sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A INTENTONA COMUNISTA


O QUE É FATO E O QUE É BOATO

Por Paulo Victorino   
     
O comunismo jamais, em qualquer momento, teve alguma chance de ser implantado no Brasil como um movimento popular, tal como aconteceu na Rússia de 1917. A população brasileira, da cidade ou do campo, sempre foi conservadora e, além do mais, faltava-lhe qualquer ambientação política, vivendo o dia-a-dia do trabalho e da vida familiar, sem se deixar envolver pela propaganda revolucionária, seja da esquerda ou da direita.
     Certo é que, na década de 30, o sudeste e o sul do Brasil já contavam com uma população imigrante mais esclarecida e capaz de responder a estímulos das lideranças, sobretudo os italianos e alemães, todavia, uns e outros vieram ao Brasil para vencer pelo trabalho, não lhes interessando, de forma alguma o envolvimento em questões políticas ou militares. Assim, tentativas de levante, em nosso país, sempre foram obra de uma classe média restrita, sem qualquer participação de base.
     Na madrugada de 27 de novembro de 1935 – é o que conta a história oficial – um grupo de militares rebeldes assassinou covardemente, pelas costas, seus companheiros de farda que se achavam dormindo, sublevando o 3º Regimento de Infantaria da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro e espalhando a revolta pelos quartéis vizinhos, chegando até o Campo dos Afonsos, onde se achava instalada a Escola de Aviação.
     É isso, talvez, e muito mais que isso. Muitos dos que participaram da Intentona silenciaram durante toda a vida e morreram sem deixar seu depoimento para a História. Mas, meio século depois, é possível traçar, com alguma segurança, a trilha que levou aos levantes de 1935 em Natal, em Recife e no Rio de Janeiro. Nesse propósito, a longa e paciente pesquisa realizada pelo historiador Hélio Silva, falecido em 1998, é um importante referencial, representando o que de melhor temos para entender o que se passou naquele tumultuado período da vida brasileira.
     Se, de um lado, o levante de 1935 representou uma lamentável perda de vidas, no cumprimento do dever, não é menos certo que o episódio foi usado como uma "espada de Dâmocles" pendente sobre a nação, transformando em subversivos todos aqueles que, em algum momento, ousassem ter opiniões divergentes. Foi a consolidação do poder político-militar, interferindo na vida nacional, algumas vezes se tornando uma sombra do poder constituído, outras, agindo ostensivamente contra esse mesmo poder.
     Como escreveu Otto Lara Resende (Folha de São Paulo, 27.11.91): "Hoje é de lastimar o vigoroso investimento político e emocional que foi feito nessa tal Intentona. 1935, quantos crimes foram cometidos em teu nome!"

     Este trabalho não pretende influir no julgamento do leitor. Ao contrário, procura colocar fatos relacionados com o levante, permitindo que cada um tire, por si mesmo, as conclusões.
Um resumo dos
acontecimentos
     Intentona é uma palavra que veio do castelhano, significando intento louco, ou plano insensato. Foi o nome usado para designar o levante militar deflagrado pelo Partido Comunista Brasileiro em 1935, tendo como objetivo a tomada do poder. O movimento previa, em sua primeira etapa, a instalação de um governo nacional revolucionário sob a chefia de Luís Carlos Prestes.
     A eclosão do levante se deu no Rio Grande do Norte e depois em Pernambuco, mas a etapa mais importante era a sublevação da Vila Militar no Rio de Janeiro, um complexo de quartéis que representavam o centro nervoso das forças incumbidas de garantir a segurança nacional.
     Em Natal (Rio Grande do Norte), o movimento iniciou-se antecipadamente, em 23 de novembro de 1935, quando sargentos, cabos e soldados tomaram o 21º Batalhão de Caçadores e instalaram um Comitê Popular Revolucionário. Quatro dias depois, as tropas do Exército e polícias dos Estados vizinhos tomaram o quartel das mãos dos revoltosos, restabelecendo a ordem.
     Em Recife (Pernambuco), a revolta eclodiu no dia 24. Se é bem verdade que este levante foi dominado em apenas um dia, também é fato que a repressão deixou um saldo de 100 mortos entre os sublevados.
