sexta-feira, 27 de maio de 2011

HISTÓRIA DA CRIAÇÃO DE GADO NO RIO GRANDE DO NORTE

Por :Leopoldo Costa

Do site:http://stravaganzastravaganza.blogspot.com/2011/04/historia-da-criacao-de-gado-no-rio.html


A capitania do Rio Grande do Norte, com cem léguas de frente, foi doada a João de Barros (1496-1570) Feitor das casas de Mina e da Índia. A ela foram somadas as terras de seus sócios: 75 léguas de Fernão Álvares da Cunha e 50 léguas de Aires da Cunha (?-1536), perfazendo o total de 225 léguas.

Em 1535 foi organizada em Portugal uma expedição com os filhos de João de Barros e os seus sócios que comandada por Aires da Cunha, para explorar o território. Essa expedição era composta de 10 navios, 900 homens e 100 cavalos. A Coroa investiu também nessa expedição: "D. João III emprestara artilharia, munições e armas retiradas do próprio Arsenal Régio", informa Câmara Cascudo. Ela foi impedida de desembarcar pelos índios Potiguaras, A expedição foi um fracasso total com a morte de Aires da Cunha. Os portugueses conseguiram fundar, ao Norte, o povoado de Nazaré, onde permaneceram três anos. Morreram setecentos homens. que eram inimigos dos portugueses, auxiliados pelos franceses. Os franceses se fixaram no litoral para explorar o pau brasil sem necessidade de dominar o indígena e, justamente por essa razão, eles ficavam seus aliados. O Rio Grande era uma área estratégica. De lá podiam se deslocar para qualquer ponto de interesse.
Filipe II (1527-1598), ao anexar Portugal e suas colônias em 1580, sentiu a situação de abandono em que estava a região. Readquiriu a posse da capitania mediante indenização paga aos donatários e através de duas Cartas Régia uma de 1596 e outra de 1597, determinou ao governador geral Francisco de Souza (1540-1611) que reunisse esforços e expulsasse os franceses da capitania.a expulsão do inimigo e que fosse construída um forte e fundada uma cidade. O forte dos Reis Magos, iniciado no dia 6 de janeiro de 1598 terminou dois anos depois. Do forte os portugueses monitoravam a movimentação dos franceses que vinham ao Nordeste em busca do pau brasil.
Depois Francisco de Souza, determinou que o capitão-mor de Pernambuco, Manuel Mascarenhas Homem, tomasse todas as providências para que se organizasse uma grande expedição militar com o objetivo de que as ordens de Filipe II fossem executadas. Assim foi feito. Uma poderosa expedição foi organizada sob o comando do próprio Francisco de Barros e outra seguiria caminhando por terra, liderada por Feliciano Coelho, capitão-mor da Paraíba, que foi dizimada pela varíola.
Manuel Mascarenhas Homem (?1600-1657) assumiu o comando geral, agindo com o máximo de empenho para que nada faltasse a fim de que os objetivos fossem alcançados: expulsar os franceses, construir uma fortaleza e fundar uma cidade.
Narra Luís da Câmara Cascudo (1898-1986): "Feliciano Coelho partiu por terra com as quatro companhias pernambucanas e uma paraibana capitaneada por Miguel Álvares Lobo, num total de 178 homens e 90 indígenas guerreiros de Pernambuco e 730 da Paraíba, com seus Tuixauas prestigiosos e bravos: Pedra Verde (Itaobi), Mangue, Cardo-Grande etc. a 17 de dezembro de 1597 o exército marchou. Mascarenhas viera com as naus".
No dia 25 de dezembro, a frota luso-espanhola atingiu o rio Potengi e foram atacados pelos índios. A situação se agravou a tal ponto que ficou crítica, como narrou Vicente Salvador: "Depois de continuar os assaltos que puseram os nossos em tanto aperto que escassamente podiam ir buscar água para beber a uns poçozinhos que tinham perto da cerca". A humilhante derrota foi evitada quando Francisco Dias chegou com reforços. Era preciso negociar a paz com urgência.
No processo de pacificação, a ação dos missionários foi importante, mas não agiram sozinhos. Contaram com o apoio dos chefes indígenas Mar Grande e Pau Seco, entre outros. Estes dispuseram a negociar a paz porque as suas mulheres, catequizadas pelos missionários, exigiram o fim das hostilidades.
Terminadas as hostilidades, Manuel Mascarenhas Homem (?1600-1657) partiu para relatar os acontecimentos ao governador, D. Francisco de Souza que, sem demora, determinou que fossem solenemente celebrado o acordo de paz no dia 11 de junho de 1599.
Os portugueses conseguiram conquistar a simpatia dos índios nomeando o mestiço Jerônimo de Albuquerque (1548-1619), filho de uma índia Potiguar com um português, como capitão-mor da capitania e com isso obtiveram autorização dos indígenas para penetrar no interior. Pelo acordo com os índios não era permitida a plantação de cana, pois a atividade empregava muita mão de obra e incentivaria a captura dos índios que seriam usados como escravos. Era permitida a instalação de currais para a criação de gado, que empregava menor quantidade de mão de obra. Mesmo assim vários conflitos aconteceram porque mais tarde a expansão das fazendas, veio a expulsar os índios de suas terras. Para a criação de gado a região era bem adequada. Não havia necessidade de desmatamento para a formação de pastagens em razão do tipo de vegetação existente nas caatingas.
Escreveu frei Vicente do Salvador no livro ‘História do Brasil’ de 1627: Feitas as pazes com os Potiguares, como fica dito, se começou logo a fazer uma povoação no Rio Grande uma légua do forte, a que chamam a cidade dos reis, a qual governa também o capitão do forte, que el-rei costuma mandar cada três anos. Cria-se na terra muito gado vacum, e de todas as sortes, por serem para isto as terras melhores que para engenhos de açúcar, e assim não se hão feito mais que dois, nem se puderam fazer, porque as canas-de-açúcar requerem terra massapés e de barro, e estas são de areia solta, e assim podemos dizer ser a pior do Brasil, e contudo se os homens tem indústria, e querem trabalhar nela, se fazem ricos.
Os primeiros fazendeiros que receberam sesmarias no início do século XVII hesitavam em afastar muito do litoral temendo uma reação dos índios. Limitava-se a ocupar alguns pontos as margens dos rios Potengi e Jundiá, sempre em várzeas não muitos distantes do litoral.


