sexta-feira, 27 de maio de 2011

HISTÓRIA DA CRIAÇÃO DE GADO NO CEARÁ

Por Leopoldo Costa em http://stravaganzastravaganza.blogspot.com/2011/04/historia-da-criacao-de-gado-na-paraiba.html

Uma expedição do espanhol Vicente Yañez Pinzon (1462-1514) e outra de seu primo Diogo de Lepe desembarcaram nas costas cearenses no final do século XV, antes da chegada de Cabral ao Brasil. A primeira, num cabo identificado posteriormente como o da Ponta Grossa, no município de Icapuí, e a segunda, na barra do Ceará (hoje Caucaia), na Grande Fortaleza. Tais descobrimentos não puderam ser oficializados, pois navegavam em nome do reino de Castela e eram terras de Portugal, em razão da vigência do Tratado de Tordesilhas.

As terras pertencentes ao Ceará foram doadas em 1535 a Antônio Cardoso de Barros, mas este não se interessou em colonizá-las e nem sequer chegou a visitar a capitania. Quando ele finalmente, quase vinte anos depois, decidiu vir à capitania o navio naufragou na costa de Alagoas (1556), culminando com sua morte.

A primeira exploração portuguesa na região foi a de Pêro Coelho de Souza. Ele tinha sido designado pelo governador geral Diogo Botelho (governou de 1602 a 1606) para explorar as riquezas minerais nordestinas e levar a fé cristã àquelas paragens. Partiu em julho de 1603 e um mês depois atingiu a foz do rio Jaguaribe, onde erigiu o forte de São Lourenço, embrião da cidade de Aracati. Depois, alcançando as margens do rio Ceará e rumando na direção norte, chegou ao vale do Camocim e a serra de Ibiapaba. O comandante queria ir mais longe, mas seus companheiros fadigados negaram-se a lhe obedecer. Iniciou-se o retorno e em 25 de julho de 1604 e na foz do rio Ceará fundou um posto fortificado o São Tiago, como base da vila de Nova Lisboa, que não prosperou devido a grave seca de 1606.
Pela segunda vez, Pêro Coelho de Souza tentou outra exploração acompanhado desta vez pela sua esposa e filhos e sem a ajuda do governo. Penetrou pelo interior, onde sofreu ataques de indígenas e sem recursos para continuar teve que regressar, seguindo em direção ao Rio Grande do Norte. No caminho de febre morreram seus filhos e outros companheiros. Chegou com a sua esposa Tomásia e alguns homens fadigados e debilitados no estuário do rio Potengi, onde já existia a vila de Natal.

Mais tarde, um participante e sobrevivente da expedição, Martins Soares Moreno (1586-1648) retornou ao território percorrido e em 1612 construiu uma fortaleza, chamada de São Sebastião, no local onde antes Pêro Coelho de Souza tinha construído o forte de São Tiago (local hoje conhecido como barra do Ceará, na divisa entre Fortaleza e Caucaia[1]).

Numa outra frente, em 1607, uma missão jesuíta dirigida pelos padres Francisco Pinto (1551-1607) e Luís Pereira Figueira (1574-1643), partiu da foz do rio Jaguaribe, seguiu até a enseada de Paracuru, transpôs os rios Aracati-açu e Acaraú e alcançou a serra de Uruburetama. Os índios Tucurijus assassinaram a pauladas o padre Francisco Pinto, obrigando o seu colega, o padre Luís Figueira e os seus companheiros a retornarem.

A presença dos piratas franceses era frequente na região, sempre contrabandeando o pau brasil com a ajuda dos índios.