     Na Praia Vermelha, próximo aos bairros da Urca e Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, no 3º Regimento de Infantaria, o levante se deu na madrugada do dia 27, sendo completamente dominado em menos de dez horas, com um total de 20 mortos entre os insurretos.
     Dentro do Exército, no balanço geral em todo o país, os acontecimentos de Natal, Recife e Rio de Janeiro, somados, custaram a vida de um tenente-coronel, dois majores, quatro capitães, um tenente, quatro sargentos, quatorze cabos e dois soldados, totalizando 28 militares legalistas mortos.
Os antecedentes
     No dia 23 de fevereiro de 1917, na distante cidade de São Petersburgo, Rússia, um punhado de operárias, descontente com as condições de trabalho, recusou-se a entrar em serviço. A decisão dessas mulheres encontrou eco em outras fábricas e em outras cidades e, no final do dia, já eram 90.000 operários em greve. Três dias depois, perdendo por completo o controle do país, caia a dinastia dos Romanov, no poder há mais de 300 anos.
     Conquanto o movimento comunista se achasse bem organizado na Rússia, seus principais líderes, naquele momento, estavam no exílio e os que se achavam no país, menos expressivos, rechaçavam qualquer idéia de ação revolucionária, temendo pela tragédia inútil que um levante poderia proporcionar. Assim, a queda do csarismo foi resultado de um movimento imanente, partindo das massas, sem participação direta dos líderes e até contra a vontade das lideranças.
     Isso deu aos líderes comunistas em outros países a falsa impressão de que o mundo estava "maduro" para o comunismo e que, a qualquer revolta, os governos então dominantes iriam caindo, um a um. Por conseqüência, o ano seguinte, chamado de "o ano vermelho", foi pródigo em movimentos sediciosos, todos eles fracassados e reprimidos com violência.
     O Brasil, como não poderia deixar de ser, viveu a mesma febre dos levantes operários de 1918. No Rio de Janeiro, as comemorações do 1º de maio lembraram o triunfo, pelo menos aparente, dos trabalhadores na Rússia. Embora com o Brasil em estado de sítio, os operários cariocas acorreram à praça Tiradentes, onde aconteceu ruidosa manifestação. As greves e tumultos, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, se prolongaram por todo o ano.
     Em 1922, fundou-se o Partido Comunista Brasileiro, que viveu a maior parte da década na ilegalidade, impedido de fazer proselitismo, em face do esquema repressivo montado pelo governo contra lideranças operárias e sindicatos. Assim, em 1927, os líderes comunistas mudaram sua estratégia, fundando uma frente única, conhecida como Bloco Operário, ao qual, mais tarde, se acrescentou um movimento rural, passando a chamar-se Bloco Operário e Camponês (BOC).
     As células do BOC, espalhadas pelo país, tiveram a mesma sorte do Partido Comunista. Não existia no Brasil campo para o desenvolvimento de idéias políticas ou reivindicatórias, e as manifestações, esporádicas e barulhentas, jamais representavam as massas. Nas cidades, o trabalhador estava mais interessado em garantir seu emprego e o sustento da família. No campo, reinava ainda o sistema feudal, onde o camponês tinha uma relação de total dependência com o fazendeiro, que lhe dava casa, comida, meia-dúzia de trocados e adiantamentos em dinheiro, para atender imprevistos, criando uma dívida impagável, que o sujeitava à propriedade, em regime de absoluta servidão.
Ação Integralista
Brasileira (AIB)
     Como já tivemos oportunidade de ver, o sucesso da revolução de 1930, com a posse de Getúlio Dorneles Vargas, coincidiu com a busca mundial por regimes políticos radicais, de esquerda e de direita, retirando o espaço para o desenvolvimento de doutrinas liberais.
