seus desventurados dias; estes tais lho não queriam consentir, e as fizeram calar, ora com ruins palavras, ora com pés, e mãos, dando-lhe de bofetadas, e coices, e ameaçando-as, que as haviam de matar se choravam; e por não passar em silêncio nas pessoas, e nomes de alguns mártires, os declararei por a constância que tiveram em suas mortes, e martírio, Antônio Baracho casado o amarraram em um poste, e vivo lhe arrancaram a língua, e depois o coração, e desta maneira morreu, cortando-lhe suas partes secretas, e metendo-lhas na boca ainda em vivo. A Mateus Moreira o abriram por as costas, e lhe tiraram também o coração, e as últimas palavras, estando neste martírio, que disse, foram louvar a Deus, dizendo: Louvado seja o Santíssimo Sacramento. E porque na morte destes Inocentes, houvessem admiráveis circunstâncias, relatarei a Vossas Senhorias algumas coisas que sucederam mais milagrosas que humanas. Um mancebo por nome João Martins o levaram para morrer com os mais, e sendo todos mortos à vista do sobredito, lhe cometeram que dariam a vida se tomasse armas contra sua nação, a que ele respondeu com alegre rosto: Não me desampara Deus desta maneira, essas tomei sempre contra os tiranos, e não contra minha Fé, Pátria, e Rei. E que o matassem logo porque estava invejando as mortes de seus companheiros, e a glória que tinham recebido, e quando o não quisessem matar, ele mesmo os persuadiria a que o fizessem.
Dois mancebos casados, um chamado Manuel Álvares Ilha, e outro Antônio Femandes, depois de estarem em terra cheios de feridas, e nus da cinta para cima, meteram as mãos nas algibeiras, e puxando cada um por sua faca, e investindo com os Brasilianos mataram logo a três deles, e feriram a quatro ou cinco, fazendo isto com as ânsias da morte, e logo caíram mortos outra vez. Estêvão Machado de Miranda tinha uma menina de sete anos sua filha na fortaleza em sua companhia, e trazendo-a consigo a receber o martírio, vendo a dita menina que os Flamengos queriam matar a seu pai, como aos outros presentes, se abraçou com ele, pedindo a vida do pai com as lamentações, e entendimentos de mulher de muitos anos, e os Flamengos a tiraram dos braços do dito pai, ao que lhe disse o dito: Filha, dize a tua mãe que se fique embora, que no outro mundo nos veremos. E desta maneira o mataram, e a menina tirou a saia depois do pai morto, e se foi para ele, e cobrindo-lhe o rosto, e chorando, e pedindo que a matassem também, a quem os ditos algozes lançaram mão da dita saia, e trouxeram a menina a sua mãe, e ela, e os mais contaram o caso. Uma filha de Antônio Vilela o Moço mataram sendo criança pequena, pegando-lhe os Tapuias à vista dos Flamengos em uma perna, e dando-lhe com a cabeça em um pau, e a fizeram em dois pedaços. E a outra filha de Francisco Dias o Moço a mataram também, e a abriram em duas partes com um alfanje. E a uma mulher casada com Manuel Rodrigues Moura, depois do dito morto, lhe cortaram as mãos, e os pés, e a sobredita mulher em três dias naturais esteve deitada no chão viva, e acabou dando a alma ao Criador.
Diversos martírios deram neste dia aos corpos dos mártires, e houve nele muitos milagres patentes, e vistos, que quis Deus mostrar que os tais iam a gozar da bem-aventurança.
Sucedeu pois que aquela noite que padeceram se ouvisse uma música no céu sobre a fortaleza do Rio Grande, e ouvindo-a a mulher de um flamengo chamado Gesman (Joris Garstman) governador das armas nesse Recife, se levantou chamando por algumas mulheres, e também por suas escravas para que ouvissem a música que ia no céu, o qual caso testificou a sobredita; certo presságio que foram os anjos que acompanhavam as almas destes mártires para o céu. Na cerca donde tinham saído os ditos mártires estava entre outras meninas uma filha de Diogo Pinheiro de idade de oito anos, chamada Adriana, e dando-lhe vontade de chorar, entrou para uma camarinha por não ser vista, aonde achou uma mulher com um azorrague na mão, e lhe disse: Cala-te filha, que com este azorrague que aqui vês, hão de ser castigados estes que fazem estas crueldades, como logo saberás.
Atribulada a menina saiu para fora, e vendo as mulheres a mudança dela, lhe perguntaram o que tinha? E como assombrada contou o sucesso, e dai a pouco chegou a nova dos inocentes mortos, que certo bem parece que a Virgem Senhora Nossa tem tomado o castigo destes tiranos à sua conta. Naquela mesma noite houve grande cheiro de incenso na dita cerca, que durou muito tempo, e foi patente a todos, sem se saber donde o dito cheiro procedia senão do céu. Houve também entre estes mártires grandes penitências, sem saberem uns dos outros, e ao dia que padeceram, jejuavam todos a pão, e água, assim os da fortaleza, como os da cerca, não sabendo uns dos outros, ao outro dia por manhã pediram licença as mulheres para irem a enterrar os corpos mortos, e não lh'o consentiram; o que os escravos fizeram às escondidas, e não se achou um palmo de pano para os amortalharem a nenhum, por deixarem as ditas mulheres em estado que ficaram despidas de todo, achou-se que todos estes corpos estavam com cilícios, e os que os não tinham com cordas cingidas, e algumas tão metidas por a carne que mal apareciam. E sabe-se que durante o tempo que estavam cercados houve extraordinárias penitências, e até os meninos as faziam, sendo todos nus, e com cordas cingidas, e todos os dias se faziam procissões com um Santo Crucifixo, esperanças claras destas almas estarem gozando da bem-aventurança. Sobre a sepultura aonde foi enterrado o P. Vigário Ambrósio Francisco Ferro se achou quinze dias depois da sua morte uma posta de sangue fresca sem corrupção, como se naquela hora fosse derramado, mostras bastantes, que o tal brada ao céu justiça. Muitas outras coisas milagrosas sucederam, dignas de se recontarem, que deixo ao tempo, no qual fio não passará, e todas acima declaradas foram vistas, e juradas, e autênticas por vinte cinco mulheres que o inimigo botou nesta Paraíba, com suas famílias, as ditas chegaram de maneira, e tão transfiguradas que mais parecem pessoas ressuscitadas que viventes corpos.
O Bolestrate as mandou deitar aqui, e a algumas lhes concedeu alguma roupa que traziam sobre os corpos, mas em as querendo desembarcar em terra as despiram de maneira que apenas trouxeram camisas, as quais lhe largaram por já não terem préstimo para serviço de outro corpo. Vossas Senhorias perdoem o compêndio da carta, que lhes afirmo que se houvera de relatar o que se tem passado naquela Capitania houvera mister muitas mãos de papel, contudo o faço destas sobre ditas coisas acima, que não faltarão curiosos para o fazer do mais que falta, porque Deus o permite, e manda que sejam públicas as maldades destes tiranos.
Deus guarde a Vossas Senhorias, hoje vinte e três de outubro de mil e seiscentos e quarenta e cinco anos. Lopo Curado Garro”.
 
Copiado de http://putegi.blogspot.com.br/2012/10/uruassu-carta-do-capitao-lopo-curado.html?spref=fb