Em 1637 chegaram os holandeses que dominaram o Ceará durante sete anos. Em 1644 foram expulsos pelos índios, sendo destruído o forte de São Sebastião.
Durante a permanência dos holandeses no litoral, os portugueses foram obrigados a emigrar para o interior, vindo a instalar com isto vários currais de criação de gado. A expansão destes currais foi registrada pelos visitantes estrangeiros que visitaram o Ceará nesta época.
Cinco anos após a expulsão, os holandeses voltaram ao Ceará comandados por Matias Beck (m.1668), e ergueram o forte Shoonemborch, na desembocadura do riacho Marajaitiba no rio Pajeú. Em 1654, com a expulsão dos holandeses, o forte foi tomado pelos portugueses e passou a ser chamado forte de Nossa Senhora de Assunção. Em volta desse forte formou-se a segunda vila do Ceará, a vila do Forte, ou Fortaleza. Depois de muita disputa política entre Aquiraz e Fortaleza. Aquiraz, elevada a vila pela carta régia de 13 de fevereiro de 1699 (instalada em 1713) foi a primeira capital da capitania, até 13 de abril de 1726, quando perdeu a posição para Fortaleza.

Seguindo a rota dos portugueses fugitivos, que tinham abandonado o litoral durante o domínio holandês, mais colonos começaram a se interessar pelo interior.

São percebidas duas frentes de ocupação do território cearense: a do ‘sertão de fora’, controlada por pernambucanos que vinham pelo litoral, e a do ‘sertão de dentro’, dominada por baianos que conseguiram transpor o rio São Francisco. Primeiro foram se estabelecendo em terras do Pernambuco e mais tarde seguindo o fluxo do riacho da Terra Nova e do Brígida, alcançaram o território cearense. O principal objetivo destas frentes era a criação de gado. Os currais foram se instalando procurando os locais onde houvesse a disponibilidade de água, o que não era fácil. O sertão do sudoeste também foi conquistado pelos criadores de gado da Bahia.
Na estação seca de junho a dezembro, não costuma cair uma gota sequer de chuva no interior do Ceará, como constatou Robert Southey (1774-1843)[2], e isso dificultou muito a sua ocupação. A solução encontrada então foi criar cabras e ovelhas mais resistentes e que podiam comer a vegetação pobre da região[3].

O mesmo Robert Southey[4] informava sobre a importância da criação de ovinos e caprinos na província, onde havia cinco mil rebanhos de duzentas cabeças cada um. Segundo ele a lã produzida era de excelente qualidade.
Graças à pecuária e aos deslocamentos de pessoas das áreas então mais povoadas, praticamente todo o Ceará foi ocupado ao longo do século XVII, levando ao nascimento de várias cidades importantes nos cruzamentos das principais estradas utilizadas pelos vaqueiros, como por exemplo, Icó. Icó foi fundada por Bartolomeu Nabo Correia em 1683 como Arraial Novo de Icós.

Ao longo do século XVIII, a principal atividade econômica cearense era a pecuária, levando muitos historiadores a falarem que o Ceará tinha-se transformado em uma civilização do couro através de um rico artesanato, pois a partir do couro se faziam praticamente todos os objetos necessários à vida do sertanejo.

Com outro objetivo, o de capturar índios do interior do Ceará para escravizar, a bandeira do paulista Matias Cardoso de Almeida embrenhou-se nos sertões cearenses entre 1689 e 1694. A reação dos indígenas foi violenta, organizaram a Confederação dos Cariris e combateram ferozmente a invasão. O pior confronto foi em 1690, que terminou com o massacre dos indígenas.

Em 1780, existiam 792 fazendas de gado no Ceará. Grande parte da carne proveniente do abate deste gado era preparada como charque em pequenos estabelecimentos instalados nas desembocaduras dos rios Jaguariçá, Acaraú e Coreaú (também conhecida como rio Camocim) e exportada para os centros consumidores da Bahia e Pernambuco para a alimentação dos escravos.

Geraldo da Silva Nobre[5], transcrevendo um auto de audiência da Câmara da vila de Aracati pode informar como eram as ‘oficinas’- fábricas de charque da época: (...) herão huas cazas, ou idificios insignificantes em forma de telheiros formados de paus e telha vaã que em pouco tempo seu podem mudar, e construir de novo com os mesmos paus, e telha (...)