     Seguindo essa tendência, dentro do "tenentismo" e fora dele, surgiram "Legiões" inspiradas nos agrupamentos paramilitares europeus, como os "camisas negras" do fascismo italiano ou os "camisas pardas" do nazismo alemão. Em tudo, as legiões eram semelhantes: nos uniformes (mudando apenas a cor), nos símbolos, nos slogans e até na saudação com o braço erguido. No Brasil, a maioria teve curta duração, mas uma delas, a Ação Integralista Brasileira (AIB), conseguiu estabelecer bases sólidas e duradouras, aliando sentimentos comuns à população brasileira, quais sejam, a religião, a nacionalidade e a estrutura familiar.
     A Ação Integralista Brasileira, com tendências fascistas, foi idealizada pelo escritor Plínio Salgado em 1932. Usava camisas verdes, tinha como símbolo o sigma e, como lema, "Deus Pátria e Família". Dela participavam os elementos mais reacionários da classe média, sobretudo estudantes universitários, juntamente com militares.
     O integralismo pregava um "Estado Integral" sem explicar exatamente o que vinha a ser isso. Basicamente pregava um regime forte, substituindo a representação popular por corporações sindicais, estudantis e militares. Tinha um caráter profundamente nacionalista, defendendo fortemente a estatização das riquezas nacionais e, nos demais casos, assumindo a defesa intransigente da propriedade privada.
     Era elitizante e limitativo, pregando a idéia que o governo deveria ser entregue às "elites esclarecidas", vale dizer aos que comungavam com suas opiniões. Não descartava o uso da força, em substituição ao convencimento, e, tal qual o comunismo, considerava a delação como uma virtude a ser cultivada pelos seus membros.
Aliança  Nacional
Libertadora (ANL)
     Em contraposição ao integralismo, não tardou em surgir uma frente ampla, igualmente radical, reunindo os mais variados setores da esquerda: sindicalistas, liberais a procura do espaço perdido, setores da classe média preocupados com o recrudescimento do fascismo no mundo e, é claro, os comunistas, frustrados em tentativas anteriores, que encontravam agora um caldo de cultura apropriado para o desenvolvimento de seus projetos.
     Foi assim que surgiu a Aliança Nacional Libertadora (ANL), firmada na trilogia "Terra, Pão e Liberdade". Dela faziam parte vários "tenentes", entre eles, Agildo Barata Ribeiro, um dos heróis da revolução de 1930 na ala norte do país; Benjamim Soares Cabelho, que veio a se tornar uma figura importante da Terceira República; operários e jovens acadêmicos, entre estes o estudante Carlos Lacerda (mais tarde jornalista e político de destaque), cujo pai, Maurício Lacerda, foi um dos precursores da legislação trabalhista no Brasil.
     Ao contrário do que muitos pensam, não tinha a participação física de Luís Carlos Prestes que, nesse momento, se encontrava em Barcelona (Espanha) sob o nome falso de Antônio Vilar, em companhia de Maria Bergner Vilar, que outra não era senão sua mulher, Olga Benário. A direção da ANL estava entregue a Hercolino Cascardo, o mesmo que, na revolução de 1924, tentou, sem sucesso, sublevar a Marinha.
     Embora a frente ampla não fosse comunista, estes agiram rapidamente no sentido de se destacar entre as demais correntes, dominando a agremiação, aproveitando-se do idealismo dos outros participantes. No dia da fundação da ANL, Carlos Lacerda foi escalado para discursar em nome dos estudantes e, induzido por radicais, caiu em uma armadilha, lançando o nome do "Cavaleiro da Esperança" como presidente de honra da ANL. Foi assim que Prestes passou a figurar como Presidente de Honra da associação.
     Para o Brasil, o Comitê Internacional Socialista (Comintern) enviou o agitador alemão Ernst Ewert, com o nome falso de Harry Berger. Passo a passo, um movimento sério de combate ao fascismo, ia sendo usado como plataforma para os planos sinistros (e mal calculados) visando a implantação do regime comunista no Brasil.
A  questão  dos
soldos militares
     Paralelamente, reinava insatisfação nos quartéis pela deterioração salarial, um clima perigoso, na medida em que a impaciência da jovem oficialidade encontrava eco entre alguns oficiais superiores. Qualquer aumento, dependia do sinal verde do ministro da Fazenda, o qual declarara, com firmeza, não haver dinheiro para cobrir as despesas com um eventual reajuste. Um projeto transitava na Câmara Federal a passo de tartaruga, enquanto a crise se agravava.
