terça-feira, 8 de outubro de 2013

As técnicas agrícolas do povo Jandui.

A nação indígena janduis, família gês, grupo tapuias, habitava o vale do rio Açu e de seus afluentes no RN, desde a microrregião Seridó PB/RN até a foz do Açu em Macau-RN. O janduí, que significa ema pequena, seriema, era um povo de pele clara se comparada à pele dos outros índios, inclusive no RN. A designação “tapuia” ou bárbaros era comum a todos os índios do interior das capitanias PE/PB/RN/CE, e provavelmente sem laços sanguíneos. Durante o Brasil Holandês de 1.630 a 1.654 A Companhia das Índias (holandesa) ocupou a zona da mata e litoral desde o atual Estado de Sergipe até o Estado da Paraíba, região açucareira que o Conde Nassau incentivou e promoveu o desenvolvimento dos engenhos de açúcar, aguardente, mel, rapadura, mas para manter a demanda alimentar da população da sua Mauricea (Recife), João Maurício de Nassau Sigien precisava de muita carne bovina que sua possessão não tinha; a zona da mata, pelas próprias e exclusivas condições climáticas e de solo (no NE) não é favorável à pecuária (é ideal para a criação de búfalos). Na época o maior rebanho bovino do Brasil estava na Capitania do RN, exatamente no sertão, aonde os colonos, fazendeiros, viviam harmonicamente com os Janduis. Em 1634, Nassau designou o alemão judeu Jacob Rabbi para ocupar a capitania do RN, que tinha alguns engenhos de produção de açúcar (limitação imposta pela pequena zona da mata RN com pouco mais de 2.000km²) e estava praticamente abandonada pelo seu donatário português, mas a maior preocupação de Nassau era a amizade com o rei Jandui, chefe dos janduis que era amigo dos (poucos) fazendeiros da área, mas inimigo do governo português desde o RN a PE. Rabbi viveu muitos anos com os janduis aprendendo sua língua, seus costumes, mas ensinando-lhes muitas coisas, e foi capaz de comandá-los em vários motins, crimes, invasões, guerras no sertão. A amizade do Conde Nassau com Jandui era tão grande que a bandeira da Companhia das índias tinha 4 capitanias representadas pela produção de açúcar, uva, café, mas tinha também o símbolo da capitania do RN representada por uma seriema – jandui. Na História do Brasil Holandês, de Câmara Cascudo, há registro de que Jandui viajava, à cavalo, pelo sertão, de Açu até a cidade Mauricea, onde era recebido por Nassau com toda pompa. Os janduis participaram de muitas batalhas contra os portugueses e certamente a batalha dos Guararapes 1648/49 teria outro desfecho se os holandeses ainda contassem com os guerreiros janduis (O conde Nassau já tinha ido embora e o rei jandui tinha morrido). Em 1688 o bandeirante Domingos Jorge Velho empreendeu combate contra os janduis e o máximo que conseguiu foi dispersá-los pelos sertões, e hoje 40% do norte riograndense (interior do RN) tem sangue jandui. O rei jandui foi substituído pelo rei Canindé. No Município de Açu existe o maior reservatório natural de água do sertão RN (e provavelmente sertão do NE) – a lagoa do Piató, que suportava anos seguidos de pouca chuva, sem secar, onde o rei Jandui ficava a maior parte do tempo. Naquele tempo o rio Açu era abastecido por muitos brejos de altitudes e permanecia com um filete de água corrente no verão de até 10 meses (sem chuvas) e muitos poços cavados pelas enxurradas na areia do leito do rio, mas água salobra ruim para se beber e imprópria para as plantas. Já na lagoa de Piató a água era doce e relativamente abundante para a agricultura (vazante); Vários olhos d água abasteciam essa lagoa. Nas secas da década de 40 (até 400L/m² de água das chuvas) as pessoas do sertão RN arribavam para junto da lagoa do Piató, o que aconteceu com os meus pais de 1941 a 1943, anos considerado seco, aonde EU nasci em 1943. Embora não esteja (ainda) registrada na história, foi encontrado junto à lagoa, e confirmada pelos antigos descendentes dos tapuias (meus bisavós maternos, por exemplo) contados de pais para filhos, a existência de um sistema de irrigação, do tempo dos janduis, não conhecido no Brasil de então, que consiste na construção de jarras de argila queimada, potes de barros como se fala por aqui. O preparo do barro é feito colocando-se certa porcentagem de areia grossa com a finalidade de que o pote verta água pela porosidade grossa do corpo; No verão, sem chuvas, retira-se a água doce da lagoa do Piató e deposita-se nos potes, no chão, na área do roçado, com os potes distanciados 2 ou 3 metros entre si, plantando-se junto (digamos um metro) do pote (e ao redor) lavouras como feijão, batata doce, mandioca que produziam perfeitamente com a umidade do chão, mantida pela água vertida nas porosidades dos potes de barro. Essa técnica agrícola provavelmente foi transmitida aos janduis no contato com os holandeses que não eram agricultores, mas entendiam tudo de armazenamento e distribuição de água. Na Companhia das índias tinha gente de vários países europeus. Uma coisa temos certeza; não é uma idéia portuguesa.