A produção e o comércio do charque foram importantes para a vida econômica do Ceará ao longo do século XVIII e XIX. O inicio da instalação de charqueadas (oficinas) datam da época anterior a 1740 e surgiram no arraial de São José do Porto dos Barcos, depois elevada à vila com o nome de Santa Cruz do Aracati. Aracati manteve-se por muito tempo como o local de maior influência no processo de formação econômica, social e política do povo cearense. O comércio da carne e do couro, que atraía para Aracati abastados senhores de locais diversos, fez crescer a especulação daquele ramo de negócio, aumentando as transações com as demais praças do país. Passou, então, Aracati a prover o resto da capitania de fazenda e objetos de luxo que desembarcavam no seu movimentado porto. Até a estrutura urbana da vila obedeceu ao interesse comercial das carnes-secas. O traçado das ruas tinha como finalidade a comunicação entre o Porto dos Barcos e o tráfico das oficinas. A produção e comercialização da carne seca punham em destaque os núcleos produtores principalmente as vilas de Aracati e Sobral, a ponto de estas concorrerem com Fortaleza, o centro administrativo da Capitania, desde 1726.
José Vaz Salgado, um dos mais prósperos charqueadores de Aracati em 1744 tinha um movimento anual entre 18.000 e 20.000 cabeças de bovinos por ano.

O charque também permitiu o enriquecimento de proprietários de terras e de comerciantes, bem como o surgimento de um pequeno mercado local.

Escreveu Renato Braga (1905-1968)[6] ‘Aracati, Granja, Camocim desenvolveram-se ao influxo da carne seca. Sobral igualmente fabricava muita carne, a princípio carregada no Porto do Barco, depois em Oficinas, núcleo inicial da cidade de Acaraú. Aracati, a 15 quilômetros da barra do rio mais importante do Ceará, excedeu a todas essas povoações e durante mais de meio século manteve a privilegiada situação de maior exportador de produtos pecuários do Assu ao Parnaiba. Ainda não era vila e já abatia, anualmente, de 18 a 20.000 bois, e mais de 25 sumacas frequentavam-lhe o ancoradouro, na faina de transportarem a carne e a courama para Pernambuco, Baia e Rio de Janeiro, a troco de fazendas,ferragens e quinquilharias. Ao findar das chuvas afluiam a esses arraiais costeiros as embarcações e as boiadas. Carros e tropas traziam do interior couros, solas, vaquetas, algodão. Era a estação dos negócios. O encontro de homens da marinha e de homens do sertão - comerciantes rudes e sertanejos rixentos - não raro explodia em rusgas, resolvidas a faca ou a tiros de bacamarte. A insegurança chegou a tal ponto, que a Carta Régia de 25 de Setembro de 1745 determina que um juiz ordinário e um tabelião da vila do Aquiraz assistiam no Aracati, por ocasião da afluência dos barcos, afim de coibirem as desordens. A instalação da vila do Aracati a 10 de Fevereiro de 1748 acarretou-lhe, a principio, um colapso comercial de grave repercussão na vida econômica da capitania, como se depreende das informações do ouvidor Proença Lemos e da câmara de Aquiraz. Os armadores, afeitos a largueza de um porto livre, não quiseram submeter-se as posturas criadas pela nova edilidade, procuraram outras oficinas, descendo a frequência dos barcos de mais de 25 anteriormente, para 6 ou 7 em 1751. Já antes, a 2 de Junho de 1741, a câmara de Aquiraz impusera aos barcos que entrassem no porto do Aracati o tributo de 8$000 se carregassem mais de 1.000 arrobas, 6$000 se fosse menos e 4$000 aos que transportassem couros, mas a ordem régia de 6 de Setembro do ano seguinte repreendia severamente os oficiais autores do imposto e mandava que de seus bolsos restituissem as quantias arrecadadas. Em pouco tempo, porem, a nova vila recupera o seu papel de entreposto comercial de Pernambuco com a bacia jaguaribana e regiões lindeiras. Uma ordem regia impedia a capitania comerciar directamente com a metrópole, e Recife, como intermediário, beneficiava-se com todo esse movimento de negócios que alcançava os mais longinquos sertões cearenses e drenava a parte central do Piaui. Aracati carneava anualmente de 20 a 25.000 bois e a sua exportação compreendia também perto de 60.000 meios de sola, 30.000 couros salgados, 35.000 couros de cabra, 3.000 pelicas. As matanças não param nessas cifras, registradas salteadamente nos informes camarários e nos relatos dos giros obrigatórios dos capitães-mores. Nos ltimos anos do século XVIII, ali morriam, todos os anos, para mais de 50.000 reses; logo depois vinha Sobral, cujas carnes sustentavam muitos especuladores e embarcações de Pernambuco e Baia. Aracati dominava o Ceará econômica e socialmente. Importava mais de seiscentos mil cruzados e as exportações caminhavam perto do dobro, oriundas quase todas das carnes e couros. Casas comerciais existiam com capital superior a cem mil cruzados. Milhares de cavalgaduras e perto de dois mil carros de bois asseguravam as comunicações desse empório com os sertões. Seguiam·lhe em importância os portos de Acarau e Camocim. Mucuripe negociava especialmente com algodão. A riqueza, o contacto com a gente mais civilizada, poliu os aracatienses, a ponto de se tornarem os homens mais notáveis da capitania. João Brigido, cujas obras constituem o filão mais rico da historiografia cearense, no tocante à sociedade, numa página pitoresca sintetiza essa proeminência dos aracatienses: Quando a gente do Aracati era a mais civilizada do Ceará, assim na roupa, como em tudo mais, dai saiam, para as outras vilas os homens que mais se distinguiam em música e ofícios mecânicos, letras e ciências. (...)’