     Não tardou em surgir uma rebelião na guarnição de Cachoeira, no Rio Grande do Sul, contando com apoio ostensivo do governador Flores da Cunha, a essa altura, de olho na sucessão presidencial. Getúlio repreende-o em telegrama: "Apelo para teu sentimento brasileiro evitar caia sobre ti a responsabilidade moral de uma guerra civil."
     Nesse meio tempo, Getúlio Vargas, aconselhado pelo comandante da 1ª Região Militar, general João Gomes, decide demitir o comandante da Vila Militar, general João Guedes da Fontoura, sobre o qual recaiam suspeitas de infidelidade ao governo. Acontece que o general Fontoura era amigo particular do ministro da Guerra, Góis Monteiro.
     O problema repercute no ministério da Guerra, onde o general Góis Monteiro se demite, sendo substituído pelo general João Gomes Ribeiro Filho, até então comandante da 1ª Região Militar. O general Eurico Gaspar Dutra, que era comandante da Aviação,  ocupa a vaga deixada na 1ª RM. Essas trocas de comando, anunciadas pela imprensa, aumentam a tensão reinante.
     Tais problemas, cozinhados em "banho-maria", minaram a disciplina militar, facilitando a ação dos conspiradores, sobretudo no Rio de Janeiro.
A questão dos cabos
e sargentos
     Modificações no regulamento militar reintroduziram um dispositivo que existia na Primeira República, pelo qual, completados dez anos na ativa, os militares que não tivessem atingido o oficialato seriam automaticamente jubilados, com o afastamento definitivo da vida militar.
     Nas grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, onde as possibilidades de acesso são maiores, essa alteração não trazia maiores problemas. Quem em dez anos não houvesse chegado a tenente, pelo menos, já teria desistido da carreira militar. O mesmo não acontecia em cidades menores, sobretudo do nordeste, onde muitos permaneciam estacionários na função de praça, por vezes até o limite de idade para a reforma.
     O retorno do jubilamento de praças, agora fortalecido pela nova ordem constitucional, era outra fonte de atritos, criando ambiente propício para aliciamento dos prejudicados, interessados que estavam na revogação da medida. Aliás, foram eles, no nordeste, os grandes responsáveis pelas sublevações.
Conspiração em marcha
     Foi dentro desse clima que se desenvolveu a conspiração comunista que levaria aos levantes de novembro de 1935. No momento oportuno, Prestes transferiu-se da Espanha para o Brasil, permanecendo em lugar ignorado, mas enviando ordens e manifestos, enfim, controlando, passo a passo, o desenrolar dos trabalhos.
     No dia 28 de abril, realizou-se em Madureira (subúrbio carioca) um comício da Aliança Nacional Libertadora, em afronta aos integralistas, do qual participaram oficiais, sargentos e cabos. Os identificados foram expulsos das fileiras do Exército e seus superiores, capitães Carlos da Costa e Trifino Correia sofreram punições. O assunto repercute na Câmara Federal.
     No dia 9 de junho a ANL realiza outro comício, desta vez em Petrópolis, quase em frente à sede da Ação Integralista Brasileira, resultando em confronto entre as duas facções, com um morto e vários feridos. O morto era aliancista e o tiro partiu da sede dos integralistas.
     Sem o saber (ou sabendo muito bem) o comando militar contribuia para o desenvolvimento da ação aliancista. Assim é que o capitão Agildo Barata Ribeiro, conhecido como um dos conspiradores, foi transferido para uma unidade militar no Rio Grande do Sul, a pretexto de afastá-lo do Rio de Janeiro. Com isto, ele aproveitou a oportunidade para fundar em Porto Alegre um núcleo da Aliança Nacional Libertadora, realizando um comício no dia 5 de julho de 1930, data comemorativa das revoluções de 1922 e 1924. Por pura sorte, a manifestação transcorreu em paz, pois o interventor Flores da Cunha já avisara que, ao menor sinal de desordem, a polícia tinha ordem de "descarregar" sobre os manifestantes.