'não há nela engenhos de fazer açúcar mais de um até este ano de 1618, por a terra ser mais disposta para pastos de gado dos quais abunda a muita quantidade até entrar na capitania da Paraíba que lhe está conjunta.’

Ao conquistarem o Rio Grande em 1633, os holandeses mudaram o nome do Forte dos Reis Magos para Kasteel Keulen (homenagem ao diretor da companhia holandesa, presente na conquista) e Natal passou a se chamar Nova Amsterdam. Logo após a conquista, Joris Gardtzman assumiu o governo, mas não possuía autonomia administrativa, dependia da Paraíba onde residia um diretor. Durante o domínio holandês havia somente duas preocupações: dominar e explorar economicamente a região para garantir o fornecimento de carne bovina e de farinha de mandioca.

A dominação não avançava mais do que doze léguas distantes de Natal. Os conflitos armados provocaram abandonos de terras e casos frequentes de roubo e matança de gado. Depois, da expulsão dos holandeses pelas forças comandadas por Henrique Dias em 1648/1653, os fazendeiros estavam com seus negócios de criação de gado totalmente arruinados e tiveram que recorrer à comercialização de farinha de mandioca como sobrevivência.
Em 1687 Antonio de Albuquerque da Câmara, que possuía uma sesmaria na região do Seridó, tentou estabelecer uma fazenda de criação de gado usando a força, mas foi repelido pelos indígenas. Em 1694 quando João de Lencastre (1501-1571) assumiu o governo geral da Bahia foi realizado um acordo com os indígenas tentando um tratado de paz.