A partir de 1757 encontramos dados referentes à inserção do charque cearense como produto estratégico para a manutenção do tráfico de escravos, para a manutenção de tropas, para o abastecimento das minas e das cidades do Recife, Salvador e Rio de Janeiro.

Renato Braga, na obra citada anteriormente, também escreveu sobre as secas. Ele menciona que a primeira grande seca que assolou o nordeste (registrada historicamente) foi a de 1777/1778. Não deixou perdas humanas, mas abalou profundamente o comércio de carnes. Ele cita que ‘durante o flagelo a exportação cearense chegou a 40.000 arrobas de carne e 100.000 couros salgados, sendo esta última parcela diminuta em relação a imensa courama perdida nos campos de criar’.

Em 12 de fevereiro de 1781 no Auto de Audiência Geral foi registrado a existência de apenas cinco oficinas em funcionamento de propriedades dos seguintes comerciantes: capitão José Ribeiro Freire, capitão João Coelho Bastos, Tomé de Melo Cabral, Manuel Francisco da Cunha, tenente coronel Manuel Rodrigues da Silva

A era do charque chegou ao fim depois das secas de 1790/92, que devastaram o estado e impossibilitaram a continuação da criação de gado.

Num relato da Câmara de Aracati, citada por Renato Braga, está escrito: ‘porém no 1791 e 1792 mais excessiva, de tal sorte que derrubou, destruiu e matou quase todos os gados dos sertões desta comarca, e por isso veio a perder aquele ramo de comercio das fabricas de carnes secas desde o ano de 1793 exclusivo, porque no ano de 1794 já não houve gados que se matar’

Ainda citando Renato Braga: ‘a seca grande, como vimos, assinalou definitivamente a decadência dos sertões nordestinos como abastecedores de carne. A medida que decresciam as suas exportações, avultavam os fornecimentos de um novo mercado, que a seu favor apresentava rebanhos imensos e um ambiente sem igual em toda a Colônia para a criação. Foi um cearense, José Pinto Martins, tangido para os pampas em consequência de uma seca, 0 fundador da indústria saladeril no Rio Grande do SuI. José Pinto Martins era do Aracati e em 1780 assentou pequena fábrica de carnes, em terras pertencentes a Manuel Carvalho de Sousa, a margem direita do Pelotas’.

Debret[7] (1768-1848), em 1800, descreveu um “engenho de carne seca” do Nordeste: ‘(...) as reses eram abatidas num cubículo e depois de esquartejadas e de terem os couros e as partes internas removidas, tinham as carnes salgadas e colocadas em varais’.

