Os nativos de Gramació e os franceses no litoral sul do RN




Os franceses nunca esconderam o desejo de explorar o comércio nos novos territórios monopolizados pelos ibéricos depois do Tratado de Tordesilhas. Para tanto, tentaram tomar posse de uma parte do Brasil logo no primeiro século da colonização. Nessa época, a principal atração econômica do território brasileiro foi o pau-brasil, mercadoria muito bem aproveitada no processo de tingir tecidos, já que a atividade têxtil francesa estava em pleno desenvolvimento.
Como a prática comercial não exigia o domínio territorial, os nativos foram cordiais com os franceses, fazendo do litoral da capitania um reduto de exploradores de madeiras. O navegador francês Jacques de Vaulx de Claye, chegou a elaborou um mapa do nordeste do Brasil, em 1579. Tratava-se de um portulano para uma expedição que ocorreu em 1581, planejada por Catarina de Médici para Filipe Strozzi conquistar a costa entre a Amazônia e a Bahia. Essa expedição foi derrotada nos Açores por uma frota espanhola.
O documento de Jacques de Vaulx apresenta um inventário sobre os recursos naturais, espécies de animais e tribos nativas da região. Nesse mapa aparecia uma aldeia denominada Ramaciot, correspondendo a atual área de Vila Flor. Aparentemente, essa deveria ser uma aldeia importante para as relações comerciais dos franceses.
Como um ancoradouro natural, Baía Formosa serviria para os navios franceses receber as mercadorias. Em embarcações menores deveriam entrar no território pelos rios Cunhaú, trairi e Pituaçu e, dessa forma, devem ter feito muitos contatos com os nativos da região.
A atuação dos franceses não parece ter perdido força depois que Portugal passou a ser governado pelos espanhóis. Durante a União Ibérica, entre 1580 e 1640, as invasões à colônia brasileira tiveram um significativo aumento, pois a Espanha estava envolvida em complicados conflitos com franceses, ingleses e holandeses.
Foi por esse motivo que, no final do século 16, o monarca espanhol ordenou a retomada das capitanias do norte da colônia que estavam abandonadas. As capitanias entre São Vicente e Pernambuco estavam relativamente controladas pela Coroa, especialmente após a instalação do Governo Geral. Já os donatários das capitanias de Itamaracá, Rio Grande, Ceará e do Maranhão não conseguiram sucesso em seus empreendimentos, fracassando na colonização.
Com isso, muitos estrangeiros aproveitaram para fazer comércio com os produtos que encontravam na região. Além do pau-brasil, outras madeiras, peles e plumas de animais selvagens também eram comercializadas com os nativos.
Com a retomada dessas capitanias, os ibéricos devem ter feito uma perseguição forte contra as aldeias que mantiveram contatos com os franceses. Depois do domínio ibérico consolidado, os relatos sobre Gramació não aparecem mais. Nem mesmo durante a dominação holandesa, que promoveu várias alianças com os nativos entre 1630 e 1654, há informação sobre a tribo de Gramació.
A aldeia original de Gramació foi, então, exterminada na retomada da capitania, feita a partir de 1597. As informações sobre a aldeia só retornam no final do século 17 e início do 18, cem anos depois da conquista. Por esse motivo há de se imaginar que a aldeia de Gramació que reaparece nos relatos a partir do século 18 já não é a mesma que foi citada pelos franceses, muito embora tenha sido mantida a toponímia.

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