Em 1696, Bernardo Vieira de Melo (1658-1718) capitão-mor do Rio Grande do Norte, fundou às margens do rio Açu, também chamado de rio Piranhas, o arraial de Nossa Senhora dos Prazeres[1]. Iniciou-se o aldeamento dos índios e o estabelecimento dos colonos que cuidavam da criação de gado. A região era habitada pelos índios Janduís que julgavam no direito natural de caçar os bois que habitavam as suas pastagens e houve muito prejuízo. Os criadores de gado reagiram e a situação foi piorando até que os conflitos transformaram numa verdadeira guerra, denominada de ‘Guerra dos Bárbaros’ que perdurou de 1687 a 1697. Diante disso o governo geral solicitou ao bandeirante Domingos Jorge Velho (1641-1705) que se dirigisse à região (ele estava em Pernambuco) com todas as forças que pudesse reunir e enfrentasse os índios. Ele ficou até 1689 combatendo e conseguiu a vitória aprisionando o cacique Canindé. A vitória não foi completa e em 1693 Matias Cardoso de Albuquerque (?-1656/1662) voltou a enfrentar os índios e também não teve êxito. Em 1695 foi contratada nova expedição de bandeirantes com o objetivo de combater os rebeldes Tapuias e até preá-los como escravos.

Em meados do século XVIII, a capital, Natal só tinha 118 casas, a capitania não tinha vilas e poucas povoações habitadas por 69.000 pessoas[2]. A terra valia pouco e havia escassez de escravos para o trabalho. Com os baixos preços da terra foi incentivada a criação intensiva de gado.
No período de 1857 a 1859 existiam nas seis comarcas da província 2.013 fazendas que produziram no ano 59.630 bezerros. A maior concentração estava no sertão do Seridó[3]. Em 1860 a província tinha 1.194 fazendas de gado que produziram 40.333 crias[4]. A província não era autossuficiente na produção de carne para o seu consumo interno necessitando importar do Piauí, cerca de 15.000 cabeças de gado por ano para complementar a diferença. No ano de 1878/1879 foram produzidos 26.246 bezerros e 4.140 potros[5]. No período de 1886 a 1888 a província produziu uma média anual de 58.972 bezerros, 7.836 potros, 800 mulas e 177 jumentos[6].

Em 1808 a economia do Rio Grande do Norte ganhou um fôlego pela liberação de licença para a extração de sal marinho, então um monopólio de poucos. Um item importante para a atividade pecuária, pelo seu uso, na
indústria do charque e do couro.

A população do Rio Grande do Norte no final de cada década era a seguinte:
Ano
População
1900
268.000
1910
386.000
1920
537.000
1930
681.000
1940
777.000
1950
968.000
1960
1.157.000

O rebanho teve a seguinte evolução:

1938
1950
1957
1964
1964/1938
Bovinos
356.000
500.000
598.000
707.000
99%
Equinos
77.000
-
76.000
95.000
23%
Suinos
86.000
-
397.000
617.000
617%
Ovinos
228.000
400.000
530.000
610.000
168%
Caprinos
179.000
300.000
462.000
541.000
202%

Em 1964 foram abatidos em estabelecimentos controlados pelo governo:
Bovinos
69.000 cabeças
Suinos
72.000 cabeças
Caprinos
91.000 cabeças

Em 1965 o rebanho bovino do estado era de 788.000 cabeças, de suínos de 676.000 cabeças, de ovinos de 640.000 cabeças e de caprinos de 597.000 cabeças. De carne bovina foram produzida 9.992 toneladas e de carne suína 2.410 toneladas.


Atualmente, com cerca de 1.030.000 de cabeças, o rebanho do estado ocupa o 24º lugar entre os 27 rebanhos das unidades da federação, apenas inferior ao de Roraima, Amapá e do Distrito Federal.


[1] Mais tarde o arraial trocou de nome e passou a ser conhecido como São João Batista da Ribeira do Céu. Foi elevada a município por Ordem Régia de 22 de julho de 1766 com a denominação de Vila Nova da Princesa, em homenagem a princesa D. Carlota Joaquina (1775-1830). Foi instalado em 11 de agosto de 1788. Pela lei provincial n° 124 de 16 de outubro de 1845, foi elevado à cidade e município com o nome de Açu.
[2] Em 1835 informado por Adriano Balbi no seu livro 'Império do Brasil'.
[3] Relatório anual da Presidência da Província 1860.
[4] Relatorio anual da Presidencia da Provincia 1860
[5] Relatorio anual da Presidencia da Provincia 1879
[6] Relatório anual da Presidência da Província 1889.

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