     Na mesma data, outro comício se realizou, este clandestinamente, no Rio de Janeiro, ocasião em que o acadêmico Carlos Lacerda leu um manifesto de Luís Carlos Prestes. A reação não tardou. Em 11 de julho um decreto do governo federal colocou a Aliança Nacional Libertadora fora da lei e, dois dias depois, sua sede era fechada. Paralelamente, procedeu-se o fechamento da União Feminina Brasileira, outro braço dos aliancistas.
     O presidente da ANL, Hercolino Cascardo, oficial marinheiro, foi removido para Santa Catarina, onde lhe deram o comando de uma base naval. Outra remoção igualmente inexplicável, pois se introduzia um elemento revolucionário, em posição de comando, num local até então desligado do movimento aliancista.
Getúlio sabia de tudo
      Se havia alguém bem informado de tudo o que se passava, e dos planos em andamento, esse alguém era o presidente da República, Getúlio Dorneles Vargas. Seu serviço de inteligência mantinha-o a par dos mínimos detalhes, e agentes infiltrados no movimento colhiam dados significativos, possibilitando até uma ação preventiva. Como linha auxiliar, o Presidente recebia também ajuda internacional, por intermédio do "Inteligence Service", infiltrado no Partido Comunista Brasileiro, ora na ilegalidade.
     Em certo momento, já se sabia até a data e hora do levante: 27 de novembro de 1935, às 2h30 da madrugada, tendo como centro de operações a Praia Vermelha, mais precisamente, o 3º Regimento de Infantaria.
     O governo não só deixou de cortar o movimento em marcha como algumas medidas permitem entrever que o próprio sistema ajudou para que as coisas acontecessem, dando margem, mais tarde, para o fechamento do regime. Assim, por exemplo, na madrugada do levante na Praia Vermelha, as tropas de reforço levaram duas horas para chegar ao local de conflito, porque não havia sido tomada a mais elementar das providências, qual seja, a requisição dos caminhões para o transporte dos soldados. Impossível que um descuido desses partisse logo do comando da 1ª Região Militar, e isso num momento em que os quartéis do Rio de Janeiro se achavam em regime de prontidão.
     Como se disse acima, o Capitão Agildo Ribeiro, bem quieto no Rio de Janeiro, foi transferido para Porto Alegre, onde aproveitou o ensejo para organizar um núcleo da ANL. Já no mês de novembro, o mesmo Agildo foi punido com 25 dias de detenção. Transferido para o Rio de Janeiro, ficou preso, adivinhe onde? Justamente no 3º Regimento de Infantaria, de onde deveria partir o movimento sedicioso. Juntou-se a fome com a vontade de comer. Próximo dos demais conspiradores, pode agir com o maior desembaraço. Sua pena deveria extinguir-se em 3 de dezembro. Foi reduzida de 25 para 20 dias, devendo terminar, então, em 28 de novembro. O levante estava marcado para 27 de novembro...
Em Natal, o movimento
é antecipado
     Pelos planos, o levante deveria ocorrer na madrugada de 27 de novembro. Então, os responsáveis pela conspiração em Natal receberam um telegrama apócrifo, enviado talvez pelo serviço de contra-informação do governo, mas com a identificação da chefia do movimento. Esse telegrama informava que o início havia sido antecipado para 23 de novembro. Inexperientes, os líderes acreditaram na veracidade do telegrama.
     Foi assim que, na noite de 23 de novembro, um sábado, dois sargentos, dois cabos e dois soldados sublevaram o 21º Batalhão de Caçadores. Beneficiados pelo elemento surpresa, conseguiram pôr em fuga o governador do Estado, que refugiou-se em um navio de bandeira francesa.
     Rapidamente, o movimento se alastrou por outras cidades do Rio Grande do Norte. Colunas rebeldes ocuparam Ceará-Mirim, Baixa Verde, São José do Mipibu, Santa Cruz e Canguaratema.