Outra técnica agrícola era desenvolvida na plantação de feijão e batata doce na areia do rio Açu. Como se sabe a areia do rio é areia lavada, desprovida de minerais, mas como a areia do leito do rio está sobre a rocha matriz, impermeável à água, têm-se, durante o verão, muita água proveniente das chuvas armazenada na areia, lençóis freáticos. A camada de areia lavada no leito do rio Açu pode chegar a 10 metros de espessura. Para fazer sua lavoura no rio (ainda hoje é assim) do sertão colocavam-se em cada cova da plantação 10 litros de estrume de animais. Os janduis não criavam gado e quase sempre conseguiam estrume com os fazendeiros portugueses do sertão RN, mas quando os janduis estavam em guerra com os civilizados da área o estrume da plantação tinha de ser próprio: todo mundo fazia suas necessidades fisiológicas no mesmo local para ter material para fertilizar a areia do rio e assim poder plantar lavoura no verão. Segundo relato dos mais velhos a melhor produção acontecia com estrume humano. Hoje se faz a plantação de feijão e batata doce na areia dos rios do sertão colocando-se estrume de gado bovino, ovino, galinha, caprino, masa água nos lençóis da areia dos rios está secando, não só pela redução na oferta de chuvas (do ano 2000 para o ano 2009 a oferta de chuvas foi boa), mas também por que aumentou a procura por essa água, ação das intempéries. Consequentemente a água ficou mais salgada.

A principal causa da salinização da água nos rios do sertão não é terreno cristalino, não é cloreto de sódio, mas sim nitrato de sódio, salitre, abundante no terreno argiloso (mas não no terreno arenoso) das várzeas dos rios, lembrando que nitrato de sódio é ácido nítrico, formado na atmosfera (e trazido para o chão pelo ar e pela água das chuvas) por agentes poluentes gerados nas atividades do homem na litosfera, mais o sódio que se tornou abundante no sertão com a eliminação, com fogo, da vegetação, principalmente nas várzeas dos rios que tinha vegetação exuberante, de grande porte.

Obs.: a correção do salitre ácido nitrato de sódio pode ser feita com carbonato de cálcio (álcali).

No RN existiu outra tribo famosa no Século XVII, Estamos nos referindo aos potiguares que ocupava o litoral e zona da mata de Canguaretama a Touros. Potiguar significa comedores de camarões. Potiguar é quem nasce na Grande Natal. O chefe dos potiguares, o Poti, foi batizado na Espanha com o nome de Antônio Felipe Camarão. Foi nomeado pelo Rei Espanhol (dominou o Brasil de 1580 a 1640) Governador dos índios do Brasil com seu palácio em Meretiba, hoje municípios de Paudalho e Camaragibe-PE. Poti nasceu e viveu até adolescente no bairro que tem o seu nome Felipe Camarão, em Natal. Por volta de 1628 foi para Olinda-PE; Com seus bravos guerreiros potiguares (e outros índios do NE) combateu os holandeses em PE. Por ser amiga dos portugueses a tribo potiguar era inimiga dos janduis, mas há registro da participação dos potiguares e janduis, juntos, em dois crimes bárbaros em engenhos da zona da mata - RN, inclusive a morte de várias pessoas durante uma missa em uma capela, crime de cunho religioso, já que os holandeses eram protestantes e havia muitos judeus entre os integrantes do Brasil holandês. Para os índios não havia diferença em se adorar o Sol, a lua ou um deus desconhecido.

Os Janduis são a tribo indígena brasileira mais retratada (desenho) e historiada por autores de nações e línguas diferentes, provavelmente por sua liberdade arredia, irresponsável, mas também por ter a chance de conviver com culturas e povos tão diferentes.

Esta pequena pesquisa sobre a Nação Janduis foi facilitada pela existência de muitas fontes literárias que tratam do assunto, mas particularmente porque nas minhas veias corre sangue janduí.

RNNEBR, Jan 2002.

Por Damião Severino de Medeiros.
Em http://medeirosjacauna.blogspot.com.br/2012_06_01_archive.html

2 comentários:

  1. Belo texto Damião. Nós,brasileiros de hoje, precisamos relembrar e venerar nossos ancestrais indígenas, os índios são os verdadeiros donos dessa terra, mas, com tudo isso temos vergonha de nos dizer descendentes dos donos da terra. eu também tenho sangue da etnia jê, minha avó era goitacá, tribo gê do estado do Rio de Janeiro.

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  2. Belo texto Damião. Nós,brasileiros de hoje, precisamos relembrar e venerar nossos ancestrais indígenas, os índios são os verdadeiros donos dessa terra, mas, com tudo isso temos vergonha de nos dizer descendentes dos donos da terra. eu também tenho sangue da etnia jê, minha avó era goitacá, tribo gê do estado do Rio de Janeiro.

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