quarta-feira, 3 de abril de 2013

As Cercas de pedra do Seridó

As nossas velhas cercas de pedra contam-nos a história seridoense dos ciclos do gado e do algodão. Em suma, a história da ocupação rural do território seridoense e da pujança da sua economia, que elevou a região a patamares econômicos, sociais, políticos e culturais tão altos, jamais atingidos em épocas subseqüentes, inclusive a atual.
Demais disso, as cercas de pedra, como os açudes primitivos, são hoje autênticos monumentos à inteligência do seridoense trabalhador rural, vaqueiro, fazendeiro, pecuarista e suas respectivas famílias. Construídos com muito suor e criatividade é crime cultural destruí-los. Monumentos à inteligência?
No caso da cerca de pedra porque ela é exemplo perfeito da utilização sustentável de recursos naturais, hoje em dia na pauta de todas as discussões sobre desenvolvimento; porque a inteligente observação do nosso homem do campo concluiu sabiamente que esse seria o único tipo de cerca permanente. Se porventura vier a cair, o material de reconstrução permanecerá no local. Nenhum outro tipo de cerca oferece essas duas vantagens. Você pode até nunca ter notado, mas uma cerca de pedra bem feita é uma obra de arte! Um livro — como escreveu Dom José Delgado a respeito das obras sociais, um livro que até os analfabetos conseguem ler.
Cada pedra dessas cercas é uma página da história do sertão do Seridó norte-rio-grandense. É um marco de algo que não pode ser esquecido. É um registro indestrutível, legado deixado pelos velhos sertanejos, fundadores de fazendas e cidades, que para nós conquistaram os dias de hoje nessa grande e famosa cidade que responde pelo nome de Caicó.
Foi tal o avanço dessas ancestrais conquistas que os nossos antepassados tiveram de construir cercas de pedra para estabelecer os limites do progresso econômico da região.
Sob a alegação de que as cercas de pedra serviam de abrigo para o mosquito da dengue, isso em 1970, quando a doença começava a penetrar com força no Nordeste, alguém no Ministério da Saúde teve a infeliz ideia de sugerir a destruição dessas cercas como uma das medidas a serem adotadas no combate ao aedes aegypti, mosquito transmissor da doença.
Foi quando sertanejo detentor de alguns poderes locais dirigiu-se ao Ministério da Saúde e perante autoridades federais demonstrou a estupidez da medida contra esse verdadeiro patrimônio histórico da cultura social e econômica do Nordeste, especialmente do chamado polígono das secas.
“Mosquitos, Senhor Ministro — argumentou o seridoense, combate-se com inseticidas e não destruindo tradições. Ademais, a dengue veio para o Seridó originária de regiões onde não existe uma só cerca de pedra!”
As cercas de pedra foram preservadas.
Agora é a vez do DNIT — Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, que alargou a faixa de domínio público das margens das rodovias federais, implantando estacas de concreto e arame farpado nas cercas marginais. Trata-se de medida elogiável e de suma importância na prevenção de acidentes, principalmente pelo afastamento de animais da faixa destinada aos veículos motorizados.
Cercas centenárias ficaram abandonadas, dentro da faixa de domínio federal, expostas ao desmancho para a utilização das suas pedras em alicerces e outras obras da construção civil. Infelizmente está sendo esse o destino da nossa história de pedra, ou das pedras que contam a nossa história.
Sábado, 2 de outubro deste ano, vinha de Natal, quando notei na entrada de Caicó, imediações do Iate Clube, dois caminhões estacionados à margem da estrada e pessoas desmanchando cerca bicentenária (quase 250 anos). Uma carrada de seis metros de história e tradição é vendida por R$ 130,00 em Caicó!

Presenciei, portanto, aqui em Caicó a repetição do crime que há mais de dois milênios a brutalidade humana cometia contra os monumentos que testemunhavam a história daquele tempo. Os vencedores destruíam belíssimas construções e monumentos dos vencidos e com suas pedras edificavam prédios com os quais pretendiam perpetuar as vitórias. Hoje isso se chama vandalismo, dos Vândalos, povo bárbaro que saqueou Roma, destruiu monumentos e obras de arte, muitos dos quais desapareceram para sempre.
No mundo só vi cerca de pedra na Península ibérica e na Palestina. Posso atestar que cercas de pedra tão bem feitas como essas nossas, que agora estão sendo destruídas, não existem em lugar nenhum fora do Seridó.
Mesmo assim há localidades brasileiras que já apresentaram ao Ministério da Cultura estudo detalhado de suas cercas de pedra para que sejam reconhecidas como patrimônio cultural, pois, cerca de pedra, além de expressar a história e a cultura de uma região, também gera turismo.
Por que Caicó é tão ávida em destruir seus prédios e locais de tradição histórica?
Esses espigões, alguns até sem garagem para estacionamento de automóveis, ao invés de tornarem a cidade mais turística, tornam-na mais boçal, porque não é metrópole. Mais quente, porque dificulta a circulação da pouca amenidade climática que em alguns momentos visita a cidade. Mais caótica pela loucura do trânsito. Mais atrasada pela falta de planejamento. Não deixa de ser uma manifestação de boçalidade sustentar que esses espigões denotam desenvolvimento.
Do que aprendi em minhas viagens pelos cinco continentes, especialmente observando a cultura, usos e costumes dos povos e as vantagens que extraem do turismo, asseguro que Caicó, a longo prazo, muito ganharia se desenvolvesse esforços no sentido de reconstruir e restaurar as suas cercas de pedra que margeiam a BR pelo menos das imediações do Iate Clube até o bairro Itans.
O investimento é muito pequeno, mas os resultados culturais e turísticos serão inestimáveis.
Finalmente, é preciso que as autoridades cumpram e façam cumprir a lei. A ninguém é escusável negar que desconhece ser crime o que vem ocorrendo com as pedras das velhas e históricas cerca de Caicó.


Fonte:http://bardeferreirinha.blogspot.com.br/2010/11/cercas-de-pedra.html
Copiado de http://www.facebook.com/photo.php?fbid=360005504104744&set=a.300513876720574.60180.300501766721785&type=1&ref=nf

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