     Totalmente ingênuos em movimentos sediciosos, os sublevados acreditavam ter dominado a situação. Tomaram o palácio do Governo e instalaram um "Comitê Popular Revolucionário" com o "Ministério" assim constituído: Lauro Cortês Lago (funcionário público), Ministro do Interior; Quintino Clementino de Barros (sargento), Ministro da Defesa; José Praxedes de Andrade (sapateiro), Ministro do Abastecimento; José Macedo (carteiro), Ministro das Finanças; João Batista Galvão (estudante), Ministro da Viação. O cabo Estevão assumiu o comando do 21º Batalhão de Caçadores, enquanto o sargento Eliziel Diniz Henriques passou a comandar a Guarnição Federal. E depois? Depois, mais nada. Ninguém sabia o que fazer (se alguma coisa pudesse ser feita) para consolidar o movimento supostamente vitorioso.
     Nas ruas, a população exultava com aquele breve momento de anarquia. Durante alguns dias a capital virou terra de ninguém, com saques, roubos, invasões de domicílio, requisição de veículos particulares e tudo mais que passasse pela imaginação. Passados os acontecimentos, o "ex-Ministro da Viação", estudante João Batista Galvão, desbafa: "Naquele tempo, todo mundo fez o diabo e depois botou a culpa em cima de nós. O povo topou a revolução por pura farra. Saquearam o depósito de material do 21º BC e todos passaram a andar fantasiados de soldado. Minha primeira providência como ‘ministro’ foi decretar que o transporte público seria gratuito. O povo se esbaldou de andar de bonde sem pagar."
     Quatro dias depois de iniciado, o movimento foi contido por tropas do Exército e polícias de outros Estados, que invadiram o Rio Grande do Norte e restabeleceram a ordem.
Recife seguiu na
esteira de Natal
     Em Recife, o levante ocorreu um dias após, quando chegaram notícias da rebelião em Natal. Tinha tudo para dar certo. O governador, Carlos Lima Cavalcanti se achava na Alemanha, passeando de "Zepelin" (uma espécie de navio voador que pretendia substituir o avião). O general Manuel Rabelo (o mesmo que fora interventor em São Paulo) estava no Rio de Janeiro, cuidando de assuntos militares relativos ao seu comando. O comandante da Brigada Militar, capitão Jurandir Bizarria Mamede (que trinta anos depois seria o pivô de uma séria crise militar) estava no Rio Grande do Sul, comemorando o centenário da Revolução Farroupilha (Note-se que tanto o presidente da República quanto as autoridades militares tinham conhecimento do ambiente agitação nos quartéis,  prova disso é que o Rio de Janeiro se achava de prontidão. Assim, é surpreendente essa ausência, a um só tempo, das principais autoridades de Pernambuco) Aparentemente, a cidade estava sem comando. Mas era apenas aparência .
     Na manhã do domingo, dia 24, um sargento, chefiando um grupo de civis, atacou a cadeia pública de Olinda. Logo depois, o sargento Gregório Bezerra tentava apoderar-se do Quartel General da 7ª Região Militar, matando o tenente José Sampaio e ferindo o tenente Agnaldo Oliveira de Almeida, antes de ser subjugado e preso.
     Na Vila Militar, o capitão Otacílio Alves de Lima, o tenente Lamartine Coutinho e o tenente Roberto Besouchet sublevaram o 29º Batalhão de Caçadores e se apossaram de todo armamento. Encontraram porém, uma reação imediata do tenente-coronel Afonso de Albuquerque Lima, sub-comandante da brigada policial, com a ajuda, também, da Guarda Civil. No dia seguinte, chegou o reforço da Artilharia e o único quartel realmente sublevado, o 29º BC sofreu intenso bombardeio, resultando em uma centena de mortos.
     Os que conseguiram fugir pelas estradas, deram de frente com tropas da polícia estadual, que se achavam em batida, à procura do cangaceiro "Lampião". Em dois dias, pois, o movimento estava totalmente dominado.
