quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

ACTA DIURNA - DENDÊ ARCOVERDE PARTE I

André d'Albuquerque Maranhão Arcoverde nasceu no engenho Cunhaú, freguesia de Nossa Senhora do Desterro de Vila Flor, termo de Goianinha, no ano de 1797. Era o segundo filho do tenente-coronel José Inácio d'Albuquerque Maranhão e de d. Luzia Antônia, irmã de André d'Albuquerque, o desgraçado Chefe da revolução de 1817 no Rio Grande do Norte.
Teve a meninice tradicional dos meninos ricos, filhos de fidalgos, donos de engenhos. Correu a cavalo, saltou por¬teiras, armou arapucas, pulou os córregos, tomou banho no rio Piquiri, sesteou debaixo das sombras das velhas árvores, formou batalhão com os moleques da redondesa, esmurrou os primos, indigestou de bolo-preto e doce-seco, trepou aos coqueiros, assustou as matronas, dormiu cansado ...
O Pai, homem áustero e poucas falas, de manso trato e ameno viver, era governado pela mulher, dona Luzia Antônia, enérgica e voluntariosa, chamada o' Homem da Família, de quem o filho herdaria a melhor parte de seu gênio impulsivo. Ao entrar na mocidade, José Inácio mandou Dendé, como todos os conheciam, para a Europa, aos estudos. Estudar o que? Leis? Cânones? Medicina? Não se sabe. Portu¬gal era o viveiro onde se implumavam os borla-e-capêlo da época. Ignora-se o país onde Dendé Arco Verde fôra estu¬dar. D. Izabel Gondim afirma ter sido Paris. Alberto Mara¬nhão informa que a Alemanha. Creio em Portugal. Portugal era a Europa, para quase todos os aristocratas antigos.
Em 1817, estava na Europa quando a revolução estourou. Quando regressara ao Brasil? Não se sabe ainda. Suas notícias iniciais são de 1830. Voltando ao Cunhaú não trouxe diploma nem curso feito mas vinha com uma mentalidade formada e concluída. Não há alteração dai em dian¬te nos seus modos e procedimentos. Há nele, a imutabilidade dos temperamentos decisivos.
É a mais estranha e sugestiva das figuras da Casa de Cumhaú. Em toda zona agreste do Rio Grande do Norte não há quem lhe desconheça o nome e não saiba uma sua façanha. Quase oitenta anos depois de sua morte, ainda o Povo lhe cita o nome com respeito supersticioso. Indicam todos os recantos de sua morada, os caminhos percorridos, os crimes, a coragem, o arrojo irreprimível. Hoje, como há mais de meio século após seu passamento, todos os trabalhadores de dois municípios, só aludiam à sua pessoa, com um vagar amedrontado, dando, invariavelmente, o tratamento oficial, "o Brigadeiro." E a voz cava estava traindo uma longa capitalização de obediência expontânea.
Dendé Arcoverde é um puro homem da Renascença, sem medo, sem pudor, sem respeito, sem supertição, despido de preconceitos, sem temer a Lei, nem ao Imperador, nem a Polícia, nem o Gabinete Ministerial, nem inimigos, vingan¬ças, ódios. Insensível, superior, desdenhoso, atrevido, inca¬paz de compreender os limites de sua vontade, ciente, inte¬gral que seu direito ia até as fronteiras de sua fôrça ele não tem remorsos nem piedades inferiores. Deliberando, exe¬cuta, com a precisão, a nitidez, a naturalidade de uma função normal. Tudo nele é natural, próprio, congênito. Diz o que quer, manda avisar a morte, intima que alguém deixe a casa e se mude, chibateia, surra, tortura, mata a punhal, a tiro, a veneno, comanda um exército de escravos ou pratica, sozinho, o ato, sem um arrepio na face, imóvel .e magnífica, como um autêntico barão feudal, um verdadeiro Herren-meister, pulso de ferro, coração de bronze, ao sol tropical do Brasil.
Tem, igualmente, conservadas, ciosamente, as virtudes de sua Raça. É faustoso, amante do cerimonial, generoso hospedador, respeitando, como a um rito religioso, o próprio inimigo que se acolhesse à sua residência, dando, apenas, o número de dias bastantes para que se puzesse a salvamento da alcatéa que sacudiria em perseguição inexorável.
Não o podemos enquadrar dentro das regras da Moral e da Lei. Dendé Arcoverde é uma exceção, o Homem Forte instintivo, arrebatado, feroz, cavalheresco, impressionável, magnífico de valentia, de atrevimento, de loucura pessoal. Não sofre um insulto. Não tolera um recalque. Não renuncia ao menor desejo. Veio, como Cezar Borgía, trazendo o "tuurumismo", o Homem natural e vivendo pelas leis-das-homens. Como Cezar Borgia, desapareceu numa tragédia pequenina, inferior aos seus méritos reais de impulsão e de vontade.
(06.05.1940) 
FONTE:http://ormuzsimonetti.blogspot.com/
         

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