Robert Southey (1774-1843)[8] escreveu: ‘(...) O comércio de carnes secas cessara, e o gado, que do consumo interno sobrava, levava-se para Pernambuco, mas o morcego vampiro matava milhares de reses, reduzindo a pobreza opulentos criadores. Passam estes hediondos animais por mais destruidores do que todas as bestas feras (...)’.

O Ceará só tornou-se administrativamente independente de Pernambuco em 1799.

Transformou-se um exportador também de couros salgados e de sola. No período de 1867/1868 exportou 1.268 toneladas de couro salgado. Uma arroba de couro salgado colocada no porto de Fortaleza valia 8$500. Uma dos melhores anos para a exportação de sola foi em 1846/1847, quando saíram de Fortaleza 16.797 meios de sola ao preço unitário de 1$249.
A seca continuava a impactar a economia do Ceará. No final do século XVIII, quando a produção de carne seca e couro mais prosperavam, uma grande seca[9] dizimou a maior parte do rebanho bovino. Buscando uma saída, cearenses ainda com algum capital, e conhecedores da abundância de gado na região, emigraram e foram instalar charqueadas no Rio Grande do Sul.

Escreveu Henry Koster (1793-1820) em ‘Viagens ao Nordeste do Brasil’: ‘(...) antigamente eram exportadas (do Ceará), para outras capitanias, grandes quantidades de carne de boi, seca e salgada, mas a mortandade no gado, devido ás secas freqüentes, tornou inevitável a cessação deste comércio. Agora a região se supre no Rio Grande do Sul, a fronteira meridional dos domínios portugueses. Vinda do Rio Grande do Sul para Pernambuco a carne seca ainda conserva o nome de carne-do-ceará (...).’

Por mais duas vezes outras secas provocaram destruição nos rebanhos remanescentes. Uma em 1845 e outra em 1877. Esta última fez com que uma grande leva de cearenses emigrasse para a Amazônia, buscando a sobrevivência explorando os seringais, ajudando assim a colonizar o território amazonense, principalmente o atual estado do Acre.[10]

Em 1878, após a grande seca do ano anterior, quando pela medição pluviométrica feita em Fortaleza, choveu durante o ano apenas 467 mm, provocou uma redução drástica do rebanho. Milhares de animais morreram por falta de água e de alimentação. O presidente da província, no seu Relatório Anual, estimava que a redução do rebanho tivesse sido de 99% sobre o total de gado existente em 1876. E estava certo. O valor fiscal de todo o gado na província que era de 22.388 contos de reis em 1876, caiu para apenas 31 contos de reis em 1878[11]. Foi uma das piores calamidades que já ocorreram no Ceará. Para termos uma ideia, as exportações de couros que tinha sido de 1.103 toneladas em 1875/1876, caiu para apenas 2 toneladas em 1876/1877.

Tentando uma solução para os problemas da seca, chegou-se a importar até camelos da África para substituir os burros de cargas e os bois que puxavam os carros, que eram as únicas alternativas de transporte.
No relatório do ministro da Agricultura do Império para o ano de 1860, está registrado que 14 camelos foram importados e enviados para a província do Ceará, que foi escolhida ‘Como a mais própria para este fim pela semelhança do seu sol, e do seu clima com os dos lugares, de onde são oriundos aqueles úteis animais.’
No dia 24 de julho de 1859, um navio francês aportou em Fortaleza, desembarcando 14 camelos e 4 tratadores, provenientes da Argélia. Os responsáveis pela ideia foram o barão de Capanema (1824-1908) e o poeta Gonçalves Dias (1823-1864). Os animais não se adaptaram e foram morrendo e depois de certo tempo restou apenas 10 cabeças. O ministro mandou apurar as responsabilidades pela morte dos 4 animais e exigiu que o Erário Público fosse ressarcido. Em 1866, foram leiloados os camelos que sobraram: apenas 3 machos e uma fêmea.

Entre 1870 e 1874, calculado pelo valor arrecadado de dízimo sobre as crias nascidas de gado grosso (bovinos, equinos e muares), a média de nascimentos foi de 14.930 animais[12].