Tragédia na Praia Vermelha
     Se o telegrama falso chegou rapidamente a Natal, o inverso não é verdadeiro. Os conspiradores no Rio de Janeiro não sabiam nada sobre o que estava acontecendo no nordeste e entraram em armas, desconhecendo que os movimentos em Natal e Recife haviam se iniciado fora de tempo e já estavam debelados. Funcionou mais uma vez o serviço de contra-informação, bloqueando a comunicação, tão importante em operações de guerra. Vamos, aqui, seguir a narrativa do general Ferdinando de Carvalho, em seu livro "Lembrai-vos de 35!":
     "Na Escola de Aviação, em Marechal Hermes, os capitães Agliberto Vieira de Azevedo e Sócrates Gonçalves da Silva, juntamente com os tenentes Ivan Ramos Ribeiro e Benedito de Carvalho assaltaram o quartel de madrugada e dominaram a unidade. Vários oficiais foram assassinados ainda dormindo. O capitão Agliberto matou friamente o seu amigo capitão Benedito Lópes Bragança, que se achava desarmado e indefeso. Em seguida, os rebeldes passaram a atacar o 1º Regimento de Aviação, sob o comando do coronel Eduardo Gomes que, apesar de ferido ligeiramente, iniciou a reação. (...)
     "No 3º Regimento de Infantaria, na Praia Vermelha, acontecimentos mais graves ocorreram. Os rebeldes, chefiados pelos capitães Agildo Barata, Álvaro Francisco de Sousa e José Leite Brasil conseguiram, na mesma madrugada, após violenta e mortífera refrega no interior do quartel, dominar quase totalmente a unidade. Ao amanhecer, restava apenas um núcleo de resistência legalista, situado no Pavilhão do Comando, onde se encontrava o coronel Afonso Ferreira, comandante do Regimento. (...)
     "Nas últimas horas da madrugada, acionados diretamente pelo comandante da 1ª Região, general Eurico Gaspar Dutra, o Batalhão de Guardas e o 1º Grupo de Obuses tomaram posição nas proximidades do aquartelamento rebelado e iniciaram o bombardeio. (...)
     "Finalmente, às 13h30, bandeiras brancas improvisadas foram agitadas nas janelas do edifício, parcialmente destruído. Era a rendição. Presos, os insurretos apresentaram-se na praça em um compacto grupo. Muitos rebeldes adotaram uma atitude de zombaria, sorrindo cinicamente, em franco desrespeito àqueles que, naquele mesmo local, pouco tempo antes, haviam tombado em luta inglória."
O outro lado da história
     Essa narrativa, apresentando a versão oficial, não encontra consenso entre os estudiosos da História do Brasil. Sobre o assunto, por exemplo, o professor Marco Aurélio Garcia, da Unicamp, em artigo publicado pela Folha de São Paulo em 18 de novembro de 1983, escreve:
     "Para as Forças Armadas, segundo reiteram as ordens do dia a cada ano, a Intentona apenas comprova o que de há muito se deveria saber: o caráter ‘apátrida e traiçoeiro do comunismo internacional’. Como prova, são exibidos cadáveres de oficiais e soldados ‘mortos enquanto dormiam’. A reiteração monótona desta versão não resiste aos fatos. Todas as pesquisas históricas sérias realizadas sobre o episódio, sobre as quais será difícil levantar suspeição, como é o caso do trabalho de Hélio Silva, desmontam, com o apoio dos laudos dos médicos legistas da época, a tese de ‘assassinato pelas costas’.
     "Em suma: não houve mortos enquanto ‘dormiam’, sem falar no absurdo que representaria soldados dormindo em quartéis submetidos a regime de prontidão, como era o caso da madrugada do levante. Mortos houve, e dos dois lados, como nos levantes de 22 e 24, na Coluna Prestes ou em 30, para não falar em 1932. (...)
     "As Forças Armadas, elas próprias, se viam afetadas pela polarização política que sacudia o país. Trinta e cinco, nesse sentido, pode ser visualizado, também, como mais um (e quem sabe o último) episódio tenentista, a despeito do revestimento ideológico mais preciso. (...)
     "Somente através destas e de outras pistas – afastando-se da propaganda anticomunista, ou da autocomplacência de certos setores à esquerda – é que o episódio de 1935 poderá ser restituído em toda sua integridade à História do Brasil."
     Aí estão, pois, duas versões distintas de um mesmo episódio. Escolha a que melhor lhe convier ou tire, por si mesmo, as conclusões que julgar apropriadas.

FONTE: http://www.pitoresco.com/historia/republ207.htm

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