A lavoura de algodão veio a substituir a criação de gado na economia do Ceará, por ser mais tolerante à escassez de água. Com a recuperação da cotonicultura dos Estados Unidos da América, o algodão e o próprio Ceará entrou em outra crise.

A população do Ceará no final de cada década era a seguinte:
Ano

População
1900 -    805.000
1910 - 1.062.000
1920 - 1.319.000
1930 - 1.536.000
1940 - 2.205.000
1950 - 2.695.000
1960 - 3.337.000

O rebanho teve a seguinte evolução:
                       Bovinos           Equinos        Suinos         Ovinos         Caprinos
1938             1.081.000        246.000      523.000       614.000          731.000
1950             1.400.000             ?                 ?               900.000       1.000.000
1957             1.690.000       334.000       976.000    1.382.000      1.193.000
1964             1.969.000       364.000    1.329.000    1.465.000      1.629.000
1964/1938    =  82%             48%            154%           138%               123%

Em 1964 foram abatidos em estabelecimentos controlados pelo governo:

Bovinos    -  184.000 cabeças
Suinos      -   206.000 cabeças
Ovinos     -  154.000 cabeças
Caprinos  -  193.000 cabeças

O IBGE no Censo Agropecuário constatou que no dia 31/12/2008 havia nos 184 municípios do estado do Ceará 2.460.000 cabeças de bovinos. Os cinco maiores rebanhos, que representavam 12% do total estavam nos seguintes municípios:
Quixeramobim 84.000 cabeças
Quixadá 54.000 cabeças
Morada Nova 54.000 cabeças
Tauá 54.000 cabeças
Icó 53.000 cabeças



[1] Antiga Soure.
[2] In ‘História do Brasil’ 6 vol. (trad. de Luis Joaquim de Oliveira e Castro) Belo Horizonte- Ed. Itatiaia, 1981.
[3] Robert Southey, escreveu: “ Na estação seca somem-se a maior parte dos rios do Ceara. De junho a dezembro não cai uma só gota de chuva, mas são frescas as noites e pesado o orvalho, soprando a brisa rija e regular das nove da noite as cinco da manha(...). O comercio de carnes secas cessara, e o gado, que do consumo interno sobrava, levava-se para Pernambuco, mas o morcego vampiro matava milhares de reses, reduzindo a pobreza opulentos criadores. Passam estes hediondos animais por mais destruidores do que todas as bestas feras.(...) Não há no sertão criador de gado, que não tenha seu rebanho de ovelhas e cabras, servindo estas últimas muitas vezes para amamentar crianças. A cabra, que exercia estas importantes funções, conservava sempre na família o nome de comadre.”
[4] In ‘História do Brasil’ 6 vol. (trad. de Luis Joaquim de Oliveira e Castro) Belo Horizonte- Ed. Itatiaia, 1981.
[5] In ‘As Oficinas de Carnes do Ceará’. Fortaleza, Gráfica Editorial Cearense, 1977
[6] Em ‘Um Capítulo da Economia Pastoril do Nordeste, publicado na revista Cultura Política, ano IV, n° 38, março de 1944, Rio de Janeiro.
[7] In ‘Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1834-1839)
[8] In ‘História do Brasil’ 6 vol. (trad. de Luis Joaquim de Oliveira e Castro) Belo Horizonte- Ed. Itatiaia, 1981.
[9] Conhecida como "Grande Seca" durou de 1791 a 1793 e destruiu quase todo o Nordeste. Nunca mais houve a recuperação completa.
[10] Haddock Lobo (1817-1869) na já citada “História Econômica e Administrativa do Brasil” relata: “há indícios para se supor que, ate a segunda metade do século XVIII, o fenômeno das secas não se vinha manifestando no Nordeste de maneira tão grave e cruel como em tempos mais recentes. Seu agravamento talvez haja influído na decadência da criação nordestina.”
[11] Relatório anual da Presidência da Província 1879
[12] Cálculo do autor, baseado no Relatorio Anual da Presidencia da Provincia 1874

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